PANDEMIA

Dono de funerária prevê de 500 a 700 mortes por Coronavírus durante abril no Piauí

Empresário disse que funerária Lótus recebeu na última semana vários óbitos por insuficiência respiratória e pneumonia, sintomas do Covid 19


Funerária Lótus em Teresina

Funerária Lótus em Teresina Foto:

“Por onde esse vírus passou deixou um rastro de morte. Não estamos falando de mais uma gripe e sim, de uma ameaça de morte sob os nossos pais, amigos e mães”, foi esse o tom do discurso do prefeito de Teresina, Firmino Filho, ao decretar medidas mais duras para evitar aglomeração desnecessária de pessoas nas ruas da cidade quando suspendeu boa parte das atividades administrativas e econômicas da capital em mais um esforço para conter a disseminação do Covid 19. O Piauí tem até o momento seis casos que testaram positivo para o Coronavírus, todos em Teresina.

Se o decreto municipal e o discurso do gestor foram carregados, o prefeito não exagerou em sua preocupação e iniciativa. De quinta para sexta-feira (20),  a Itália registrou 793 óbitos, tendo o Exército que auxiliar na remoção dos corpos.

Reportagem publicada pelo Correio Braziliense nesta segunda-feira (23) mostra que uma funerária de Belo Horizonte recebeu 73 cadáveres entre a sexta-feira (20/3) e a noite de domingo (22/3). De acordo com laudo cadavérico, pelo menos 23 corpos tiveram como causa da morte problemas respiratórios graves, como "insuficiência respiratória aguda", "pneumonia crônica" e "pneumonia aspirativa", sintomas do novo coronavírus. No entanto, dados do governo não citam mortos por Covid-19 no estado.

Em menor escala, a situação se repete em Teresina. O Piauihoje.com entrevistou o proprietário da Funerária Lótus e do cemitério Recanto da Saudade, identificado pelas iniciais R.T.F. O empresário informou que sua empresa viu aumentar na última semana os casos de óbitos por insuficiência respiratória e pneumonia. Enquanto a empresa recebeu um óbito em fevereiro por insuficiência respiratória, os primeiros 20 dias de março registraram 14 entradas por insuficiência e pneumonia.

Para R.T.F, as notificações e confirmações para Covid 19 no Piauí estão sendo minimizadas. Ele faz uma previsão desanimadora de que no próximo mês o estado tenha de 500 a 700 mortes por Coronavírus.

R.T.F. afirma ainda que já solicitou um carregamento de caixões para sua empresa, que deve chegar à capital na próxima quarta-feira (25) e mesmo com isso, mostrou-se duvidoso quanto à capacidade da firma atender a demanda que virá.

A seguir a entrevista completa com o empresário.


VC - Quais serviços a Funerária Lótus oferece?

RT - Serviços funerários completos como transporte do corpo, velório, capelas de velório e temos ainda o cemitério Recanto da Saúde, que fica localizado na BR - 343, logo depois da Expoapi. Nós somos uma empresa de Teresina. O cemitério tem 18 anos, a funerária tem 15 anos de existência.

VC - Na Itália milhares pessoas, sobretudo idosos, já morreram vítimas do Coronavírus. Dizem que no Brasil será parecido. Vocês estão preparados para atender as famílias das vítimas do Coronavírus?

RT - Dizem não, vou contar algo que tem acontecido, na última semana a empresa tem recebido óbitos de gente falecendo com insuficiência respiratória, inclusive hoje tivemos um desses casos, por volta de 9h30.

No meu entender está sendo subdimensionada [a confirmação dos casos de Coronavírus], não está sendo feito sequer o teste porque acredito que não se tenha o material para fazer.

Estamos recebendo corpos de mortes por insuficiência respiratória ou pneumonia. No RJ teve casos onde o exame só ficou pronto confirmando o Coronavírus depois do óbito, com a pessoa já enterrada.

Nós estamos recebendo corpos com esses prontuários, mas extraoficialmente, e não é coisa tão comum nesse lugar aqui de calor termos esse tipo de morte, no caso do senhor de 62 anos.

VC - Quais equipamentos de proteção a empresa está garantindo aos funcionários e quais procedimentos estão adotando para evitar a contaminação dos colaboradores?

RT - A gente está usando material de proteção, a ANVISA, no dia 21 de março soltou uma nota técnica com orientações para lidar com casos de corpos mortos por coronavírus. Em resumo, [os corpos] são colocados em sacos cadavéricos, o saco [com o corpo] dentro da urna, a urna lacrada e desinfectada pelo lado externo. Segundo a nota, não pode haver preparação corpo, ou seja, nem limpeza nem lavagem e nós não vamos fazer velórios para evitar contágio através de aglomeração.

VC - Como as famílias das vítimas tem reagido à orientação para não realização dos velórios.

RT – Em dois casos a minha orientação foi sepultar direto, as famílias não se opuseram, a própria família tem medo.

VC - Vocês vendem quantos caixões por mês, em média?

RT - Aproximadamente 90 caixões.

 VC - Vocês aumentaram o estoque de caixões para atender possíveis vítimas do Coronavírus no Piauí?

RT - Estamos aumentando, mesmo assim estou achando insuficiente, compramos 100 hoje e a preocupação está grande, mas a gente vai ter numa faixa de, durante abril, de 800 a mil óbitos, porque assim, hoje andei pela região da Santa Maria da Codipi e lá o comércio tá funcionando a pico, a expectativa são as piores porque quem traz a doença são os ricos que viajam, mas a população mais humilde não tem a consciência de obedecer as regras e assim [novo vírus]se prolifera mais na periferia.

VC - Vocês atendem a Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social e Políticas Integradas (SEMCASPI) de Teresina com o auxílio funeral. Como funciona o programa. A secretaria já solicitou os serviços de vocês por causa da pandemia?

RT - A gente atende na faixa de 25 corpos por mês. A prefeitura, através da legislação municipal, abriu processo licitatório e concede benefício para famílias que possuem registro no Cadastro Único, do Bolsa família, que tenha renda per capita de meio salário mínimo, não precisa receber o Bolsa Família, basta estar cadastrado para ser assistido pelo auxílio funeral.

E a prefeitura está organizado uma alteração no meu contrato para que possamos atender com abrangência maior, pois há previsão de que vai aumentar a demanda e muita gente que vai precisar não vai entrar nas condições exigidas.

VC – Como os corpos são recolhidos no Piauí?

RT - No caso de morte por crime quem recolhe o corpo é o IML. Em casos normais é o Serviço de Verificação de Óbito do Estado, mas o SVO não tem carro e as funerárias fazem esse trabalho pleiteando conseguir vendas, só que as funerárias estão com medo porque não é o certo. 

Uma outra coisa que me preocupa é que os Cemitério de Teresina só sepultam durante o dia, de 8h Às 17h, quando tiver óbito [por Coronavírus] à noite, como vão fazer? Onde vão ficar os corpos? Onde o corpo  contaminado fica aguardando?

VC - Como o senhor vê a pandemia de Covid 19?

RT- Vai dá um estrago muito grande nesse Brasil, muito grande. Já me preocupo como vai ficar a questão de assalto, porque o desemprego vai aumentar e vai faltar comida. No Rio de Janeiro, os viciados estão sem ter a quem pedir dinheiro nas ruas e estão voando nas pessoas que encontram por lá.


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