PODCAST MULHER MAIS
Natalia Costa
11 de agosto de 2026 às 11:53 ▪ Atualizado há 1 hora
A advogada piauiense Dandara Benvindo viralizou nas redes sociais após publicar um vídeo em que aparece defendendo o próprio pai em uma audiência judicial para garantir a aposentadoria rural, inicialmente negada pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A publicação fez a profissional ganhar mais de 10 mil seguidores e despertou o interesse do público pela história de vida que existe por trás daquele momento.
Em entrevista ao podcast Mulher Mais, a advogada contou como saiu do interior do Piauí, enfrentou dificuldades financeiras para estudar e construiu uma carreira no Direito Previdenciário.
Ela contou que nasceu em Floriano e passou parte da infância em uma pequena cidade do interior, onde cresceu próxima das raízes familiares. Filha de uma professora e de um trabalhador rural, ela precisou enfrentar dificuldades financeiras para continuar os estudos e construir a carreira profissional.
A mudança para Floriano aconteceu quando tinha 10 anos, para que pudesse continuar a formação escolar. Mais tarde, veio a mudança para Teresina, onde cursou Direito e precisou conciliar a graduação com as dificuldades de quem chega à capital sem uma estrutura financeira confortável.
A advogada estudou no Instituto Federal do Piauí (IFPI) e posteriormente conseguiu uma bolsa integral pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) para cursar Direito em uma instituição particular. Mesmo sem pagar mensalidade, ela precisou lidar com despesas como transporte e alimentação.
Durante a graduação, também passou por processos seletivos para estágios. A rotina era intensa, mas ela entendia que a formação seria o caminho para transformar a própria realidade.
“Então, eu sempre busquei dar o meu melhor na faculdade, porque eu pensava: não, eu só vou conseguir alguma coisa, mudar as realidades, mudar a minha realidade através desse estudo. Então eu preciso dar o máximo de mim aqui, independente do que eu precisar fazer”, contou.
Assista a entrevista completa:
Do sonho de ser promotora ao Direito Previdenciário
A advocacia não foi o primeiro plano profissional de Dandara. Durante a faculdade, ela sonhava em seguir carreira pública e se tornar promotora de Justiça. Depois de formada, continuou estudando para concursos durante alguns anos.
A advogada havia sido aprovada no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ainda no nono período, mas inicialmente não se identificava com a advocacia. Trabalhou em diferentes áreas e chegou a atuar como maquiadora profissional enquanto buscava seu caminho.
Foi depois da pandemia que a carreira tomou outra direção. Ao trabalhar em um escritório, Dandara teve contato mais próximo com o Direito Previdenciário. A experiência fez com que ela descobrisse uma área profissional com a qual se identificava. Nove anos depois de formada, decidiu abrir o próprio escritório.
“Hoje eu realmente me encontrei na advocacia para vivenciar e é isso que eu faço hoje como objetivo de vida mesmo. Não só um trabalho, mas um objetivo de vida.”
O antigo sonho de ser promotora, segundo ela, já não faz parte dos planos.
“Não existe o meu sonho de concurseira. Ele acabou por completo”, declarou.

História nas redes sociais ganhou milhares de pessoas
A repercussão nas redes sociais aconteceu de maneira inesperada. A advogada contou que havia começado a utilizar o Instagram profissionalmente havia pouco tempo e ainda estava se acostumando com a produção de conteúdo quando o vídeo em que aparece defendendo o próprio pai em uma audiência judicial para garantir a aposentadoria rural viralizou no Instagram.
O crescimento repentino fez com que mais de 10 mil pessoas passassem a acompanhar seu trabalho. Além dos novos seguidores, ela começou a receber mensagens de pessoas que se reconheceram na trajetória apresentada no vídeo.
Para ela, a identificação pode explicar parte da repercussão. A história de alguém que saiu do interior, enfrentou limitações financeiras e conseguiu construir uma carreira por meio dos estudos é semelhante à realidade de muitas famílias.
“Porque eu acredito que o vídeo inclusive viralizou justamente por isso, por ele contar uma realidade que é muito comum naquela família que saiu do interior e que alguém conseguiu vencer através do estudo.”
Direito Previdenciário como propósito
O trabalho com benefícios previdenciários também mudou a maneira como a advogada Dhandara Benvindo enxerga a própria profissão. Para ela, cada processo representa uma história de vida e não apenas um número.
No escritório, ela atende pessoas que passaram décadas trabalhando no campo, pessoas com doenças, situações de incapacidade e famílias que dependem da concessão de um benefício para garantir a própria subsistência.
“Não são só números, não são só processos, são histórias por trás de cada processo.”
Entre os casos mais delicados estão os pedidos de aposentadoria rural. Segundo a advogada, muitos trabalhadores chegam ao momento de solicitar o benefício sem ter reunido documentos suficientes para comprovar a atividade exercida ao longo da vida.
A falta de informação é um dos fatores que, segundo ela, pode dificultar a concessão do benefício.
“Eles não têm noção de que precisam garimpar documentos, que precisam construir provas ao longo da vida”, explicou.
Uma trajetória construída sem “padrinhos”

A construção da carreira também envolveu o desafio de começar praticamente do zero. Segundo Dandara, não havia outros advogados na família e ela precisou conquistar espaço gradualmente.
Para ela, um dos maiores desafios foi começar na advocacia sem apadrinhamento e construir credibilidade por conta própria.
“Então, para mim, o mais desafiador foi ter começado assim sozinha, porque na minha família não tem nenhum advogado e a primeira.”
Hoje, nove anos depois da formação, Dandara administra o próprio escritório e vê a carreira de uma maneira diferente daquela imaginada quando ainda estava na faculdade.
A história que ganhou milhares de seguidores nas redes sociais, portanto, vai além da repercussão de um vídeo. É também o registro de uma trajetória construída a partir de oportunidades educacionais, esforço e da decisão de transformar as próprias dificuldades em motivação para seguir em frente.
“Para nós que saímos do interior de famílias humildes, sem padrinhos, a gente só consegue ser alguma coisa na vida através do estudo.”
Natália Costa é jornalista pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Profissional multimídia premiada com experiência na TV Band, Rádio Clube News e Rádio UFPI, Portal Piauí Hoje e assessoria de imprensa do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI). Vencedora de três prêmios de jornalismo universitário (Sebrae e TJ-PI). Possui capacidade de apuração e produção de conteúdo digital. Apaixonada por contar histórias e transformar informações complexas em notícias acessíveis.
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