SUPERAÇÃO PELA ARTE
Natalia Costa
14 de julho de 2026 às 13:56 ▪ Atualizado há 52 minutos
A arte foi muito mais do que uma profissão para a artista plástica Maria Cecília. Ela se tornou um refúgio, uma forma de expressar sentimentos e, principalmente, um instrumento para vencer a depressão. Em entrevista ao podcast Mulher Mais, do Portal Piauí Hoje, a artista revelou que enfrentou um quadro grave da doença, precisou ser internada em um hospital psiquiátrico e encontrou no desenho a força necessária para continuar.
Embora pinte desde a infância, Maria Cecília contou que sua relação com a arte ganhou um novo significado entre o fim de 2023 e o início de 2024, quando enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua vida.
"Eu tive uma depressão muito funda e acabei ficando internada por muito tempo em hospitais psiquiátricos. Lá, a forma que eu mais encontrava era pintar. Eu chegava nos enfermeiros, nos médicos, e falava: 'Vocês têm pelo menos um papel, um giz de cera para eu pintar? Porque eu não estou aguentando mais ficar trancada dentro desse quarto'."
A artista contou que produziu diversos desenhos durante a internação e que parte deles permanece no hospital até hoje.
Segundo Maria Cecília, desenhar era uma forma de colocar para fora sentimentos que não conseguia expressar em palavras.
"Era uma sensação de liberdade, de ser quem eu realmente sou. Era uma forma de gritar. Eu nunca fui muito de falar, eu fui mais de pintar. Quando eu pintava, conseguia demonstrar o que estava sentindo."

Além da história de superação, a artista plástica explicou que suas obras têm uma identidade muito bem definida: homenagear a ancestralidade e a cultura afro-brasileira.
Praticante da Umbanda, ela contou que encontrou na pintura uma maneira de demonstrar respeito aos seus ancestrais e à religião de matriz africana.
"Depois que eu entrei para a religião, sempre quis uma forma de demonstrar o amor que eu sinto por ela. A forma de homenagear meus ancestrais foi através da arte."
Em suas telas, predominam mulheres negras em posições de destaque, exaltando força, beleza e identidade.
Para criar seus quadros, a artista utiliza fotografias de pessoas comuns como referência, buscando retratar expressões e histórias reais.
Apesar de pintar desde criança, Maria Cecília afirmou que a decisão de viver exclusivamente da arte surgiu durante uma viagem a Salvador (BA).
Ela contou que, ao visitar galerias no Pelourinho e entrar em contato com obras que retratavam pessoas negras e elementos das religiões de matriz africana, percebeu que havia encontrado o caminho que desejava seguir.
"Foi ali que eu decidi que ia trabalhar com isso, dessa forma e com essa identidade."
A artista considera que as encomendas produzidas durante essa viagem foram o verdadeiro divisor de águas de sua carreira.
Durante a entrevista, Maria Cecília também comentou sobre o avanço da Inteligência Artificial na produção artística. Para ela, a tecnologia pode ser uma ferramenta de apoio, mas jamais substituirá a criatividade humana.
"O que eu estava vendo era que os artistas estavam com medo da IA nos substituir. Mas acho que devemos ser aliados a ela. Não pedir para ela fazer a obra, mas sugerir caminhos, cores e ideias. A IA nunca vai nos substituir."

Entre todas as pinturas produzidas, a artista plática revelou que a mais importante retratava Iemanjá e Oxum. Embora já tenha sido vendida, ela diz guardar um carinho especial pela tela.
Para o futuro, Maria Cecília pretende ampliar seu trabalho, abrir um ateliê e compartilhar conhecimento com outras pessoas.
"O que eu mais quero atualmente é montar meu ateliê e começar a dar cursos. Tenho uma vontade enorme de ensinar as pessoas e levar minha arte mais além."
Ao final da entrevista, a artista deixou uma mensagem para quem sonha em viver da arte.
A trajetória de Maria Cecília mostra que, para além das cores e pincéis, a arte também pode ser um instrumento de cura, resistência e transformação, capaz de preservar histórias, fortalecer identidades e oferecer esperança mesmo nos momentos mais difíceis.
Natália Costa é jornalista pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Profissional multimídia premiada com experiência na TV Band, Rádio Clube News e Rádio UFPI, Portal Piauí Hoje e assessoria de imprensa do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PI). Vencedora de três prêmios de jornalismo universitário (Sebrae e TJ-PI). Possui capacidade de apuração e produção de conteúdo digital. Apaixonada por contar histórias e transformar informações complexas em notícias acessíveis.
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