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Assim nasceu a Passagem

Para Badu Araújo e Wilson Moreira


Passagem

Passagem Foto: Divulgação

Quando se fez o primeiro risco no chão, e qual a primeira clareira na noite, que marcam a origem histórica de determinado lugar? 

Normal que seja essa a primeira pergunta ao tratarmos da origem de um assentamento humano qualquer. Quem riscou o chão, quem acendeu a clareira? 

Do meu lugar de nascença – Passagem Franca –, assim perguntei e fui em busca das respostas. Uma verdadeira investigação, sendo fato que a minha cidade tem suas marcas de origem recuadas no tempo em pelo ou menos 26 décadas, desde o primeiro risco, e primeira clareira.

As cidades da colonização portuguesa no Brasil e sobre a face da terra, em geral têm sua origem ligada a uma fonte de água. Os outros fatores se agregam a esse, como a salubridade e oferta alimentar. Difícil supor algo diferente em cada origem. 

No caso da minha, seu risco no chão para o primeiro rancho e abrigo, ou casa, com certeza se deu por volta do ano de 1760, num ponto de passagem duma estrada sobre um riacho, já então chamado “das Inhumas”, num trecho alagadiço com estuário arenoso. Estrada aberta pelo governo real português ao longo da década de 1750 a 1760, segundo Mundico Leite. 

No entorno desse ponto de passagem sobre o riacho, uma assentada mais enxuta e salubre, ergueu-se o referido primeiro rancho, e, com certeza, logo um segundo e um terceiro. Aquele vale inteiro, com densa vegetação, já se encontrava então doado em sesmaria desde 22 de agosto de 1750.

Quem fez esse rancho – num ermo sertanejo da então capitania do Maranhão, na freguesia de São Bento de Pastos Bons, pouco antes (1741) separada da Igreja Matriz da Senhora da Vitoria do Brejo da Mocha, no Piauí? 

Todos os documentos relativos e a narrativa-mestra repertoriada na mais pura tradição oral do lugar, afirmam ter sido uma mulher, chamada pelo vulgo de Dona Franca, a habitar o dito ponto originador do lugar-cidade “da Passagem”, conforme falavam os passantes, desde a origem. Passagem onde a sua proprietária-dona, a dita Franca, fixou morada, e no arredor, tranqueira ou curral, e roça de agricultar. 

A tradição oral, devidamente aferida, diz que, no sítio de Dona Franca – à margem de uma estrada real que já nasceu bastante movimentada –, implementou-se um pequeno negócio de aluguel de rancharia e quintas, com vistas ao pousio de viajantes e suas obrigatórias tropas, inclusive boiadas. 

Essa morada e estalagem de Franca, certeza de que com vaqueiros e trabalhadores escravizados, conferiu segurança naquele tráfego aos usuários da via real, a primeira ligação de estrada pública entre a capital do Maranhão e as imensidões do sertão de Pastos Bons, cabeça de freguesia desde 1741 e dum juizado vintenário. Pastos Bons, sede, já ligada por caminhos trafegados em direção do Piauí, Goiases, Minas e até Rio de Janeiro. 

Na “Passagem” da “Dona Franca”, lado esquerdo da riacho, de barro preto e úmido, lugar da fundação e do princípio da cidade, não se demorou a constatar que, ali defronte, no prolongamento da estrada, transposto o riacho, num elevado mais pedregoso e firme, a trezentos metros, era um chão mais propício para expandir a povoação da Passagem. 

E ao cabo de 60 anos, por volta de 1815, o núcleo do lugar já se fixara à margem direita, no conforto do pequeno-grande planalto sobre o qual está o centro velho da cidade de hoje – os largos e praças da Tamarina/Rio Branco, da Matriz e da Prefeitura. Um aglomerado de casas à beira da estrada, seu eixo articulador. Assim nasceu a cidade da Passagem Franca, no Maranhão.

A fundadora pertencia a uma família de sesmeiros locais, donatários, pioneiros. Na  sesmaria-mãe, titulada a Domingos Fernandes Lima (1750), seguiu donatário Francisco Pereira Franco. Dona “Franca” era uma Pereira “Franco”, fazendeira.  

Da era setecentista não há registro de outros grupos colonizadores na Passagem, salvo a chegada à região, em 1777, “no ano dos três sete”, dos primeiros Araújo e Alencar, cearenses. E antes de todos, esse vale dadivoso fora o lugar de vida de um povo originário, expulso, que a tradição e os estudos chamam de Aranhim.   

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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