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Na quitanda, o primeiro emprego

Chamava-se Antonio José Duarte o dono da quitanda


Quitada

Quitada Foto: Divulgação

Entrei como empregado no chamado mercado de trabalho aos 12 anos e meses. Era o ano de 1965. Em Passagem Franca, um amigo da família, por sugestão de minha mãe, com ela fechou um "contrato" e eu fui trabalhar numa quitanda de secos e molhados.

Chamava-se Antonio José Duarte o dono da quitanda – que alguns preferiam dizer "mercearia". Outros, menos, diziam "bodega", com leve tom pejorativo... Localizada num espaço privilegiado da cidade, numa travessa entre o Mercado Público e a Igreja, a 30 metros desta.

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Para mim, uma beleza, pois eu tinha, já, desde os 11, um "emprego" de sacristão nas funções de nossa bonita e amada Matriz de São Sebastião. Era parte do acerto de Duarte com minha mãe que eu compatibilizasse as duas funções. E ainda mais importante: que eu trabalharia tarde/noite, pois o turno da manhã era dedicado à Escola. O proprietário virou e disse algo assim: "confio em ti, Neto, aqui a chave; eu não estando, o que vc resolver, resolvido fica".

Que lembrança guardo e o que os pagos da memória me dizem dessas experiências de trabalho e responsabilidades tão antecipadas?

Em primeiro lugar, tinha-se por normal criança trabalhar ainda chegando à adolescência. Claro, na condição social que me movia, de trabalhar, mesmo, porque precisava. E a boa lembrança que em mim insiste é do quanto aprendi bastante com tais experiências.

Trabalhando dentro de uma organização de gente adulta, na quitanda, muita coisa logo aprendi. Com requisito de saber escolar, por exemplo, de fazer contas para fixar e etiquetar produtos à venda, anotar os "fiados"; e ainda mais aprendi, pelo exercício prático de algumas tarefas, por exemplo, abrir uma lata de querosene para vender em retalhos, manuseando garrafinhas e garrafões da clientela; levar à balança e preparar um embrulho com um quilo de açúcar; de sal; um prato de farinha; soda cáustica – que perigo esse manuseio!

Fiado? Na quitanda conheci ainda mais de perto o drama das pessoas e não tendo como adquirir quase nada, e cada um, no limite, articulando uma desculpa... Aqueles olhares esqueço jamais. E sem o dono por perto para dirimir o negócio, que deveria eu fazer...? Esqueço nunca disso e sabia que pais e mães precisando, mesmo, ao pé daquele balcão.

Ali aprendi o que é Nota Fiscal: chegado um carregamento – em geral de Floriano de novas mercadorias, que eu antes ajudara montar o pedir –, calcular o exato percentual sobre a aquisição de atacado e apontar o valor da venda, de produtos inteiros e fracionados, no tempo anterior às maquininhas.

Mas sobretudo conheci – talvez mais um pouco que o comum dos da minha idade – como funcionava a própria cidade, os seus fluxos: ouvi e vi os adultos tratando sobre os mais diversos assuntos de sua condição, negócios, política, prazeres, injunções, vícios...

Ora, uma quitanda entre o Mercado e a Mariz, num centro coexistindo com outras quitandas, lojas de tecido, farmácias, bares e até quiosques, alfaiatarias, tinha mesmo que entrar em contado com a cidade em fluxos, sua gente em busca da realização possível de um projeto de vida qualquer e razoável. Em qualquer cidade do mundo, por perto do Mercado e da Igreja, além da gente comum, fazem ponto bêbados, idosos em busca de conversa, desocupados ávidos por boatos de vida dos outras – e sobretudo das outras, do que antigamente chamavam de "raparigas". A propósito, na Passagem dessa época, a "Rua da Maravilha" estava a cem metros da própria Matriz e da minha quitanda.

Ah! A "quitanda do Antonio José", o meu lugar de trabalho, ficava a um quarteirão da delegacia/cadeia pública; de pequenos e discretos cortinados com banquetas de jogos: bilhar, baralho, dominó... As poucas pensões, hotéis locais, e até uma casa de café e lanches, estavam por perto, além da sede da prefeitura, posto médico, o maior ponto de diversão da cidade – de nosso centro feérico – a União Artística, além, já o disse, da grande movimentação em torno das atividades da Igreja e da Paróquia.

Igreja e paróquia, ambientes da minha outra ocupação. Assunto que será de próxima nota. Agradeço pela leitura.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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