OLHE DIREITO

Dois anos sem Herculano Moraes

Mas se alma era de menino, era jovem, o fazer era de gente grande, sempre envolvido em projetos e sonhos


Alvaro Mota, Celso Barros e Herculano

Alvaro Mota, Celso Barros e Herculano Foto: Divulgação

Faz dois anos que se pediam o sorriso e a presença física de Herculano Moraes, jornalista, imortal da Academia Piauiense de Letras, uma pessoa que me devotou boa amizade e a quem sempre tive a mais sincera admiração. Herculano é um tipo humano que sempre fará falta, sobretudo porque gostava da vida como um exercício diário de cultivo da cultura e da arte, das amizades e dos prazeres frugais como uma conversa corriqueira e despretensiosa.

Herculano tinha 73 anos quando partiu. Mas não poderia caber nele o conceito de terceira idade ou de idoso ou de velho, a despeito de sua vasta cabeleira branca. Não! Ele tinha um espírito jovem, praticamente de um menino danado destes que a gente encontra em nossa terra piauiense ou em nossas memórias de infância.

Mas se alma era de menino, era jovem, o fazer era de gente grande, sempre envolvido em projetos e sonhos, disposto a escrever mais, ler tudo o que lhe fosse possível, a espalhar conhecimento, que ia adquirindo e repassando, em uma infinita troca que sempre faz mais sábio quem recebe e quem doa esse saber.

De minha parte, guardo boas lembranças de Herculano Moraes, que foi secretário da Academia Piauiense de Letras, onde sempre atuou para aproximar a entidade literária com a comunidade, organizando visitas de estudantes e sendo o mestre de cerimônias que conduzia reuniões com êxito. Neste ambiente, muito em razão da acolhida de Herculano, passei a frequentar q APL, estreitando muito os nossos laços de amizade.

Uma amizade que se consolidava em longas conversas sobre temas os mais variados, aqueles diálogos em que eu menos falava e mais ouvia, porque nunca me pareceu muito melhor falar quando tinha à minha frente uma pessoa com disposição para contar boas histórias, dar exemplos de vida, narrar acontecimentos que se entrelaçavam à sua própria história.

E que história tinha o Herculano Moraes, oriundo de São Raimundo Nonato, terra que outros tantos ilustres piauienses, que deixaram seu rincão sertanejo para estudar na capital, Teresina. Como tantos outros nascidos fora dos limites deste cidade e para aqui mudaram ainda estudantes, Herculano cambiou não apenas o espaço geográfico de nascença, mas a sua vida e, mudando assim, fez transformar a cidade que escolheu para viver.

Acidade que o acolheu fez dele vereador nos tempos duros de um regime militar, quando ser oposição representava bem mais que se colocar no anverso ao governo. Porém, Herculano pautou-se pela elegância e a honra de ter adversários políticos, nunca inimigos, que tal modo que granjeou a admiração e o respeito de seus pares, mesmo aqueles que não comungavam com ele as mesmas ideias.

Por isso mesmo, passados dois anos da morte de Herculano, acredito que dele sempre guardarei as lições sobre gentileza e respeito às pessoas, mesmo aquelas pelas quais não nutrimos amizade ou admiração. Trata-se tão somente de agir de modo civilizado nada menos que isso, como fez o imortal ao longo de sua existência, deixando lições de vida mesmo depois de sua morte.

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