Economia

ATAQUE

Presidente da Fecomércio-PI ataca fim da escala 6x1 com ameaças aos consumidores

Valdeci Cavalcante promete repassar custos à população e faz comparação descabida. Dados do Caged, Ipea e Unicamp desmontam argumentos do empresário

Da Redação

Sexta - 17/04/2026 às 00:56



Foto: Redes sociais Valdeci Cavalcante faz o discurso dos empresários
Valdeci Cavalcante faz o discurso dos empresários

Em uma postagem que circula nas redes sociais, o presidente da Federação do Comércio do Piauí (Fecomércio-PI), Valdeci Cavalcante, adotou um tom de confronto contra o projeto de lei federal que propõe a mudança da escala de trabalho 6x1 (seis dias trabalhados por um de descanso) para o modelo 5x2 (cinco dias de trabalho e dois de descanso). A manifestação, no entanto, foi além da crítica institucional e gerou revolta por conter o que especialistas e ativistas trabalhistas classificam como ameaça direta à população.

Em um vídeo, Cavalcante, que também é dono de um supermercado na cidade maranhense de Timon, vizinha a Teresina, argumentou que a aprovação da nova escala elevaria seus custos com salários. A declaração mais grave, porém, veio em seguida: segundo ele, qualquer aumento gerado pela medida será “tirado do bolso do consumidor”. Disse que vai aumentar o preço de tudo, do palito de fósforo ao quilo da carne e convocou a população a votar contra todos os parlamentares piauienses que apoiarem a proposta.

O tom de ameaça velada ao consumidor foi duramente criticado por internautas e especialistas, que veem na fala de Valdeci uma tentativa de chantagem contra a sociedade. “É o velho discurso de que qualquer direito trabalhista vira aumento de preço, como se o lucro não pudesse ser ajustado”, afirmam ativistas trabalhistas.

Comparação descabida

A postagem também chamou atenção por uma comparação considerada inapropriada por analistas. Cavalcante contrapôs o número de trabalhadores com carteira assinada no Piauí ao total de beneficiários de programas sociais federais, sugerindo uma relação de causalidade que, segundo críticos, não se sustenta factualmente.

Merlong Solano foi o único deputado federal do Piauí a contestar as informações e ataques de Valdeci Cavalcante ao projeto da escala 5x2 “Uma coisa não tem nada a ver com a outra”, afirma o deputado federal e bacharel em economia Merlong Solano e outros especialistas em economia e políticas públicas. Enquanto o número de beneficiários do Bolsa Família reflete uma política pública de transferência de renda para população vulnerável, o estoque de empregos formais é um indicador do mercado de trabalho e a relação entre ambos é de causalidade inversa: quanto mais empregos formais, menos dependência de programas sociais.

Dados que desmontam o discurso de Valdeci 

1. Sobre o aumento de preços: nem tudo é repassado

A ameaça de Cavalcante encontra respaldo em estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que estimam que a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais poderia gerar alta média de 6,2% nos preços ao consumidor, com impactos de 5,7% em supermercados e até 6,6% em roupas e calçados.

No entanto, pesquisadores contestam a inevitabilidade desse repasse. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluiu que os custos da redução da jornada para 40 horas seriam comparáveis aos de reajustes históricos do salário mínimo, medidas que não geraram desemprego nem inflação fora de controle. Nos grandes setores empregadores, como indústria e comércio, o impacto no custo operacional seria inferior a 1%.

“A associação entre geração de renda, produtividade e quantidade de horas trabalhadas é mais complexa do que muitas vezes se presume. Países que adotam jornadas médias menores que o Brasil apresentam produtividade significativamente maior”, afirma a economista Marilane Teixeira, pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais da Unicamp.

Marilane Teixeira, economista e pesquisadora da Unicamp 2. Produtividade: trabalhar mais não é trabalhar melhor

O Brasil ocupa apenas a 86ª posição entre os 175 países mais produtivos do mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), atrás de Chile (53º), Argentina (55º) e México (81º). Apesar disso, o brasileiro trabalha em média 38,9 horas semanais, mais que alemães (33,3h) e franceses (35,5h) .

Isso significa que o problema não é “trabalhar pouco”, mas sim trabalhar de forma ineficiente. A produtividade no Brasil é prejudicada pela baixa qualificação da mão de obra, infraestrutura precária e ambiente de negócios ruim e não pelo número de dias de descanso.

3. Geração de empregos: menos jornada, mais vagas

O estudo da economista Marilane Teixeira, do Cesit/Unicamp, mostra que a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas tem potencial de gerar até 4,5 milhões de novos empregos no Brasil e elevar em cerca de 4% os níveis de produtividade.

O dossiê, elaborado por 63 autores, revela que aproximadamente 21 milhões de trabalhadores brasileiros cumprem jornada superior às 44 horas previstas na CLT, e 76,3% das pessoas ocupadas no país trabalham mais de 40 horas por semana, o que derruba a narrativa de que o brasileiro trabalha pouco.

Além disso, em 2024, o Brasil registrou meio milhão de afastamentos por doenças psicossociais decorrentes de condições desfavoráveis no trabalho apenas no emprego formal.

4. Evidências internacionais: menos horas, mais resultado

A Islândia, ao reduzir sua jornada para 35 horas em 2023, registrou crescimento econômico de 5% e aumento de 1,5% na produtividade do trabalho. No Japão, um programa da Microsoft com escala 4x3 elevou em 40% a produtividade individual dos funcionários .

No Brasil, pesquisa da FGV com 19 empresas que reduziram a jornada mostrou que 72% delas registraram aumento de receita .

O que dizem os defensores da reforma

A proposta de redução da jornada 6x1 para 5x2 tramita no Congresso Nacional e tem ganhado apoio de diversas frentes sindicais e de direitos humanos. Defensores argumentam que a mudança:

  • · Melhora a qualidade de vida do trabalhador
  • · Reduz o adoecimento e o absenteísmo
  • · Aumenta a produtividade por hora trabalhada
  • · Gera novos postos de trabalho

“Não vai ser agora, com avanços tecnológicos, num contexto de pleno emprego, com crescimento econômico e o nível de tecnologia que temos, que não vai ser possível no Brasil reduzir para 40 horas”, afirma Marilane Teixeira.

O presidente Lula acredita na aprovação do projeto ainda neste anoO presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido enfático ao defender a reforma: “Com os avanços tecnológicos que o Brasil teve, acha que é necessário as pessoas trabalharem na mesma jornada que trabalhavam há 40 anos?” 

Entenda o que está em jogo

Enquanto o projeto ainda será debatido em comissões, a fala do presidente da Fecomércio-PI acendeu um alerta: o embate entre direitos trabalhistas e poder econômico promete se intensificar. Desta vez, no entanto, a ameaça explícita ao bolso do consumidor pode ter o efeito contrário ao desejado pelo empresário, unindo trabalhadores e consumidores em torno da pauta.

A última vez que o Brasil reduziu a jornada legal foi na Constituição de 1988, quando o limite caiu de 48 para 44 horas semanais — mudança implementada em plena “década perdida”, com economia em recessão, inflação alta e desemprego elevado. “Mesmo assim, as empresas não quebraram, nem se gerou desemprego”, conclui Marilane Teixeira.

Fonte: Redes sociais

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