QUARESMA

Comer menos carne?

Não sou de seguir essa tradição de uma abstinência, porém é possível que essa seja uma boa ideia para uma porção de coisas


legumes

legumes Foto: Divulgação

Desde criança estou a par de uma tradição católica da abstinência de carne vermelha ou de animais de sangue quente (aves e mamíferos) nas sextas-feiras da Quaresma e durante todo o período que antecede a Páscoa, a chamada Semana Santa.

Essa tradição está assentada em textos dos evangelhos que citam o jejum do Cristo durante 40 dias no deserto. Mas ela também está ligada à cultura judaica de jejuar como um meio de purificar o corpo e a alma. Aliás, devo lembrar que também entre os islâmicos o jejum é um compromisso de fé feito durante o Ramadã, o mês do jejum.

Não sou de seguir essa tradição de uma abstinência, porém é possível que essa seja uma boa ideia para uma porção de coisas que poderíamos e deveríamos pôr em prática para uma vida melhor não apenas de nós mesmos, mas de nossas comunidades e do próprio planeta.

Se a gente olhar para as carnes vermelhas, a de boi, principalmente, poderemos achar bons motivos para cortar uma parte delas de nosso cardápio ao longo das 52 semanas do ano e não apenas na semana da páscoa, que será daqui a uns 40 dias.

Relatório do Instituto Mundial de Recursos (WRI, na sigla em inglês) publicado em 2018 alerta que a redução do consumo de carne vermelha é essencial para evitar mudanças climáticas perigosas. O relatório da WRI recomenda que 2 bilhões de pessoas em vários países, incluindo EUA, Rússia e Brasil reduzam seu consumo de carne vermelha em 40%, limitando-o a 1,5 porções por semana, em média.

No ano passado, um relatório das ONU relacionado ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) diz que como mecanismo para mitigar e adaptar o mundo ao aquecimento global, deve-se adotar uma redução do consumo de carne por meio de dietas com base em plantas e produtos de origem animal com fontes sustentáveis. Isso porque cada boi ou vaca produz em média de 250 a 500 litros de metano por dia. O metano tem potencial poluente 25 vezes superior ao gás carbônico. E além disso existe a ocupação de milhões de hectares por pasto, o que exige a supressão da cobertura vegetal nativa.

Sob essa leitura menos religiosa e mais ambiental ou de consumo consciente, podemos dizer que o sacrifício religioso de não comer carne, se levado a um nível de consciência socioambiental, pode ajudar a não apenas purificar nossa alma, mas também o planeta.

Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

Fonte: Alvaro Mota

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