Proa & Prosa
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Carvalho Júnior

Pulsam horizontes de horror. A arquitetura jurídica afunda nos particularismos da partidarização.


Caxias (MA)

Caxias (MA) Foto: Divulgação

Dos carvalhais lusos provém a sobrenominação desse arvorão familiar brasílico. Os Carvalho enramam por todos os rincões deste trópico que sem dó foi levado ao pecado e se recusa a despecar.

Vivemos instantes de nossas vidas marcados pelo ataque coronoviral que amedronta e torna insegura a travessia de muitos. Momento extremoso de ceifas de vida em escala de tragédia que a presente geração delas somente ouvira zoar pelos memoriais da turba incalável.  

No Brasil tudo agrava-se numa conjugação impostora de forças extremistas, bestiais, aderentes de ideologia e prática em que a ideação do matar substitui os modos e formas havidas de labor civilizante. O que em algumas formações sociais-culturais da contemporaneidade se vem chamando de fascismo,  nazismo, supremacismo branco... Aqui, forças da brutalidade garantem e reafirmam a condição de submissão do país a impérios de vezeiras predações, antigas e atuais colonizações. 

Ditadura, comunavírus, obscurantismo

Na quitanda, o primeiro emprego

Abraão, Augusto, Cornélio

Pulsam horizontes de horror. A arquitetura jurídica afunda nos particularismos da partidarização. Levam de roldão o mais recente e romântico arranjo do experimento democrático, do segundo 88  – que periclita. Brisas leves de aspiração democrática soprando nas ruas dos 80 amanharam um monstro judiciário arrimo da ditadura em viço. A tirania da bala se nutre, arfante. A chefia dos exércitos diz que o corona é arma “comuna” a destruir a secula-vilipendiada tupinália.

Claro! Thiago vive! E vive para recobardar que ainda que faça escuro não se pare de cantar. E há sinais que não cessam os brados justos de lutadores insones ante o avanço do assalto final dos algozes. Lutadores que alargam as veredas da vida e da liberdade.

A citação ao poeta do Estatuto do Homem é para lembrar que o reino da escuridão não calará a poesia. E não haja poesia a incensar os sedentos de sangue; a morada dos vermes. A poesia não solfeja para exultar a morte. Não mortifica, anima.

E eis que dois Carvalhos poéticos de nossas redondezas se hão subtraídos neste tempo de apressamentos reais e imaginários da finitude. Tempestuosos para eles o tempo de março.

Jorge Carvalho, de enraização parnaibana profunda e lavras poemarít(i)mas reconhecidas, deu-se ao mistério e foi surfar às brisas visitadeiras dos litorais ao norte. A ardência radical no amanho de sua terra-mãe brotou em banzo em seu tempo recifal. “Quero voltar prá Parná / lá é que é meu lugar /.../ lá é que sou feliz / pois o que quis fiz e bis” (JC no Parnaybanzo).  

Carvalho Júnior nasceu nos embrenhos das serranias e cocais caxienses. Um corpo pleno, inscrito em certa poética que logo se faria ouvir pelo arredor.

De Jorge, amigos, a exemplo do poemágico Elmar, Carvalho, lembram que ele chegava às sete décadas de sua vida muito impactado pela tragédia viral. Digo mais que tragédia agravada no Brasil porque dentro do processo de corrosão de valores de amor radical à beleza da vida. Do destrutivo ataque do negacionismo baldado na necropolítica que move a direção do organismo brasileiro.

Júnior, não faz tempo chegado à casa dos 30, já se enleara na constelação poetante, rebrilhosa nas asas-alegorias do século novo.  Cadeira na Academia Caxiense.

Há pouco dias, o amigo Edwar Castelo Branco, telefona ansioso por entregar-me encomenda trazida de Caxias. Mal tive tempo de me ajeitar para ir ter mãos nela, o próprio bateu na toca e deixou: livro de cor bonita na capa, garatujal de palmas, e  título afiado: Babaçu Lâmina – 39 poemas. Antologia organizada pelo poeta Júnior, para mim enviada com honroso autógrafo do professor Isaac Souza, que recebi como graça de mais de uma dezena de poemetáforos que pessoalmente conheço. De Caxias e de seus arrabaldes de irredenções.

Degusto. E logo sinto haver mesmo lâminas afiadas temperando espíritos para tochar a treva dentro de cuja escuridão explode o ovo da serpente fascista; que viça. E em 2019 nem sabiam os lamineiros do tempero aditivo de dor e devastação da covidinara criatura.

Jorge, reencarna-te na tua Parná; assim quis? haverá bis! Júnior, as sementes que te vestem e vivem, viverão! A utopia, na ucronia.    

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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