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Uma bela lição de Brasil

O corredor usado no título é essencialmente a trajetória de nosso país, de seus dilemas e dificuldades para o desenvolvimento


Advogado Álvaro Mota

Advogado Álvaro Mota Foto: Paulo Pincel

O título bem caberia a um romance ou a um livro de poemas, mas "A Solidão do Corredor de Longa Distância", de João Paulo dos Reis Velloso, é um excelente retrato de história e economia do Brasil. O corredor usado no título é essencialmente a trajetória de nosso país, de seus dilemas e de suas dificuldades em chegar ao desenvolvimento.

Reis Velloso, morto em fevereiro deste ano, aos 87 anos de idade, mostra nessa obra referencial um país imenso, rico, sem conflitos étnicos, falando a mesma língua, com inúmeras potencialidades, mas que ainda assim não dá certo. Não tem crescimento sustentado, vive de crise em crise, quase como um bêbado trôpego que não saber para onde ir. Por que assim? As respostas poderão ser encontradas ao longo das 260 páginas do livro, que acaba de ganhar uma nova edição, dentro do magnífico esforço de reedição de autores piauienses levadas a efeito pela Academia Piauiense de Letras, sob direção de Nelson Nery Costa.

Há um filme com título homônimo ao livro de Reis Velloso, um dos mais brilhantes pensadores econômicos do Brasil: “The Loneliness of Long Distance Runner”, dirigido por Tony Richardson, em 1962, por sua vez baseado no romance de mesmo título de Alan Sillitoe. Com uma diferença básica: o filme e o romance tratam de uma personagem que foge para fugir da opressão. A nossa solidão nacional, mostra Reis Velloso, é de outra ordem.

Na visão do economista parnaibano, o desenvolvimento é uma corrida de longa distância, e nela há um elemento de solidão, de ter encontrar o próprio caminho e fazer o esforço próprio, sem o qual mesmo as favoráveis condições externas não irão trazer a realização do potencial do país e a condição de desenvolvido.

A reflexão sobre o Brasil elaborada em A Solidão do Corredor de Longa Distância busca suas referências na vastidão das obras clássicas de Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda.          João Paulo dos Reis Velloso constata que nossa história e nossa política foram e continuam eminentemente barrocas, em diversas formas políticas no século XX, como o mandonismo, o coronelismo, o populismo, o regime militar e a Nova República.

Depois de tecer considerações sobre a China, seu desenvolvimento recente e suas encruzilhadas, o autor faz sugestões para o futuro do Brasil. O que pode ser feito para o Brasil voltar a crescer com solidez? Como conseguir um horizonte de estabilidade econômica? Como distribuir renda e aumentar o número de consumidores, mas manter a máquina pública enxuta? Como construir uma ponte para o futuro? São as indagações que João Paulo dos Reis Velloso vai produzindo e ao mesmo tempo respondendo de forma sólida, sensata e possível.

O livro é um documento importante para entender o Brasil. Serve a todos, mas, sobretudo, a economistas e historiadores – que poderão registrar o documento a partir do marco de sua escolha em primeira edição pelo Ipea, uma cria da genialidade de Velloso, um de seus criadores e seu presidente entre 1967 e 1969. Ao publicar, em 2011, A Solidão do Corredor de Longa Distância, de o Ipea prestou merecida homenagem a seu fundador e primeiro dirigente no ano em que ele comemorou 80 anos de vida.

Mas para além de justeza da homenagem a Velloso por oito décadas de vida – a maior parte delas dedicadas de modo sincero e profissional ao país – o livro editado pelo Ipea e agora reeditado pela APL é uma obra perene de elevada importância, registrando  a busca obstinada do próprio esforço empregado na consecução do desenvolvimento econômico, que sempre envolve novas e criativas transformações.

Um livro fundamental, sim, porque aponta que o crescimento do país pode se dar por um sem número de ações e escolhas. De um lado, aproveitar grandes oportunidades econômicas (utilizar o pré-sal para transformar a economia; avançar na biotecnologia com base na biodiversidade; criar no país um centro global de tecnologia da informação e comunicação – TICs; construir grandes complexos industriais em torno de setores intensivos em recursos naturais – agronegócios e agroindústrias, mineração moderna e metalurgia, petróleo e petroquímica; e fomentar indústrias criativas – cultura, artes, entertainment, turismo, entre outras) de modo a viabilizar uma era de grandes oportunidades.

De outro lado, dispor das forças inventivas proporcionadas por uma sociedade ativa e moderna, liberando tanto a democracia quanto o desenvolvimento, e um Estado capaz de atuar com visão estratégica, de destrinchar a questão política e tornar a Justiça ágil e acessível a todos, poderão interagir em mágica sinergia. E proporcionar o avanço do Brasil como cultura e civilização, realizando nossa utopia: o sonho brasileiro, a busca da felicidade.

Isso tudo parece nos indicar que quem soube fazer está agora sabendo também ensinar e convencer.

Velloso, em seu livro, nos encaminha neste rumo, ao propugnar que, antes de desenvolver essas ideias, que nos devem levar a uma Era das Grandes Oportunidades e a uma Visão de Brasil desenvolvido, é necessário olhar para o espelho retrovisor, a fim de adquirir a necessária perspectiva histórica. O livro nos dá essa ferramenta, ao mesmo tempo em que nos mostra que escolhas certas são a chave para se evitar um futuro incerto.

 Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados

Fonte: Alvaro Mota

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Sobre a coluna

Álvaro Mota

Álvaro Mota

Procurador do Estado e mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Álvaro também é presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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