Viver Pleno

REFLEXÃO

O amor como resistência democrática diante das eleições de 2026

Reflexão a partir de um trecho de Pedagogia do Oprimido

Por Nazareno Fonteles

26 de setembro de 2026 às 14:40 ▪ Atualizado há 53 minutos

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  • **O amor como ato político:** A eleição de 2026 no Brasil é vista como um teste para a democracia e o pensamento de Paulo Freire oferece um entendimento sobre a política atual.
  • **Patologia do amor no debate público:** A polarização e desinformação dominam o cenário político, com a inteligência artificial gerando ameaças à verdade e à estabilidade institucional.
  • **Amor como ato de coragem:** Freire defende o amor como um compromisso corajoso, que exige cidadania ativa e combate à desinformação e violência política.
  • **Escolha entre amor e dominação:** O Brasil enfrenta a decisão de optar entre medo e manipulação ou diálogo e liberdade, incentivando a supressão das desigualdades estruturais.
  • **Conclusão:** A democracia requer diálogo constante e um compromisso coletivo para eleger um governo que promova a liberdade e a justiça social.

Imagem gerada por IA O amor e a fraternidade vencerão o ódio sempre
O amor e a fraternidade vencerão o ódio sempre

1. O amor como ato político no Brasil de hoje

O trecho de Pedagogia do Oprimido não é um conselho afetivo — é uma chave de leitura da política. Quando Freire afirma que o amor "não pode verificar-se na relação de dominação" e que, nela, o que existe é "patologia do amor: sadismo em quem domina; masoquismo nos dominados", ele ilumina com precisão o clima que o Brasil atravessa às vésperas do pleito de 4 de outubro de 2026. A eleição que se aproxima tem sido apontada por analistas como um teste decisivo para a democracia brasileira. O pensamento freiriano oferece um vocabulário para entender por quê — e, sobretudo, para saber o que fazer.

2. A patologia do amor no debate público

Paulo Freire é claro: onde há dominação, não há diálogo, apenas a encenação dele. No Brasil de 2026, essa encenação tem nome — a polarização que transformou o adversário em inimigo, a desinformação que substituiu o fato pela narrativa e a suspeita sistemática que corroeu a confiança nas instituições. Estudos recentes indicam que o ambiente digital voltou a ser o palco central da radicalização do debate. O que Freire chama de "sadismo em quem domina" aparece hoje na violência política de gênero, no assédio eleitoral e na intimidação de quem tenta participar; o "masoquismo nos dominados", na adesão resignada a narrativas que humilham o próprio povo.

A patologia, porém, não é apenas moral — é estrutural. Ela se materializa em sistemas organizados de desinformação que, como vêm alertando o Senado Federal e as Nações Unidas, ameaçam a estabilidade institucional e a confiança na esfera pública. E ganhou um novo e perigoso aliado: a inteligência artificial. A segunda edição do Guia Internet, Democracia e Eleições, lançada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) em 22 de setembro, aponta que vídeos falsos gerados por IA e a informação de baixa qualidade substituíram as tradicionais fake news como principal ameaça digital às eleições e à democracia. Em relação à primeira edição do guia, de 2018, a mudança é abrupta: o ciclo de 2026 é o primeiro pleito presidencial em que a mentira pode ser fabricada em escala industrial, com rostos, vozes e cenários que nunca existiram.

3. O amor como ato de coragem

Diante disso, a resposta de Paulo Freire não é o cinismo, mas a coragem. "Porque é um ato de coragem, nunca de medo, o amor é compromisso com os humanos." No contexto eleitoral, amar o mundo significa recusar tanto a pieguice quanto a manipulação. A pieguice é o conformismo de quem lamenta a polarização sem agir; a manipulação é o uso cínico da boa vontade como disfarce de controle — exatamente o que a desinformação faz quando se apresenta como "informação".

