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“Você trabalha com o que? Sou músico; Legal, mas qual é a sua profissão mesmo?"


Pedro Ben

Pedro Ben Foto: Divulgação

Qual músico não vivenciou este diálogo?

Hoje é dia do músico, geralmente lembrado só por quem é da área. Provavelmente não verá um outdoor na cidade escrito “Feliz dia do músico” - como ocorre com algumas profissões - porém não temos muitos motivos pra comemorar, para quem tem a coragem de sobreviver de música em nossa cidade.

Mal pagos, desvalorizados, desrespeitados, sem políticas de incentivo, sem público, sem condições técnicas de trabalho, sem direitos trabalhistas ou aposentaria. É um pouco da realidade do músico, não do playboy que toca por hobby, nem dos músicos que estão nas graças do mercado ou vivem num contexto de indústria musical estabelecida, falo do músico operário!

Temos que saber diferenciar o músico daquele que faz por hobby, cena artística do que é apenas entretenimento. Somos um país que ainda vê quem faz arte como coisa de vagabundo, falta do que fazer, como uma não-profissão, um passatempo, consequências de um país sem educação e gestão cultural.

Porque sem público? público não é aquele que paga chorando ou reclamando a entrada/couvert, público é aquele que acompanha e ajuda a sustentar a sua arte, não é aquele que quer seu cd de graça (quando existia), não compra sua música, e pede pra tocar cover em show autoral.

Por que sem condições técnicas? Infelizmente em nossa cidade não temos técnicos de som qualificados e preparados para a diversidade sonora que existe na música. Não temos escolas nem cursos de engenharia de áudio, locais com acústicas adequadas, e o principal: técnicos com percepção musical, sem generalizar, pois temos uns poucos que realizam um trabalho qualificado fora dos gêneros estabelecidos.

Este fato se estende a área de gravação (mixagem, masterização, produção musical), ainda ficamos aquém da qualidade média de gravação nacional/mundial. Uma cidade que tem mais estúdio de ensaio do que de gravação (e sem pessoas qualificadas pra gravar) é um sintoma do que aponto.

No que diz respeito a política, não temos uma gestão cultural preocupada com a profissão do músico, com políticas ou gestão que garantam, incentive e façam uma economia cultural que movimente e gere renda e perspectivas de empregabilidade para a classe. Depender de bar e casas de shows é uma precarizarão do trabalho do músico médio, onde não há garantias e fiscalização nenhuma (direito autoral e advocacia musical é uma assunto inexistente aqui). Temos apenas a velha politicagem e fisiologismo dentro dos órgãos de cultura, e não somente na área cultural. Muitos empresários e órgãos públicos/privados não percebem o quanto a cultura movimenta a economia de um local, gera emprego e consumo. Pois nosso país ainda tem um visão provinciana, romântica e estigmatizada da música/arte.

Dos poucos projetos/editais que são lançados, a maioria não alcançam as comunidades, bairros e músicos periféricos que de fato precisam de verba para viabilizarem sua arte. O que acontece são editais que de maneira geral favorecem sempre as mesmas pessoas para projetos individualistas que não beneficiam/chegam as comunidades. Não temos gestão cultural, temos mal investimento do pouco recurso público destinado a cultura. Ou este dinheiro está sendo investido em outras demandas e objetivos nada culturais. Ou é utilizado com viés eleitoral, troca de favores e o velho "uma mão lava outra".

Não temos centros culturais públicos que concentrem e oportunizem a arte produzida na cidade, que dê acesso a sociedade ser inserida a conhecer e consumir arte. Todas as grandes capitais possuem centros culturais integrados que possibilitam o acesso a arte gratuitamente ou com preços populares para a população em geral. A arte daqui está cada vez mais elitizada, para poucos. O teatro, a praça, o cinema, os festivais e outros pontos e manifestações culturais deveriam ser do povo e não de uma minoria classicista.

O assunto começou sobre música, por causa do dia, mas vale para toda arte de forma geral, pois não vivemos de nossa arte. Sobrevivemos dela. Muito mais subjetivamente do que como uma  outra profissão qualquer.

Esquecem o quanto fazer arte envolve muito conhecimento, técnica, treino, dedicação dentre outros atributos, como qualquer outra profissão. Com uma característica a mais: trabalhamos com nossa exposição e subjetividade.

E por todos estes motivos não conseguimos pagar nossas contas. Precisamos de empregos paralelos - muito deles sub empregos - sufocando e castrando nossos talentos, desejos e habilidades artísticas, apenas para conseguir fechar as contas no final do mês e ter uma vida profissional assim como a de quem não é músico.

Feliz dia do músico!

Pedro Ben
(Músico antes de psicólogo, artista antes de músico)

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