O PISO E O TETO
Por Luiz Brandão
27 de setembro de 2026 às 11:15 ▪ Atualizado há 58 minutos
Enquanto os estados mais ricos do Brasil ainda patinam em resultados estagnados no ensino de matemática, o Piauí, historicamente visto como "vazio educacional", subiu silenciosamente e rapidamente, em menos de uma década, ao topo do ranking nacional nessa disciplina.
Segundo os dados mais recentes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), o Piauí conquistou o primeiro lugar nacional em aprendizado de matemática no ensino médio, superando regiões de renda muito mais alta, como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio de Janeiro e o Distrito Federal. O resultado foi analisado com base nos microdados do Saeb pela organização "Todos Pela Educação" e destacado pelo colunista Pedro Fernando Nery, do jornal Estadão, em seu quadro "Chama o Nery".
O significado desse ranking vai muito além dos números. O Piauí é considerado um dos estados economicamente menos desenvolvidos do país, com renda per capita historicamente entre as mais baixas do Brasil. No entanto, é exatamente nessa terra "carente de recursos" que a qualidade do ensino de matemática superou a de estados com os maiores orçamentos e maiores e melhores quadros de professores.
Os dados revelam ainda um fato de impacto ainda maior: em comparação com São Paulo, o Piauí apresenta quase o dobro do percentual de alunos com aprendizagem considerada adequada para a idade. Para um estado que, há dez anos, ocupava posições intermediárias nos rankings nacionais de educação, esse salto representa um marco na educação pública brasileira.
Por trás do milagre educacional do Piauí está uma figura de significado simbólico: o governador Rafael Fonteles. Matemático de formação, com mestrado concluído pelo renomado Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), uma das mais prestigiadas instituições de pesquisa do Brasil, Fonteles aposta na educação para desenvolver o estado.
O governador transportou para a formulação e execução das políticas públicas de educação a lógica sistêmica, a precisão e o planejamento de longo prazo próprios do raciocínio matemático. Em seu plano de governo, a educação foi explicitamente definida como "prioridade absoluta".
Essa prioridade não ficou no discurso. Entre 2023 e 2025, a nota de matemática do ensino médio do Piauí saltou de 266,6 para 286,6 pontos, um crescimento de 20 pontos em um único ciclo, quase o dobro do avanço do segundo colocado nacional, o Paraná. Esse crescimento levou o Piauí do nível 2 para o nível 3 na escala de proficiência em matemática do Saeb. Essa foi a primeira vez na história do estado que ele alcança essa faixa.
Para o estudiosos do assunto, em uma perspectiva de mais longo prazo, o avanço é ainda mais impressionante. Desde 2015, a nota de matemática do Piauí acumula um crescimento de 37,88 pontos, enquanto a média nacional da rede estadual avançou apenas 8,83 pontos. Isso significa que a velocidade de progresso do Piauí é mais de quatro vezes superior à média do país.
A vitória de um projeto sistêmico
O sucesso do Piauí não é fruto do acaso. Uma série de reformas estruturais implementadas pelo governo estadual ao longo de 20 anos constitui a base dessa conquista. A ideia base surgiu lá na gestão do então secretário de Educação do Piauí, Antônio José Medeiros.
Hoje, a medida central é a expansão das escolas de tempo integral. Em 2025, 512 escolas estaduais de ensino médio do Piauí já ofereciam o modelo de jornada integral. Nesse modelo, os alunos passam até 9 horas por dia na escola, com um currículo que ultrapassa as disciplinas tradicionais e abrange áreas como inteligência artificial, empreendedorismo, educação financeira e robótica.
LO secretário de Educação, Rodrigo Torres, classifica esse modelo como "padrão ouro", com infraestrutura que inclui salas climatizadas, laboratórios, bibliotecas e instalações esportivas, garantindo suporte material à qualidade do ensino.
A reforma dos mecanismos de incentivo aos professores também foi decisiva. O Piauí criou um sistema de bonificação por desempenho diretamente vinculado aos resultados do Saeb: professores de escolas com bom desempenho recebem o 14º salário como prêmio. Em um estado com recursos educacionais limitados, essa política elevou efetivamente o engajamento da linha de frente do ensino.
Além disso, por meio do mecanismo de colaboração "Pacto pela Educação", o governo estadual estabeleceu parcerias sistemáticas com os 224 municípios do estado, oferecendo suporte técnico e formação continuada de professores. Essa integração vertical garantiu que a reforma educacional fluísse da política estadual até a prática em sala de aula.
Ascensão não é um caso isolado
O avanço em matemática é apenas uma das faces da melhoria geral da educação no Piauí. Em 2025, o ensino médio do estado alcançou nota 5,0 no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), ficando em segundo lugar no país, atrás apenas do Paraná, e liderando no Nordeste. Para um estado cuja nota no Ideb era pouco acima de 3 há vinte anos, esse avanço não tem paralelo em âmbito nacional.
Na transição para o ensino superior, o Instituto Dom Barreto, escola particular localizada em Teresina, obteve a maior média geral do país no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2025, com 752,1 pontos, entre todas as grandes escolas (com mais de 100 candidatos), ocupando a 11ª posição no ranking geral nacional. A escola já havia conquistado a maior média nacional do Enem em 2006, evidenciando a continuidade da excelência educacional no Piauí.
Na etapa da educação básica, o Piauí recebeu em 2026 o selo "Ouro" do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, com 77% das crianças alfabetizadas na idade certa — um salto significativo em relação aos 60% anteriores, tornando-o o estado com o crescimento mais rápido em alfabetização no país. A qualidade da educação pública na capital, Teresina, também entrou no top 3 nacional, com a taxa de proficiência dos alunos do 9º ano em matemática no ensino fundamental ocupando a terceira posição entre as grandes e médias cidades brasileiras.
Redefinindo o "impossível" na educação
O caso do Piauí tem significado paradigmático para o debate sobre políticas de educação pública no Brasil. Por muito tempo, o discurso educacional do país carregou uma premissa implícita: a qualidade da educação está fortemente correlacionada com o nível econômico da região, e estados pobres, limitados pela escassez de recursos, dificilmente conseguem uma melhoria estrutural no desempenho acadêmico em curto prazo.
Os dados do Piauí desafiam diretamente essa premissa. A liderança do estado em matemática e sua ascensão no ranking nacional do Ideb demonstram que a clareza das prioridades políticas, a coerência do sistema de execução e a precisão dos incentivos pedagógicos podem compensar, em grande medida, a insuficiência de recursos financeiros.
Como destacou Pedro Fernando Nery em seu quadro "Chama o Nery", a história do Piauí lembra que, no campo da educação pública, o "impossível" costuma ser apenas o "possível" que ainda não foi tentado. Quando um estado coloca a educação no centro de sua estratégia de desenvolvimento e a executa com o rigor lógico de um matemático, a tradicional hierarquia do desenvolvimento deixa de ser inabalável.
Para outros estados brasileiros em busca de um avanço educacional, o Piauí não oferece um modelo pronto para ser copiado, mas uma lição mais fundamental: o teto do sucesso educacional depende, antes de tudo, do piso da vontade política.
Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
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