DESENVOLVIMENTO

O semiárido do Brasil e dos Estados Unidos – uma rápida comparação

Relato de uma viagem que fiz aos Estados Unidos em 1995


Semiárido brasileiro

Semiárido brasileiro Foto: Reprodução

Recentemente estivemos nos EUA em uma troca de experiências com pesquisadores de vários países que trabalham em regiões semiáridas. Visitamos 16 centros de pesquisas de algumas universidades e do Departamento de Agricultura, nos estados do Texas, Oklahoma, Kansas e Colorado, região Central e Sul das grandes planícies ou pradarias americanas, parte da região semiárida dos EUA. Além disso, visitamos seis fazendas particulares.

O que mais nos chamou a atenção foi aquilo que denominamos, no Brasil, de agricultura alternativa, é o que mais se pesquisa e se difunde hoje nas instituições oficiais norte-americanas. Pesquisa e difusão sobre a rotação de culturas, pousio, economia de água na irrigação, agrossivicultura, redução da mecanização x aumento da produtividade, adubação orgânica em grandes fazendas, energia solar, energia eólica etc. Quer dizer, tudo aquilo que utiliza racionalmente os recursos naturais do meio. Com relação à pesquisa agropecuária, em vários aspectos, o Brasil está em pé de igualdade com os EUA e à frente de muitos países. O nosso problema está na difusão e utilização dos nossos resultados de pesquisa. Embora a partir de ações isoladas de alguns pesquisadores da Embrapa, de universidades e de algumas Organizações Não Governamentais (ONGs), temos, no Nordeste semiárido brasileiro, excelentes pesquisas com plantas resistentes à seca, preservação de recursos genéticos animais, melhoramento de culturas alimentares, consórcio de plantas xerófilas perenes x culturas alimentares, apicultura, pequena irrigação e outras de grande importância para a maioria da população rural do Nordeste.

A grande diferença que pudemos assinalar é que, lá, existe uma grande integração entre o Departamento de Agricultura do governo federal, o sistema de pesquisa e extensão das universidades e os produtores rurais. Além disso, o que facilita bastante esta integração, o nível educacional e cultural da população do campo é muito elevado. A região semiárida norte-americana produz riquezas, lá as coisas parecem ser tratadas com seriedade e não falta decisão política. A região das grandes pradarias foi considerada, tempos atrás, como região problema, principalmente pela insuficiência de chuvas.

Entretanto, trabalhos sérios de pesquisa e extensão integrados, com cobertura oficial do governo, permitiram que se executassem sistemas de produção com níveis altamente competitivos, principalmente em trigo, milho, sorgo, gado bovino e ovino, de modo que os estados dessa região estão entre os maiores produtores do país. Aqui, tem-se grande soma de conhecimentos sobre o semiárido, mas tudo está por se fazer. Lá, as autoridades estão preocupadas com o grande número de poços perfurados para irrigação, está-se pesquisando muito para economizar mais água na irrigação. Aqui, só no sul e sudeste do Piauí, existem mais de 300 poços jorrantes, alguns perfurados há mais de 25 anos, perdendo-se água 24 horas por dia, todo dia, todo o ano, quase sem nenhum aproveitamento, diminuindo o lençol freático, em pleno semiárido, e não se observa nenhuma providência concreta nem a nível federal, nem estadual, nem, muito menos municipal, ao longo desses últimos anos.

Durante o evento, cada participante apresentou um trabalho sobre a agropecuária na região semiárida de seu país. Nós apresentamos o trabalho “O desenvolvimento da apicultura no semiárido brasileiro”. Com esta troca de experiência ficou patente e consolidou em nós a ideia de um grande estudioso de Nordeste, Guimarães Duque, corroborada pelo pesquisador José Herculano de Carvalho, de que o semiárido brasileiro é único no mundo, é diferente do semiárido do resto do planeta. Nós temos problemas próprios, que exigem soluções próprias.

Esta troca de experiências e as visitas que fizemos serviram também para mostrar que as pesquisas agroecológicas desenvolvidas pela equipe do CPAMN (EMBRAPA Meio Norte) estão no rumo correto. Não são pesquisas marginais, como ridicularizavam alguns no início dos anos 80. Pesquisas com plantas resistentes à seca, leguminosas forrageiras arbóreas, apicultura, preservação do gado pé-duro e do caprino da raça marota, melhoramento genético do feijão massacar (pra fugir aos efeitos da seca com a precocidade ou para resistência a doenças) – só para citar algumas. Há necessidade, apenas, de maior agressividade na difusão das tecnologias geradas ou adaptadas junto aos agricultores, professores, estudantes universitários e de colégios agrícolas, extensionistas, ONGs, cooperativas, sindicatos e associações de classe.

Fonte: Francisco Guedes

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Sobre a coluna

Francisco Guedes

Francisco Guedes

Francisco Guedes é Engenheiro Agrônomo (UFPI), Mestre em Botânica (UFRPE) e especialista em desenvolvimento regional sustentável, em tecnologias para a agropecuária do semiárido e em direito administrativo. Membro da academia de Ciências do Piauí. Pesquisador da Embrapa. Atualmente Diretor-Geral do Emater-PI.

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