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Chico Feijão e o mastro de 36


Mastro

Mastro Foto: Leila Aires

Uma das perversões da elite na formação histórica do Brasil é sua compulsão em reprimir a manifestação dos modos de ser, fazer e durar, de gentes e povos não vindos da Europa colonizadora.

Os povos originários dos vários brasis e seu jeito de viver e ainda mais os contingentes sequestrados nas áfricas e trazidos para esta América, tiveram suas vidas profundamente atingidas no campo das ceifas coloniais.

Vejam a história de Chico Feijão, um Capitão da Lavandeira, ou do Mastro, assim titulados os devotos que se fazem condutores da Festa da Lavandeira, na secular povoação, hoje cidade de Passagem Franca, no sertão dos cocais do Maranhão.

Ritualizada em muitas partes do mundo, a tradição de levantar mastros, na terra de Dona Franca, faz-se há mais de duzentos anos, em 10 de janeiro, ato de religiosidade popular tocada a tambor e pife, na véspera do novenário de São Sebastião.

Ontem, como hoje, festa de trabalhadores das lavouras e criatórios. Pois vejam: nas eras de 1936, chegou na Passagem um delegado de polícia e “ignorou” aquele costume de negros e pobres em geral andando pela rua carregando um tronco descascado e uma bandeira do Padroeiro. Achou aquilo coisa de “vadios” que deveriam ir trabalhar. 

O delegado, com o incentivo de elitistas locais, resolveu então proibir a “brincadeira” e decretar que o Mastro e sua Bandeira – lá cantada como Lavandeira – não poderiam ser levantados no adro da Igreja Matriz. Iriam presos os desobedientes. Grande revolta causou.

Aí é que entra forte a participação do já então idoso Chico Feijão, capitão do Mastro e morador defronte da Matriz. Disse Feijão: se não deixam alevantar o mastro na porta da igreja eu quero é ver não deixarem a agente levantar na porta de minha casa!

Foi à forra: mastro foi levantado e o festejo do Padroeiro do lugar muito concorrido naquele ano. A proibição do insensato delegado foi motivo de se tomar ainda mais pinga, típica, e que a da Passagem, sempre, foi cantada em prosa, verso e em trago, um após o outro.

Participaram da proeza, claro, ao lado de Capitão Feijão, outros, a maioria roceiros e vaqueiros, entre eles, Seu Tôca, Chico Sousa, Raimundim, Sinda Caetano e outros da família, e valorosos lavandeiros da estirpe, do Peixe, Bom Lugar, Cabeça Torta...

Famosa história, lembrada pelos mais antigos, sempre que aparece alguém querendo criar confusão com o “povo” da Lavandeira e seu jeito de acontecer na história comunitária passagense. Detalhe, meio sinistro: já em 1936 se dizia que quem atrapalhasse a Lavandeira não botava até o fim do ano.

E o delegado? De fato, não viu 1937 chegar. E eis que reforçada a tradição de que ninguém mexa com o reinado da Lavandeira. E esses mais velhos contavam isso porque, lá mais atrás ainda, morreram outros, inclusive vigário, porque zombaram a amada festa.

Já Chico Feijão chegou à década de 1940, ficando também famoso na cidade por escapado de um incêndio, em 41. Ele doente, paralisado, no fundo du’a rede, e um grande incêndio vinha queimando as casas de palha de sua vizinhança... “E o medo dele foi tão grande que se levantou e escapou...”.     

Essa e outras crônicas verazes da Lavandeira escutei de grandes amigos, capitães que conheci: capitão Teotônio, o Dunda, filho de outro Teotônio, do Bom Lugar; capitão Tôca; Pedro Bimba; Vicente da Carolina; Vicente Craxi; Antonio do Germano; Pedro Braga; Danda Silva, com a memória do prefeito à época, Nelson Porto; capitão Né do Izídio... Grandes passagenses.

Fonseca Neto, historiador, Cadeira 1, da APL; Cadeira 27, Apagefran; Cadeira 11 da ALPastos Bons. 

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.
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Fonseca Neto

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FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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