OPERAÇÃO DISTRATO
Da Redação
14 de agosto de 2026 às 09:29 ▪ Atualizado há 1 hora
O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (CIRA/SP) deflagrou, nessa quarta-feira (13), a Operação Distrato, que investiga um suposto esquema de comercialização de créditos tributários falsos de ICMS utilizados por empresas para reduzir irregularmente o pagamento de impostos ao Estado. Segundo as investigações, a fraude pode ter provocado um prejuízo superior a R$ 3,8 bilhões aos cofres públicos.
Durante a operação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão no escritório e na residência do advogado Nelson Wilians, fundador do escritório Nelson Wilians Advogados (NWADV). A defesa do advogado foi procurada para se manifestar sobre as acusações, mas não havia apresentado resposta até a publicação desta reportagem.
Como funcionaria o suposto esquema
De acordo com o CIRA/SP, empresas ligadas a Nelson Wilians teriam oferecido créditos de ICMS com desconto a empresas interessadas em reduzir os valores de impostos pagos ao Estado.
Os créditos eram apresentados aos clientes como parte de planejamentos tributários que, segundo os investigadores, seriam supostamente autorizados pelo Fisco. Após aderirem ao modelo, as empresas passariam a utilizar os créditos para compensar valores de ICMS que deveriam ser recolhidos.
A investigação aponta ainda que os intermediários poderiam receber honorários de êxito de até 70% do valor dos créditos utilizados.
Segundo os investigadores, o grupo também forneceria documentos utilizados para viabilizar o lançamento dos créditos nas escriturações fiscais das empresas e, posteriormente, a compensação dos tributos.
A suspeita é de que os créditos utilizados nas operações não possuíam validade para a compensação tributária.
38 mandados de busca e apreensão
Ao todo, a Justiça autorizou o cumprimento de 38 mandados de busca e apreensão. As ordens foram cumpridas em cidades de São Paulo e do Paraná, incluindo São Paulo, Campinas, Jundiaí, Ribeirão Preto, Londrina e Cambé.
As medidas foram autorizadas pela 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital.
Além de Nelson Wilians, a advogada Mayra Fahur de Paula, do escritório De Paula Advogados e Consultoria Jurídica, também foi alvo da operação. Conforme o CIRA/SP, ela teria exercido papel de liderança na suposta organização e atuado em conjunto com Wilians. A defesa de Mayra também foi procurada para comentar a investigação.

Os investigadores apuram ainda a participação de escritórios de advocacia, consultorias e empresas intermediadoras. Esses grupos seriam responsáveis por captar clientes, elaborar contratos, emitir pareceres e orientar as empresas sobre a utilização dos créditos tributários.
Mais de 850 empresas são investigadas
A Secretaria da Fazenda de São Paulo informou que a investigação identificou uma estrutura ampla de utilização dos créditos considerados irregulares.
Até o momento, foram instauradas 874 Ordens de Serviço Fiscal para investigar quase 10 mil lançamentos suspeitos.
Os auditores identificaram mais de 850 empresas envolvidas nas operações e lavraram 746 autos de infração, que representam mais de R$ 3,8 bilhões em créditos tributários cobrados pelo Estado.
A Operação Distrato busca reunir documentos e outras provas para identificar os possíveis beneficiários econômicos do esquema e esclarecer a participação de cada investigado.
Entre os crimes investigados estão organização criminosa, lavagem de dinheiro, estelionato, falsidade documental e delitos contra a ordem tributária.
Advogado já foi alvo de outra operação
Nelson Wilians também foi alvo de uma operação da Polícia Federal em setembro de 2025. Na ocasião, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em sua residência e no escritório durante a Operação Cambota, segunda fase da Operação Sem Desconto, que investiga descontos não autorizados em benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Na mesma investigação, o ex-sócio de Wilians, Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti, também foi alvo de buscas.
Durante o cumprimento dos mandados, policiais apreenderam esculturas e obras de arte em imóveis relacionados ao advogado.
Relatórios da Polícia Federal relacionados à investigação do INSS apontaram movimentações financeiras consideradas expressivas entre empresas ligadas a Wilians e o empresário Maurício Camisotti, apontado pelos investigadores como um dos operadores do esquema.
Em depoimento ao Congresso Nacional, Nelson Wilians negou envolvimento em irregularidades. A defesa afirmou que as movimentações financeiras tinham relação com a atividade regular do escritório e que o advogado colaborava com as investigações.
Exposição de patrimônio nas redes sociais
Nelson Wilians também ganhou notoriedade pela exposição de seu patrimônio e de sua rotina nas redes sociais. O advogado publica frequentemente imagens de imóveis de luxo, aeronaves particulares, carros, viagens internacionais e outros bens.
O perfil do advogado no Instagram reúne mais de 1,4 milhão de seguidores.
Wilians é fundador do Nelson Wilians Advogados (NWADV), escritório criado em 1999 e que atua em diferentes áreas do Direito. A banca informa possuir mais de 1,1 mil advogados distribuídos em 29 unidades no Brasil.
A presença do advogado nas redes sociais também gerou discussões sobre os limites da publicidade na advocacia e a exposição de patrimônio por profissionais do setor.
Críticas às regras da OAB
Nos últimos anos, Nelson Wilians passou a criticar publicamente as regras da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) relacionadas à publicidade e ao uso das redes sociais por advogados.
Em artigo publicado na imprensa, o advogado questionou restrições relacionadas à chamada ostentação nas redes sociais e defendeu que o sucesso financeiro de profissionais da advocacia não deve, por si só, ser interpretado como infração ética.
Wilians também afirmou que a tentativa de disciplinar conteúdos publicados em perfis pessoais poderia representar uma forma de censura.
Atuação com políticos e empresas
Ao longo da carreira, Nelson Wilians manteve relações profissionais com empresas de diferentes setores, incluindo instituições financeiras, telecomunicações, varejo, energia, agronegócio e infraestrutura.
Em 2018, o advogado assinou manifesto de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Posteriormente, afirmou que seu escritório mantém relações institucionais com governos de diferentes orientações políticas e que sua atuação profissional não está vinculada a partidos.
Nos últimos anos, também integrou a equipe jurídica da campanha de Pablo Marçal e atuou na defesa do ex-governador de São Paulo João Doria em processos judiciais.
As relações profissionais e políticas do advogado não são, por si só, apontadas como parte do suposto esquema investigado na Operação Distrato.
A investigação está em andamento, e os alvos da operação são considerados investigados, não condenados.
Fonte: Revista Fórum
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