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Campo Maior: o cenotáfio do batalhão

No momento em que escrevo a presente nota, tenho sob as vistas um artigo de Dione, trazido recentemente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, nº 8


Obelisco do Jenipapo

Obelisco do Jenipapo Foto: Divulgação

O que houve de tão significante na municipalidade de Campo Maior naquele dia 13 de março de 1823, às margens do rio Jenipapo?

Outro rio, de tinta, já se converteu em textos que referenciam o acontecido ali, desde os manuscritos que indiciam tais fatos, tidos por oficiais, a um diversificado repertório livresco sobre o que se tornou um dos temas mais recorrentes da historiografia local, em sua espécie, e, no mais geral, das “narrativas da piauiensidade” – este um termo bem inspirado do historiador Paulo Gutemberg de Carvalho.

Pois ocorre que agora vem a um público maior – que Campo Maior –, uma relevante contribuição que adensa os estudos sobre a temática. Refiro-me à atuação da doutora Maria Dione Carvalho de Moraes, que lidera um grupo de pesquisadores dedicado a examinar essa espécie de questão a partir de referentes conceituais e metodológicos que dialogam com a historiografia e outras construções de linguagem para elucidá-la.

No momento em que escrevo a presente nota, tenho sob as vistas um artigo de Dione, trazido recentemente na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí, nº 8, intitulado “A tradição oral da batalha do Jenipapo em Campo Maior – PI: entre história e memória”.   

Dione parte de outra possibilidade de leitura do acontecimento, marcado por derramamento de sangue, do que a sua relevância mais eloquente do ponto de vista histórico e nos repontos da memória. Ao prospectar o fato e a construção memorial dele em 180 anos, na tradição historiográfica e historiográfica-ensaística – pensando com Juliana Cavalcante –, ela identifica as abordagens atinentes como filhas de três “gerações” discursivas, a que chama de “clássica”, “neoclássica” e “desconstrucionista” ou “revisionista”. E elabora sua própria contribuição numa perspectiva socioantropológica e nos domínios instigantes da memória social. Construção que não estranha os repertórios narrativos-historiográficos em fluxos, antes com eles dialoga.

No seu dia a dia do labor e interações pesquisantes na Ufpi, em particular no artigo em comento e sua abordagem da memória social com foco na tradição oral, Dione referencia seu estudo em Carlo Ginzburg, V. Bakhtin, J. Le Goff, M. Halbwachs, E. Peralta, entre mais. Não somente referencia, como enfrenta a discussão cheia de complexidade sobre a memória, a memória social, a oralidade, tradição oral... Narrativas, narrativas-mestras. A construção de um conhecimento formal nesta parte do ecúmeno em que existimos, baldando culturas cruzadas de matrizes e dicções diversas... No que chamamos de Brasil, a experiência humana, histórica, nas expressões dos povos originários daqui, de euro-helênicos, afros. 

Claro, narrativas campo-maiorenses, “narrativas mestras, identificáveis na sociografia, nos rituais oficiais, nas denominações de lugares oficializados (instituições escolares, logradouros públicos etc); narrativas difusas, inscritas em lugares comuns, como pontos comerciais, diversos; narrativas não inscritas, menos formalizadas, predominantemente orais e de menor visibilidade social, que penso como narrativas eclipsadas ou, como diz Kathryn Woodward, micro-histórias, foco da atenção neste texto”. O próprio cenotáfio lembrado como o chão do acontecimento é disso um elemento pulsante de signos e representações.

Ser uma construção tecida a partir de audiência e leituras do que vai nas mentes e bocas dos campomaiorinos, diz da dimensão e valor de novidade do trabalho de Dione e seus parceiros no cometimento da pesquisa sobre o combate referido. Afinal, todos nos acostumamos com a tradição narrativa historiograficamente dada, que insignificam, senão elidem, “motivos narrativos em circularidade e dialogismo com elas”. Aponta como exemplo dessas “outras narrativas [...] na tradição oral da Batalha”, as de “cunho fantástico [...], a irrupção dos mortos do Batalhão como santos, heróis, e até como almas penadas...”. 

Assim, o estudo labora em releituras do acontecido, para além do documento formal datado, do cânone historiante. Captura da memória social o “tempo do Batalhão” ou “guerra do Batalhão”, lembrando que não se pode “pretender que o tempo mítico da tradição oral da Batalha corresponda ao tempo cronológico da historiografia”. 

Sugestivo texto a desafiar mais estudos. Ouvir saberes diversos. Avizinham-se as celebrações bicentenárias do 1823. Os pagos memoriais se agigantam nos fluxos do presente.   

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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