O Brasil registrou cerca de 473.581 casos de violência contra a mulher, sendo mais de sete mil ocorrências apenas no Piauí, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Para enfrentar essa realidade, o Brasil conta hoje com 535 unidades especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência. Embora a existência dessas unidades represente um avanço institucional, a diferença entre o alto número de casos e a limitada estrutura disponível evidencia desigualdades profundas na distribuição e na capacidade de atendimento entre os estados.
Um recorte nacional mostra que a maioria dessas unidades atua principalmente em casos de violência doméstica e familiar, seguidos por crimes sexuais e feminicídio. Já quando o foco se volta para o Piauí, os dados escancaram um cenário mais restrito, tanto em quantidade de unidades quanto na capacidade de atendimento contínuo e integrado.
Atendimento especializado cresce, mas não alcança todas
No panorama nacional, o país registra 519 delegacias especializadas, além de postos de atendimento, núcleos integrados e uma unidade online. Ao todo, essas estruturas somam mais de 4,5 mil profissionais, entre delegados, agentes, escrivães, psicólogos e assistentes sociais.
Mesmo assim, apenas 97 unidades funcionam com atendimento 24 horas, enquanto 405 não oferecem serviço ininterrupto. Em um país onde a violência contra a mulher ocorre, majoritariamente, dentro de casa e fora do horário comercial, essa limitação se traduz em barreiras reais ao acesso à proteção.
Unidades Especializadas no Brasil vs Unidades Especializadas no Piauí. Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública
Piauí: poucos equipamentos e atendimento limitado
No Piauí, o cenário é mais enxuto. O estado possui 16 delegacias especializadas, todas classificadas como delegacias tradicionais — sem postos avançados, núcleos integrados ou atendimento online.
Dessas unidades:
Apenas 5 funcionam 24 horas
10 não oferecem atendimento contínuo
1 não informou o horário de funcionamento
O efetivo total também é reduzido: são 41 agentes, 15 delegados e 11 escrivães, além de apenas 2 psicólogos e 5 assistentes sociais para todo o estado. Especialistas apontam que a escassez de profissionais multidisciplinares compromete o atendimento humanizado e o acompanhamento das vítimas ao longo do processo.
Ocorrências: ameaças lideram os registros
No Brasil, as delegacias especializadas registraram mais de 554 mil boletins de ocorrência, com destaque para:
Ameaça (170.984)
Lesão corporal (103.879)
Injúria (78.538)
Perseguição (27.454)
No Piauí, foram 6.957 registros, e o padrão se repete:
Ameaça (2.914)
Injúria (1.770)
Lesão corporal (922)
Violência psicológica (331)
Atendimentos no Brasil vs Atendimentos no Piauí. Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública
Pouco foco na responsabilização e reeducação de agressores
Um dos dados que mais chama atenção é o encaminhamento de agressores. No Brasil, há registros de encaminhamento para:
Grupos de reflexão e reeducação
Assistência social
Atendimento psicológico ou psiquiátrico
No Piauí, no entanto, apenas 1 registro de encaminhamento para assistência social aparece nos dados. Não há registros de participação em grupos reflexivos ou atendimento psicológico para agressores — estratégias apontadas por especialistas como fundamentais para romper ciclos de violência.
Avanços institucionais, desafios estruturais
Os dados mostram que o Brasil avançou na criação de estruturas especializadas, mas ainda enfrenta desafios na capilaridade, funcionamento contínuo e integração com políticas de saúde e assistência social. No caso do Piauí, a combinação entre poucas unidades, atendimento limitado e baixo investimento em ações complementares evidencia a necessidade de expansão e fortalecimento da rede de proteção.
Fonte: Ministério da Justiça e Segurança Pública
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