Luiz de Matinhos: luz de esperança

A vida de muitas lutas de Luiz se inscreve no contexto das jornadas históricas que marcam a formação social do Piauí em três séculos


Luiz Eduvirge

Luiz Eduvirge Foto: Arquivo

No Brasil de atraso político insistente, um lutador social que alcança os 90 anos de idade deve ser reverenciado com todas as honras.

Estou me referindo a Luiz Osório Lopes, o líder camponês, mais conhecido como Luiz Eduvirge, nascido e morador no sítio Matinhos, município de Campo Maior. Piauiense que liderou, no Piauí, a construção de uma Liga Camponesa, forma de organização dos trabalhadores rurais em sua luta histórica por reforma agrária. Eram os anos de 1950 passando aos 60.

A vida de muitas lutas de Luiz se inscreve no contexto das jornadas históricas que marcam a formação social do Piauí em três séculos. Jornadas por direito de morar e utilizar a terra para criar e plantar, que têm em Mandu Ladino e centenas de sem-terra, a sua referência mais significativa.

O conflito pela permanência na terra como seu espaço existencial inseparável, pelos nativos tidos por indígenas, constitui imperativo de luta de resistência já nos primeiros momentos em que as hordas de entradistas – também chamadas de bandeiras – invadem os vales dos rios locais em busca de corpos deles para prear e vender como escravos. E fato conexo, ditos bandeirantes logo apropriam-se das terras e águas superficiais do espaço-terra quase infindos do que logo se denominaria de Sertões do Piauí. Estavam dadas as condições do estabelecimento da sociedade de criadores e pequenos plantadores do Piauí, uma dependência político-administrativa do reino português, no Ultramar. Economia pastoril com um considerável nível de intercâmbio no interior da América portuguesa. E no final desse primeiro século – o XVIII –, um ensaio de exportações, no exato contexto da crise e superação do colonialismo mercantil.    

O que se verá nesse primeiro século da imposição da ordem colonial nos referidos Sertões – não sem muita resistência nativa em prol de sua existência sobre a face da terra –, é a configuração consolidada do que se teria nos dois séculos seguintes como expressões da estrutura e dinâmica da sociedade piauiense. Isto é, uma estrutura econômica e social, de certo modo infensa a mudanças, sem aparente capacidade de se dinamizar. Há espasmos mais recentes de cíclicas e curtas ondas exportadoras – borracha de maniçoba e cera de carnaúba... – com baixos impactos na dinâmica urbana do Piauí, por exemplo, mais significativa no ordenamento demográfico do Estado, ainda com acentuadas características rurais.

O Piauí tem indicadores de atraso social atestáveis pelas estatísticas. Quase tudo leva a uma massa de gente sem-terra, sem meio de viver na conformidade mínima do que baste no contexto-mundo em que vivemos.

Em meio a essa população com graves níveis de exclusão vivendo entre a ruralidade recôndita, à sua margem, e à margem ou franjas das em geral frágeis cidades piauienses, há um imenso contingente de filhos sonegados da terra pelo patronato latifundiário concentrador. Agora o latifúndio agro negocista, que não supera o abismo de miséria persistente no campo; antes, sob vários aspectos, o agudiza.

No último dia 16 de novembro, no sítio Matinhos, referência material e mais que simbólica de sua luta, amigos foram por lá abraçar Eduvirge pelos noventanos. Estava muito feliz e muito empenhado na memória de sua intrepidez: já poucos vivos entre os que ombrearam com ele o labor da Liga, mas muitas outras pessoas que se fizeram admirar e segui-lo no exemplo, indesistível, de continuar a luta por justiça agrária e toda justiça. Estavam seus muitos filhos, mais de dez, netos e bisnetos. Uma coincidência cheia de significados: governadora do Estado, esteve por lá sua amiga Regina Sousa, companheira dele de Partido dos Trabalhadores. Também o prefeito petista de Campo Maior. Eduvirge é um dos fundadores do Partido. Lula esteve a visitar ele, em Campo Maior, no próprio ano da fundação, 1980.   

O grande Luiz entrega sua vida à luta secular pelo direito de todos que lavram e pastoreiam no Brasil a ter um lugar para existir em dignidade. Direito humano fundamental. Aliás, de toda criatura vivente. Serve à causa da humanidade; um exemplo a ser seguido nesta hora de ataque obscurantista.    

Fonseca Neto, da APL.


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Sobre a coluna

FONSECA NETO

FONSECA NETO

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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