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Piauí ontem: aglomerações mortais insistentes

Essa é uma dimensão do capítulo brasileiro da tragédia, sem ironia, ironicamente chamada de Covid-19


Seca no Piauí

Seca no Piauí Foto: Francisco Gilásio

Um horror sob os céus o espetáculo de desvalidos, ao sol, infortunados, em calçadas e batentes sujos, para receber uma “ração” monetária que lhes ajude comer. São aglomerações desumanas que encaminham milhões de pessoas ao pasto da pestilência que devasta. Essa é uma dimensão do capítulo brasileiro da tragédia, sem ironia, ironicamente chamada de Covid-19.  

 Outra dimensão dela é a sinistra condução do Brasil ante o vírus mortífero. Um tipo irresponsável, no mando, com obsessão na ideia de matar – sob tortura, de preferência –, assanhando o povão a se contaminar. “E daí...?”. Serve-lhe politicamente que, em desespero, os pobres instabilizem o jogo do poder e ele se torne o abutre-ditador sobre os cadáveres... Nazifascismo em versão arruinada. E pode ter versão mais infernal? Estamos vendo sinais pelas ruas. Parece um delírio se coletivizando. Pior, não é delírio. A TV ontem já contava mortes por hora; sobe a contagem aos milhares rapidamente. E bolsomoristas em ruas interceptando ambulâncias e zoando em portas de hospitais.

Mais outra face, bastante conhecida, no palco da realidade: o pedaço mais rico entre os socialmente incluídos – a ponta fina da pirâmide social – já “reserva”, isto é, compra seus lugares de hospital, prevenindo-se da ceifa... Quase vira mito a conversa de ser ela doença de rico... Mito sinistro no Brasil por capaz de enganosamente aliviar o temor dos que não o são. Aliás, no Piauí, ter sido um prefeito a morrer por primeiro reforçou tal e falsa percepção. Não. Os excluídos do sistema social iníquo são os condenados, a priori. Mais uma vez.

No Piauí de outro ontem, neste norte agrariamente depauperado pela primeira onda devastadora da pilhagem colonial, mercantil e genocida, as doenças da miséria, inscreveram as mais dantescas epidemias na eliminação do povo trabalhador. Os anos de 1877-78, da “seca de 77”, ainda ressoam, rarefeitos, na memória pessoal de muitos. E na memória social.

O destino de populares “cearenses” desesperados era o Maranhão, o vale itapecurano, chegando no Alto Mearim. Atentemos o que o dizem observadores das cenas reais, em cartas a jornais da ilha-capital, em abril de 1878: “Já vão procurando este termo os emigrantes cearenses. Nas povoações da Passagem Franca e São João dos Patos existe um grande número desses infelizes, além dos que têm procurado os centros para empregarem-se na lavoura. 

Há já falecidos muitos nas ditas povoações, atacados pelas febres intermitentes... Do Mirador, outro observa : “Já não [é] pequeno o número de retirantes que existe nesta comarca, vindos do Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba do Norte; os que vieram primeiro trataram de se arranchar e trabalhar, já se vão remediando com o fruto de seu trabalho, apesar do mau inverno, mas os que vão agora chegando e que ainda andam errantes, faz cortar o coração ver o estado de miséria, que trazem cobertos de andrajos, mortos à fome, doentes de sezões, que apanharam no Piauí, carregando nas costas os tenros filhinhos, e na cabeça os poucos farrapos que lhes resta; sem dúvida um quadro contristador, e que ninguém pode ver sem que fique compungido; felizmente eles têm encontrado nos habitantes dessa comarca a verdadeira caridade, todos, mais ou menos prestam os socorros que podem ser compatíveis com suas forças. 

O governo alguma cousa tem feito, mas muito pode ainda fazer em favor de tantos infelizes; a meu ver de pouco serve o socorro do governo, limitado a uma pequena ração que recebem [retirantes] nos pontos em que há, porque coitados, mortos à fome à espera dessa mesquinha ração não procuram outro recurso, aglomeram-se naquele ponto [em que se desenvolveu] a peste [e] sem outro recurso tem a morte certa, enquanto assim o auxílio do governo poderia ser outro que teria melhor resultado. Temos nesta província imensas terras devolutas, lembrarei por exemplo as matas do Japam, que demoram entre a vila dos Picos e a Barra do Corda, excelentes para a lavoura, abundantes de caça e de peixe, mande o governo para ali toda esta gente...”. (Diário do Maranhão, 22-MAI-1878, p. 1).

Tragédias previsíveis. Elite irresponsável.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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