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Por que uma universidade no Piauí?


UFPI

UFPI Foto: Divulgação

A Fundação Universidade Federal do Piauí tem seu marco formal de criação na lei nº 5.528, de 12 de novembro de 1968, publicada dois dias depois. 

Essa lei é um marco dos mais relevantes na elaboração da primeira instituição universitária do Piauí, com lances anteriores consideráveis e nas décadas que se lhe seguiram. Quase cinquenta e três anos depois, a Ufpi agora é uma referência em termos de pesquisa e ensino no Estado. 

Instalada em março de 1971, nela confluem, na origem, as experiências de educação superior anteriores que existiam no Piauí: faculdades de Direito, Filosofia, Odontologia, Medicina e Administração. A de Administração, em Parnaíba, uma iniciativa de várias associações civis, e da diocese, e a de Medicina, ainda estavam em processo de implantação quando da discussão e edição da lei acima referida. 

Por que uma universidade no Piauí? Essa uma pergunta que alguns faziam, num  contexto pouco permeável a novas ideias e práticas sociais. Poucos encaravam o assunto. Com uma escola superior na área de Direito, desde 25 de março de 1931, para muitos era o que bastava; Universidade não era uma aspiração trabalhada pelo núcleo hegemônico e operoso da máquina do poder da elite piauiense. Segundo estudos, ainda que nos cenários das décadas de 1950 e 60, para “desenvolver” o Piauí, pensava-se, antes, em melhor alcançar incentivo fiscal “para comprar arame farpado e cercar meus bois”.   

A arrancada mais envolvente em busca do erguimento de uma universidade no Piauí se deu em nível estudantil – membros discentes das faculdades anteriores. Um ou outro idealista em torno da máquina estatal apontou esse rumo. Raimundo Nonato Monteiro de Santana o principal deles. Propôs a criação de uma Universidade a ser sustentada com fundos derivados das rendas das Fazendas Estaduais, remotamente de Mafrense. 

Fato é que não há empolgação de governo e das chamadas classes produtoras e afins na direção de fundar-se universidade no Piauí. 

No entanto, dois fatos ocorrem – de extração contraditória –, e que depois concorreriam na viabilização da instituição universitária federal: a chegada de um novo arcebispo em Teresina e a implantação da Ditadura. Explicamos: Dom Avelar Brandão Vilela, uma autoridade no plano moral, irretocável, mobilizador de espíritos renovadores, para além da realização de seu múnus episcopal; depois, a Ditadura, ascendendo à chefia da República, um ditador piauiense, Humberto de Alencar – no Ceará nascido por uma injunção familiar da mãe parir na casa de mamãe, ainda que um Castelo Branco de quatro costados, de Campo Maior.   

Avelar acerca-se de idealistas disponíveis e juntos colocam de pé uma Faculdade de Filosofia para a formação de agentes para a docência, com estudos e aplicação sistemáticos, ante a impotência da ação governamental para tanto fazer. São as licenciaturas que originariamente organizariam o CCHL e o CCN, da Ufpi. A Fafi tinha 4 cursos já com uma década de funcionamento. E uma grande licenciatura sendo formatada em Ciências, com habilitações em Matemática, Química, Física e Biologia. Os bacharelados em Direito, Odonto, Medicina e Administração nucleavam aquelas faculdades acima aludidas – a lei exigia cinco para constituir uma Universidade.

Por seu vez, contrapondo o desenvolvimentismo nacional, de viés cepalino na América Latina, o golpe de 64 e sua ditadura ascendem com seu próprio projeto de desenvolvimento, de submissão internacional e conservadora. Ditadura que assumiu o projeto de dotar cada estado da federação de pelo menos uma Universidade. Nesse contexto é que Castelo vem a Teresina, em 1965, e anuncia, grandiloquente, que dará ao Piauí, “terra de seus patriarcas”, a Universidade e a Barragem da Boa Esperança. Este, aliás, um projeto já em curso, destacando-se pelo Piauí nessa luta, entre outros, Milton Brandão, e do lado maranhense uma bandeira fortemente agitada pela prefeita de SJ dos Patos, Joana da Rocha Santos, D. Noca. 

Anunciada a “dádiva” castelista, o núcleo poderoso do Piauí passou a ter nela muito “interesse” – e para o clientelismo renitente foi um bálsamo. Os anos seguintes a 68 foram dedicados a formatar papéis e tratar de cargos. Uma diretriz estadunidense, a forma jurídica de Fundação era mais complexa. Por fim solenizada a sua instalação em 1971.  

Nasce, foi e é a mais atraente máquina da burocracia federal no Piauí.        

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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