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COVID-19

Golpe: inimigo da cultura

Apesar de não ser autoridade nesse campo, mas no que posso apresentar as minhas ideias não meço esforços, e venho fazendo já por quase três décadas.


Ditadura

Ditadura Foto: Pulse

Eu tive alguns professores na educação superior, em Recife, que chamavam a atenção dos seus alunos para a dedicação ao conhecimento e à cultura como elemento difusor do aprendizado para toda a sociedade nos meios de informação e comunicação.

Apesar de não ser autoridade nesse campo, mas no que posso apresentar as minhas ideias não meço esforços, e venho fazendo já por quase três décadas.

Face ao obscurantismo político, econômico, social, educacional, cultural e moral que atravessa o Brasil, não me canso de divulgar o seu aparelhamento ideológico na educação e na cultura, com o patrulhamento em algumas modalidades de criação (livros, filmes etc.), além do achincalhe ao método do educador Paulo Freire e tangenciar o diploma do Prêmio Camões da Língua Portuguesa vencido com mérito por Chico Buarque de Holanda.

Mas na domiciliar imposta pelo coronavírus me debrucei na leitura, e deparei-me com um texto irretocável. É o artigo da jornalista e escritora Daniela Kopsch, na coluna Ponto de Encontro da revista Conhecimento Pratico: Língua Portuguesa e Literatura (edição 80), com o título “Já dizia o poeta: onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas”, conforme na íntegra abaixo:

“Desde que o mundo é mundo, a cultura é inimiga do autoritarismo. Há um hino sumério que diz: antes de reduzir um país a ruínas, preocupe-se em aniquilar sua cultura. Essa instrução de guerra remonta aos tempos da invenção da escrita cuneiforme, inscrições gravadas sobre tabuletas de argila, as tais ‘tábuas de pedra’ citadas no Velho Testamento - objetos que hoje poderíamos chamar de ‘os primeiros livros de História’. Produzidas com material feitas para durar, as tabuletas raramente sobreviviam a uma invasão. Não seria então um absurdo dizer que a história da perseguição aos livros é tão antiga quanto os próprios livros.

Foi esse o fim da famosa biblioteca de Alexandria, que chegou a reunir mais de meio milhão de livros, todos destruídos após seguidas crises políticas e perseguições religiosas. Em um dos episódios mais tristes do mundo antigo, o museu e a biblioteca de Alexandria foram invadidos pelo bispo Teófilo e uma horda de fanáticos cristãos. Em seguida, voltaram-se contra Hipátia, professora, filósofa, matemática, astrônoma e a primeira mulher a ocupar essa posição na ciência. Hipátia era um símbolo de conhecimento. Por esse motivo foi despida, torturada e lançada ao fogo junto com o conjunto dos seus livros. Há quem considere o assassinato de Hipátia o marco do fim da Antiguidade Clássica e o início da Idade Média que, como sabemos, queimou muitos livros e pessoas.

Normalmente, uma fogueira de livros é um sintoma, e não uma consequência. Assim como a febre alta é um sinal de alerta do corpo, a censura de livros é o aviso de que uma sociedade adoece. Nada de bom acontece quando ignoramos esse sinal. Vejamos os autos de fé que queimaram livros por toda a Alemanha em 1933. Multidões se reuniam em praça pública para queimar os escritos de Karl Marx, Sigmund Freud, Georges Bernhard e tantos outros. Em 1934, o número de livros proibidos do nazismo incluía mais de 3 mil obras. Imersos em uma realidade crescente de autoritarismo, poucos sentiram de imediato o risco desse movimento. Freud chegou a rir: ‘Só nossos livros? Antigamente eles nos teriam queimados com eles’. O que mais tarde se revelou sombriamente verdadeiro, assim como o alerta do poeta Heinrich Heiner: ‘Onde se queimam livros, acabam queimando pessoas’.

No Brasil, as ditaduras sempre atacaram a cultura. Foi assim durante o Estado Novo, quando o exército queimou 1.827 livros em Salvador - a maioria deles de autoria de Jorge Amado. Isso aconteceu em 1937, nove dias depois de Getúlio Vargas ter fechado o Congresso Nacional, eliminando partidos políticos, instituindo a censura à imprensa e ordenado a prisão de ‘elementos comunistas’ - e Jorge Amado era um deles. O mesmo documento que estabeleceu a censura do Estado Novo serviu de base para a repressão exercida anos mais tarde pela Ditadura Militar. Durante os anos de vigência do AI-5, estima-se que foram censurados cerca de 200 livros, 100 revistas, 500 filmes, 450 peças de teatro, mais de 500 letras de musica, dezenas de programas de rádio e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas. Estatísticas que acompanham uma lista de mortos e desaparecidos na casa de três centenas. Essa é uma história que se repete há décadas no Brasil e há milênios no mundo sem nunca, jamais, termos aprendido a lição”.

*Veja que primor. E a certeza de que quem quer ser tirano não abdica de querer de toda forma emburrecer os seus governados.

Fonte: Deusval Lacerda

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