DIA DAS MÃES
Isabel Fonseca*
10 de maio de 2026 às 08:00
O Dia das Mães, celebrado neste domingo (10), costuma ser marcado por homenagens, memórias e histórias de afeto e para a dona de casa Maria da Conceição Chaves, de 49 anos, e a filha, Maria Nicolly Chaves, de 21 anos, estudante de Letras-Inglês da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a maternidade também se transformou em amizade, parceria e coragem.
As duas enfrentaram dificuldades financeiras, problemas de saúde e recomeços antes de decidirem vender praticamente tudo o que tinham para viajar pela América Latina juntas. A conexão entre mãe e filha, segundo Conceição, começou antes mesmo do nascimento de Nicolly.
Filha adotiva e criada em um ambiente onde não se sentia acolhida,a dona de casa conta que sempre sonhou em ser mãe. Durante uma visita espiritual, um guia incorporado conhecido como Preto Velho teria previsto que ela teria uma filha e que as duas seriam profundamente ligadas. Anos depois, a gravidez aconteceu — mas foi marcada por complicações graves.
Conceição desenvolveu eclâmpsia, condição caracterizada por crises convulsivas causadas pela pressão alta durante a gestação, considerada uma emergência médica que pode colocar em risco a vida da mãe e do bebê. Segundo ela, os médicos chegaram a cogitar um parto antecipado para que Nicolly fosse colocada na incubadora. A mãe afirma que fez promessas para Nossa Senhora pedindo pela sobrevivência da filha.
Depois do nascimento, Nicolly continuou enfrentando problemas de saúde e passou boa parte da infância entre hospitais e consultas médicas. Mesmo diante das dificuldades, Conceição afirma que tentou transformar a maternidade em um espaço de acolhimento e liberdade. “Não sei se foi o suficiente pra ela, mas eu sempre tentei dar o máximo de amor, carinho e educação pra ela.” Ela também afirma que sempre buscou construir uma relação aberta e baseada no diálogo com a filha, deixando claro desde cedo que Nicolly poderia conversar sobre qualquer assunto sem medo ou “tabus”.

O outro lado do cordão umbilical
Para Nicolly, a relação entre as duas ultrapassa os papéis tradicionais da maternidade. Segundo a estudante, Conceição sempre ocupou diferentes espaços afetivos em sua vida ao mesmo tempo, sendo não apenas mãe, mas também amiga, conselheira e principal companheira em todos os momentos. Ela afirma que cresceu sem sentir a ausência de outras figuras familiares, porque a presença da mãe sempre foi suficiente para preencher esses lugares.
Geralmente, a vida das mães gira em torno dos filhos, mas a minha gira em torno da minha mãe.
A estudante conta que a relação das duas foi construída principalmente através de experiências compartilhadas. “A gente conheceu a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. Foi a primeira vez que a gente saiu do Brasil, que era um sonho meu, mas também foi a primeira vez dela.”
De onde surgiu a ideia?
As viagens internacionais aconteceram após um período difícil vivido pelas duas no Sul do país, em 2022. Segundo Nicolly, apesar dos salários altos, a rotina de trabalho da mãe se tornou extremamente desgastante.
Ela saía de madrugada e chegava em casa de madrugada. Pegava quatro ônibus e trabalhava doente.
A estudante relata que Conceição começou a apresentar sintomas severos de esgotamento físico e emocional, incluindo dores de cabeça intensas, episódios de visão turva e quase desmaios na rua. “A gente percebeu que não estava prosperando ali. A gente só estava sobrevivendo.” Foi então que surgiu a ideia de largar a rotina e viver como mochileiras pela América Latina. As duas venderam eletrodomésticos, juntaram economias e saíram de Blumenau em direção a Foz do Iguaçu.
No Paraguai, compraram mochilas de viagem e embarcaram rumo à Argentina com cerca de R$ 2 mil. “A gente pegou um ônibus para Buenos Aires com dois mil reais no bolso e um sonho.” Em Buenos Aires, mãe e filha fizeram trabalho voluntário em um hostel em troca de hospedagem e conheceram viajantes de diversos países. A experiência marcou profundamente a vida das duas.
Enquanto as pessoas chamavam a gente de sonhadora, a gente estava conhecendo o mundo.

Dificuldades enfrentadas
Apesar das memórias construídas juntas ao longo dos anos, mãe e filha também carregam marcas de uma trajetória atravessada por dificuldades financeiras, problemas de saúde e episódios de preconceito.
Filha adotiva, Maria da Conceição Chaves conta que não teve acesso às mesmas oportunidades oferecidas às irmãs biológicas e acabou impedida de concluir o ensino fundamental pela própria família adotiva. Ainda jovem, precisou começar a trabalhar para sobreviver. Hoje, aos 49 anos, a dona de casa convive com fibromialgia — síndrome crônica caracterizada por dores intensas e generalizadas pelo corpo — além de problemas de pressão arterial.
Atualmente, ela tenta conseguir um laudo médico que permita solicitar aposentadoria por incapacidade. Ao lado da mãe, Nicolly acompanha o processo enquanto também enfrenta os próprios problemas de saúde, incluindo complicações crônicas nos joelhos e forte sensibilidade nos olhos.
As duas afirmam ainda que já enfrentaram episódios de racismo ao longo da vida, especialmente durante mudanças de cidade e experiências de trabalho.
Mesmo diante das dificuldades, mãe e filha mantêm uma rotina baseada em acolhimento e cuidado. Juntas, elas cuidam de mais de 20 gatos, muitos deles resgatados da rua e alguns com deficiência ou necessidades especiais.
Segundo Nicolly, apesar dos obstáculos, a relação entre as duas sempre foi construída na ideia de seguir em frente sem desistir dos próprios sonhos.
Onde uma termina, a outra começa
Depois de anos dividindo dificuldades, viagens, recomeços e descobertas, mãe e filha dizem enxergar uma na outra muito mais do que apenas laços familiares. Para Nicolly, a maior herança deixada por Conceição não foi material, mas a coragem de viver sem medo e sem limitar os próprios sonhos.
A estudante afirma que cresceu aprendendo a não se prender às dúvidas e a aproveitar intensamente cada oportunidade. “A gente nunca viveu no ‘e se’. Se queria fazer alguma coisa, fazia.”
Já Conceição diz enxergar na filha o resultado de tudo o que tentou construir ao longo da vida: uma relação baseada em amor, liberdade, diálogo e companheirismo.
Ela é extraordinária. Não existe outra palavra pra descrever a Nicolly.
Ao falar sobre a filha, a dona de casa se emociona e define Nicolly como a pessoa mais importante da própria vida. “Nicolly é a minha vida. É o ar que eu respiro.” Entre mochilas, viagens, perdas, sonhos e memórias compartilhadas, as duas seguem construindo uma relação em que uma parece refletir a outra — como espelhos moldados pelas mesmas experiências. No fim, mãe e filha compartilham a mesma certeza: independentemente do lugar ou da circunstância, pertencem uma à outra.
Qualquer lugar é lar se ela estiver comigo.

*estagiária sob supervisão da jornalista Malu Barreto
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