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Abraão, Augusto, Cornélio

Abraão, por mais de cinquenta anos, manteve em pleno funcionamento uma lanchonete, situada à rua Rui Barbosa, zona norte de Teresina


Seu Abraão

Seu Abraão Foto: Divulgação

Três homens que se tornaram vultos notáveis em Teresina e que têm em comum na história em suas histórias terem nascido no município de São João dos Patos, Maranhão: Abraão Gama, Augusto Ferro e Cornélio Evangelista.

Por que a notabilidade dos três? Boa pergunta. Porque eles – já vivendo apenas na memória social de Teresina – são pessoas distintas pelo exemplo e singularidade de sua condição de cidadãos comuns, os quais se inseriram no corpo vivo da capital do Piauí, com positivas experiências no produzir e mercadejar coisas simples e marcantes.

Abraão, por mais de cinquenta anos, manteve em pleno funcionamento uma lanchonete, situada à rua Rui Barbosa, zona norte de Teresina, nas vizinhanças do antigo Campo de Marte, entre a Santa Casa e Cemitério São José. Ele e sua equipe familiar aperfeiçoou a técnica de preparar – direto das frutas – os mais diversos tipos de suco.

E o diferencial do Suco do Abraão, já que sucos e refrescos são beberagens comuns do merendário local? A reconhecida boa qualidade de seu produto famoso, a variedade e o asseio. Uma lanchonete que sempre foi uma extensão da casa de morada de seu proprietário.

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Sucos sem subtração da hoje chamada "polpa" da fruta. No caso da sucaria de "seu" Abraão, nunca se viu falar de refrescos aguados, desenxabidos. Sucos grossos, assemelhados às suas parentas próximas, as cambicas e samberebas.

E algo que todos que gozaram de maior proximidade dele o atestam: a camaradagem, a boa prosa lancheteira, o papo das calçadas, sobretudo as de esquina, lado da sombra, a exemplo de sua morada-empresa, numa rua há muito das mais transitadas da Capital.

E Augusto? Famoso idealizador do não menos famoso Picolé Amazonas, marca mais duradora existente em Teresina nessa matéria, cidade caracterizada pela timbre fugaz de muitas coisas interessantes de sua vida material e cultural.

Ele veio do Riachão e aqui, sem maior instrução formal, mas revelando um tino comercial aguçado, logo monta quitanda na conhecida rua do Barrocão, transferindo-se para a zona do futuro Mafuá, quando esse pequeno bairro se estruturava a partir de uma impactante obra de governo ali naqueles redores: a implantação do trecho suburbano da ferrovia procedente do Maranhão, pela Ponte Metálica, nos anos 1920-30, contornando o centro de Teresina – a linha do Metrô, de hoje em dia.

Augusto, vendo esse quase espontânea um ajuntamento de peões de obra se arranchando de qualquer jeito, organizou quitanda de artigos populares, secos, molhados, ferraria, armarinho, vendidos em estrados nas calçadas e esteiros sobre o chão, tudo ao modo informal das tradicionais feiras. Aliás, logo o vulgo começou a perceber todo aquele frege e a tudo passou a chamar de "Feira do Augusto Ferro". No meio disso, a invenção do picolé famoso, que ganhou a cidade calorosa, do centro às franjas.

Cornélio tem igualmente seu nome associado a uma iguaria de lanchonete  tradicional na saborosa cidade de Teresina. Um pãozinho aqueijado – "Pão de Seu Cornélio" – por muitas décadas com seu ponto de vendas numa esquina-canto à praça Pedro II.  

Mas lanchonete vendendo sucos com pão não é tão comum? Por que a notoriedade? Primeiro, lá no começo, a novidade: um diferencial da receita do pão, com toques carcamanizados – Cornélio tinha em sua esposa de linhagem árabe uma aguerrida companheira em seu pequeno mas trabalhoso negócio.     

Volte-se a perguntar: mas o que os três fizeram não é tão comum outros fazendo em todos os tempos? Que diferenças há com os três?

Sim. Os três alcançaram, com suas iniciativas e insistência – que sobreviveram a eles –  um negócio que muito agrada as pessoas a quem se destina. Essa espécie de agrado e preferência como que instituiu uma marca que se plasmou no sentimento de três gerações. No caso de Teresina, de fluidas percepções quando se trata do imaginário de si, "o suco", "o picolé" e "o pão", repercutem na alma mediana dos citadinos e escalam positivamente sua autoestima. Assim, tornam-se uma expressão identitária do viver, do ser, do pertencer a Teresina.

É a inovação real, no criar, no fazer, cultivar. Conheci pessoalmente dois deles e sei que nunca precisaram de outra propaganda sobre o que faziam.     

 

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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