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Danações na conjuntura: sujeição agradecida

Bolsas emergenciais nas secas, enchentes, pandemias sazonais, mas sobretudo que enchem barriga no país


Auxílio emergencial

Auxílio emergencial Foto: Shutterstock

Danações da conjuntura... Danações que explodem em disjunturas cruéis.

a) O auxílio emergencial é medida favorável na redistribuição estatal de renda... E se faz a grande chave para a reeleição da infame criatura.

b) O fechamento das escolas é imperativo contra a mortandade... e é desastroso na vida de milhões de crianças e jovens.

c) A forma democrática há que ser sustentada, princípio de bons auspícios da vida social... Mas o ferrão opressor libertino sobre milhões é que dá o modo e tom de seu andamento.

d) Na defesa do Estado ante a agressão da “reforma administrativa”, como fazer isso e condenar implacavelmente a camarilha de funcionários que o tem sob ferrenho controle para inclusive excluir os empobrecidos?

e) A greve dos Correios garante empregos de seus trabalhadores... E desvanecem no prejuízo milhões de pessoas que precisam dos seus públicos serviços, sem alternativas e sobretudo nas agruras pandêmicas... A grande empresa não sente nem cócegas com essa paralização para mover seus negócios e interesses em geral.

f) A greve do transporte coletivo rechaça a pilhagem patronal sobre os trabalhadores...Mas milhões do povo ficam ao sol e ao relento sem saber se vão ou se ficam. 

 g) A mobilização para a garantia da incolumidade de detentos não humanizou os presídios... É generalizada a percepção que estes se tornaram escolões que organizam o crime.   

Nesta quadra conjuntural – em particular nestas zonas ameríndias devastadas pelas colonizações - vive-se o agravamento dessas diferenças, de há muito gritantes, na dinâmica das sociedades que se particularizaram ao longo da história humana conhecida. Brasil um exemplo gigante pela própria brutalidade antinatural que permeia sua formação. 

Há que se articular um modo de radicalizar a luta por justa humanidade, sem que os perdedores imediatos sejam, sempre, os perdedores de todos os tempos, oprimidos e excluídos. É até fácil constatar tantas perdas, causadoras de quantas misérias, porém, encaminhar coletiva e satisfatoriamente a superação disso é tarefa aparentemente inalcançável. 

Voltando à letra “a” dessa espécie de dilemática.  

Bolsas emergenciais nas secas, enchentes, pandemias sazonais, mas sobretudo que enchem barriga no país que consegue ser o rei da comida enquanto também é um reino da fome: como impedir de serem agradecidos a quem os saciou os famintos e excluídos em geral que comem tais bolsas e cestas e que se tornam “clientes” das chefias que mandaram doar as ditas? Corrigir séculos de mentalidade estruturada na violência da dominação, submissão, sujeição. Como lembra um historiador amigo, Jean Carlos Gonçalves, essa é a “sujeição agradecida”. 

Sujeição que – perversão devastadora nas condicionalidades e determinações da vida social-cultural-política –, em um mês elegerá um número avultado de prefeitos e vereadores no Brasil. Não é fácil afirmar, mas o contrário e diferente dessa sujeição, o apego a valores democráticos e outras percepções de civilidade, não resistem à chamada realpolitik. 

Se a injustiça que leva à miséria convertida em desigualdades entre os indivíduos é o insumo que pavimenta o caminho mais fácil para conservar a dominação sobre os sujeitados, como desatar esse nó? O certo é que há de ser obra da humanidade em luta. A História conhece disso.

Que coisa! hein? No Brasil covídico, assim como fora no das varíolas e sezões, secas e aguarões, os dinheiros alocados para os socorros garantirão anos mais de sujeições e sujeitados. O Infame, mor, festeja sua permanência, à frente do estado do ódio e da dor, à custa da sujeição do emergencial pandêmico. 

E na base da sociedade, no piocerão e allures, os sujeitados agradecidos incensarão as prefas e vereações da incivilidade, a quem não faltam misérias reiteradas com que se alegrem.     

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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