Amar, em 2026, é um ato de cidadania ativa: é verificar antes de compartilhar, é exigir que as plataformas assumam responsabilidade, é defender que o debate seja pautado por fatos e não por narrativas deliberadamente falsas. O TSE, os TREs, o Congresso Nacional e as próprias plataformas digitais já mobilizam, em diferentes graus, ações de combate à desinformação e à violência política. Mas nenhuma instituição substitui o cidadão. A democracia não é um prédio que se preserva de fora; é um campo de diálogo que se reconstrói a cada dia, a cada voto, a cada conversa.

4. A escolha entre o amor e a dominação

Freire encerra o trecho com a frase mais exigente: "Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os humanos, não me é possível o diálogo." Essa frase é um teste para o Brasil de 2026. Temos amado o mundo concreto, com suas dores reais — a fome, a desigualdade, a violência — ou apenas a imagem que construímos dele? Temos amado os humanos, inclusive os que pensam diferente, ou apenas os que nos confirmam?

A resposta à ameaça democrática não se esgota num nome na urna; passa também pela qualidade do vínculo entre os cidadãos. O voto é o ato final de um processo que começa muito antes: no diálogo que resiste à manipulação, na coragem de escutar o outro, no compromisso com a libertação de quem sofre as desigualdades estruturais. Como diz Freire, "somente com a supressão da situação opressora é possível restaurar o amor que nela estava proibido". A opressão, hoje, tem rostos bem conhecidos: a desinformação que sequestra a verdade, a polarização que impede o encontro, o medo que paralisa. Suprimi-la é a tarefa democrática de cada eleitor.

O Brasil de 2026 está diante de uma escolha freiriana fundamental: entre o medo, que empurra para a manipulação e o silêncio, e a coragem, que abre espaço para o diálogo e a liberdade. Que a escolha seja pelo amor — não o amor piegas, mas o amor que é compromisso, que é ato de valentia e que, como ensina Freire, "não pode ser pretexto para a manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade". 

Em síntese: às vésperas das eleições, diante de ameaças internas e externas à nossa democracia, devemos lutar por meio de todas as formas de diálogo possíveis — nas ruas, nos encontros, nos eventos e nas redes sociais — para eleger Lula 13 no primeiro turno!

Trecho de referência

"Sendo fundamento do diálogo, o amor é, também, diálogo. Daí que seja essencialmente tarefa de sujeitos e que não possa verificar-se na relação de dominação. Nesta, o que há é patologia do amor: sadismo em quem domina; masoquismo nos dominados. Amor, não. Porque é um ato de coragem, nunca de medo, o amor é compromisso com os humanos. Onde quer que estejam estes, oprimidos, o ato de amor está em comprometer-se com sua causa. A causa de sua libertação. Mas, este compromisso, porque é amoroso, é dialógico.

Como ato de valentia, não pode ser piegas; como ato de liberdade, não pode ser pretexto para a manipulação, senão gerador de outros atos de liberdade. A não ser assim, não é amor.

Somente com a supressão da situação opressora é possível restaurar o amor que nela estava proibido.

Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os humanos, não me é possível o diálogo."

(Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, cap. III)

Nota: no texto original, Freire escreve "homens"; aqui se adota "humanos", em sintonia com a revisão de linguagem que o próprio autor assumiu em Pedagogia da Esperança (1992).

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José Nazareno Cardeal Fonteles é graduado em Medicina e Matemática. Fez residência médica em Ortopedia e Traumatologia e mestrado em Matemática. Atuou como ortopedista no HGV, na Casamater e nas clínicas Cot e Copil. É professor aposentado da UFPI. Exerceu mandatos de vereador, deputado estadual e de deputado federal. Fundou e presidiu por sete anos a Frente Parlamentar da Segurança Alimentar e Nutrcional do Congresso Nacional. Foi secretário de saúde do Piauí. Participa da direção do grupo educacional CEV. É casado com Nereida, pai de Deborah, Danielle e Rafael e avô de sete netos. Tem fé em Jesus de Nazaré, o Mestre do Amor Gratuito. <a href="https://www.instagram.com/nazarenofonteles/" target="_blank">Instagram do autor</a>