PIAUI PRESENTE

"E aí, compamheir@s, a FRENTE vai pra frente?"

De início, a Frente será interpartidária


Esplanada dos ministerios

Esplanada dos ministerios Foto: Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

Precisa ir. É uma necessidade da Esquerda e Centro-Esquerda para ganhar competitividade no combate à extrema direita bolsonarista e na disputa com a direita (neo)liberal e o Centrão clientelista-fisiológico. Esses são os quatro campos que estão ganhando forma no cenário político brasileiro.
A Frente é importante, sobretudo, para a luta pela reconquista e garantia de direitos e para a reconstrução e avanço das políticas públicas. Rumo a uma sociedade mais democrática e mais igualitária (a distância social é tão grande no Brasil que quase escrevo “menos desigual”).
É claro que a Frente tem tudo a ver com as eleições de 2022, mas não é apenas uma coligação eleitoral eventual. É uma Aliança Política mais duradoura; caso contrário, não será uma Frente autêntica.
De início, a Frente será interpartidária; depois se avaliará a participação de organizações sindicais, populares, juvenis e outras representativas da diversidade dos movimentos sociais e dos vários setores da Sociedade Civil.
Com Frente interpartidária a atuação conjunta no Parlamento é importante; e isso já vem acontecendo. Mas uma Frente é mais do que um bloco parlamentar.
Está na hora da articulação das Direções Partidárias para dar visibilidade e abrir espaço mais amplo para a atuação na vida política e nas lutas sociais.
Um passo decisivo: a articulação entre os Filiados, sobretudo os Militantes, dos diversos partidos. Sem essa construção pela base, a Frente não se consolidará como uma referência política nem terá capacidade de mobilizar a sociedade.
E o mais importante: um Programa comum, mesmo que seja um programa mínimo. Aliás, no começo, ajudará na massificação do Programa a escolha de alguns poucos “objetivos e metas”. Soberania nacional (duas ou três temas concretos), retomada do desenvolvimento e do emprego, reforma tributária, reforma política, direitos e proteção sociais, redução das desigualdades sociais e regionais, respeito à diversidade, ecologia, educação, saúde, priorização do capital produtivo contra financeiro, etc. etc.
Um bom Programa com certeza ajudará na verticalização da Frente, ou seja, a sua organicidade nos níveis nacional, estadual e municipal. E aqui reside, a meu ver, o grande desafio a superar pouco a pouco. A composição dos partidos e as coligações estaduais e municipais são muito heterogêneas.
A Frente não acaba com a autonomia dos Partidos. Evidentemente, nos estados e municípios, poderá haver disputa entre os partidos da Frente. Precisamos preservar a vedação de coligações proporcionais bem como a cláusula de desempenho (ou de barreira). É o caso de resgatarmos a proposta de legalização das Federações Partidárias como previsto em alguns projetos de lei da reforma política.
O Uruguai tem uma rica experiência com el Frente Amplio (em espanhol frente é masculino). Em Portugal e na Espanha temos experiências de composição de governos de esquerda e centro-esquerda. Está na hora de abrir diálogo com essas e outras experiências.
Até aqui estamos refletindo no nível mais geral, estratégico. A situação concreta é mais complexa, para não dizer mais complicada. Mas não vejo muitas alternativas para reconstrução da Esquerda e Centro-Esquerda no Brasil, sem a disposição para dialogar e atuar conjuntamente.
Sem uma perspectiva mais ampla, fica difícil enfrentar os costumeiros personalismos. E se a Frente se consolida, a questão do hegemonismo se atenuará.
Por fim, para ser mais “pedagógico” do que provocativo, levanto algumas questões práticas ou  táticas, que não se referem apenas à conjuntura do Piauí.
1) Há consenso que partidos devem compor uma Frente de Esquerda e Centro-esquerda: PSTU, PCB, UP, PCO, PSOL, PT, PCdoB e Rede; PSB e PDT? Como ficam o PV, o PPS (ex-PCB) e o Solidariedade (de origem sindical)?  
2) Como trabalhar a composição e a atuação tão heterogênea desses partidos em cada estado (e município)?  
3) Nas disputas eleitorais, pode haver situações em que os governos atuais ou futuras candidaturas majoritárias de esquerda e centro-esquerda  se coliguem com partidos do campo neo-liberal. Haverá coligações com partidos do Centrão? Supondo que não haverá com os de extrema direita.
4) Quais os partidos avaliamos como de extrema direita, além da Aliança para o Brasil ou aquele ao qual o Bolsonaro se filiar?
5) Como resolver a questão da articulação de candidaturas estaduais com o enfrentamento do candidato à presidência da extrema-direita?
O desafio central é termos como horizonte a reconstrução programática e não tanto pragmática, para não dizer eleitoralista. É um processo, mas não podemos perder de vista o Projeto.

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Sobre a coluna

Antônio José Medeiros

Antônio José Medeiros

É sociólogo, professor aposentado da UFPI. Licenciado em Filosofia pela UFPI e Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP. Foi professor em escolas estaduais de nível médio do Piauí, em 1968 e 1971 e na UERJ e Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, em 1973 e 1974. Trabalhou como técnico sênior na CEPRO/SEPLAN-PI e coordenou o Setor de Educação do Polonordeste na SEDUC-PI, de 1978 a 1980. Professor concursado da UFPI, onde trabalhou de 1981 a 2007.

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