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CASO BANCO MASTER

Delação de Vorcaro deixa Flávio Bolsonaro, Centrão e o resto do bolsonarismo em pânico

Manobras para evitar que o banqueiro faça sua delação mostra o medo e a hipocrisia dos que nunca quiseram a CPI do Banco Master

Por Luiz Brandão

19 de maio de 2026 às 22:30 ▪ Atualizado há 1 hora

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  • O escândalo do Banco Master, inicialmente usado pelo bolsonarismo para atacar o governo Lula, revelou implicações para o próprio grupo de Bolsonaro.
  • As investigações não apontaram ligação do escândalo com o governo Lula, mas sim com figuras centrais do bolsonarismo e do Centrão.
  • O pânico entre os bolsonaristas aumentou com a iminente delação premiada de Daniel Vorcaro.
  • A troca de advogado de Vorcaro indica que ele deseja cooperar com as investigações.
  • Áudios revelaram contatos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, desmentindo declarações públicas de distanciamento.
  • A delação também ameaça políticos como Ciro Nogueira e Eduardo Bolsonaro, ligados a transações financeiras obscuras.
  • O ministro André Mendonça, indicado por Bolsonaro ao STF, enfrenta pressão para lidar com o caso.
  • A situação reflete a hipocrisia do discurso anticorrupção do bolsonarismo.
  • O resultado da delação pode impactar as eleições de 2026, afetando figuras como Flávio Bolsonaro e seu grupo.

Daniel Vorcaro, Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro: delação e temor
Daniel Vorcaro, Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro: delação e temor

Nos últimos meses, o bolsonarismo tinha uma estratégia clara: transformar o escândalo do Banco Master em arma contra o governo Lula. A palavra de ordem era "CPI já". Há dez dias, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) circulou pelo Sul com uma camiseta estampando a provocação: "O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula". Mas os fatos reais mostram que não era bem assim. 

A verdade é outra e ela virou um grande problema para os bolsonaristas e seus líderes: as investigações da Polícia Federal e os áudios vazados não apontam o escândalo do Master para o governo Lula e nem para o PT. Apontam é para o próprio núcleo duro do bolsonarismo, da direita, da extrema direita e do Centrão.

Agora, com a iminência de uma delação premiada de Daniel Vorcaro, o pânico tomou conta dos bolsonaristas. A pergunta que ecoa nos bastidores não é mais se a delação vai acontecer, mas como fazer para que ela não produza efeitos ainda mais catastróficos para o candidato Flávio Bolsonaro e seus aliados nos estados.

O que se observa agora é a mudança de tom que denuncia o medo. A direita cuidou de espalhar que a transferência de Vorcaro para uma cela comum na PF indica que sua delação "subiu no telhado". A proposta apresentada pelos advogados foi considerada "muito ruim" pelos investigadores, porque faltam peças, faltam nomes. E isso é que causa pavor.

Mas o detalhe crucial para explicar o medo é outro: Vorcaro trocou de advogado justamente para viabilizar a delação. Saiu Pierpaolo Bottini, que era contrário a esse tipo de acordo. Entrou José Luis Oliveira Lima, especialista em delação. E ela está no forno e a mensagem é clara: Vorcaro quer falar. E os bolsonaristas sabem o que ele tem a dizer.

Flávio cobrava, mas negava

As contradições do senador Flávio Bolsonaro são o termômetro do desespero. Durante meses, ele negou qualquer relação próxima com Vorcaro. Em março, ao ser questionado sobre o número do banqueiro em sua agenda telefônica, Flávio minimizou: seu telefone "não é propriamente um segredo".

Só que os áudios obtidos e divulgados pelo siteThe Intercept Brasil, semana passada, contam outra história. Flávio trata Vorcaro como "irmão". Cobra parcelas atrasadas para financiar um filme sobre o pai. Diz que "todo mundo está tenso" com o risco do projeto não sair.

Isso não é relação de desafeto. É relação de parceiros de negócio. E o negócio, segundo a PF, envolveu R$ 61 milhões oriundos de um fundo ligado ao exterior. O valor total cobrado era R$ 134 milhões para o filme do pai Flávio 

De acordo com informações da imprensa de Brasília, o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro já teria aconselhado o filho a "apresentar todos os fatos de forma clara e completa" para reduzir danos. O problema é que, quanto mais claros os fatos, maiores os danos. Ou seja, quanto mais Flávio fala, mais se enrola.

O ministro André Mendonça: a lei e o dilema 
O dilema de André Mendonça

No centro do furacão do caso do Banco Master está o ministro André Mendonça, do STF. Ele foi indicado por Jair Bolsonaro. Deve sua cadeira ao ex-presidente. E agora precisa decidir se aceita ou não a delação de Vorcaro, que pode atingir em cheio seus amigos.

Há informações dando conta que André Mendonça teve "discussões ríspidas e em termos duros" com a defesa do ex-banqueiro preso. Ele considera que as informações apresentadas pelos advogados de Vorcaro estão "distantes do que já foi apurado pela PF".

Mendonça tem se mantido firme. Afirmou publicamente que a colaboração premiada deve ser "séria e efetiva". Mas a pressão dos bolsonaristas para que ele atrapalhe o acordo é imensa.

Ciro Nogueira, Alcolumbre e o Centrão

O desespero não é monopólio da família Bolsonaro. A delação de Daniel Vorcaro ameaça explodir o Centrão. Os investigadores já confirmaram que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, recebia pagamentos mensais do banqueiro, valores que começaram em R$ 300 mil e foram reajustados para R$ 500 mil. Segundo a PF, o dinheiro era lavado por meio de empresas do irmão do parlamentar.

E o que dizer de Eduardo Bolsonaro e Mário Frias? As investigações apontam que o fluxo de caixa do Banco Master também abastecia estruturas paralelas de campanha e projetos de comunicação digital do clã. Eduardo seria o controlador fantasma de um fundo de investimentos no Estados Unidos para onde pelo menos R$ 61 milhões de Vorcaro teria enviado.

Nomes de David Alcolumbre e Hugo Mota também já apareceram no caso
A verdade desnuda a hipocrisia

Há muita hipocrisia do discurso anticorrupção. O bolsonarismo construiu sua narrativa em torno do combate à corrupção. "Nós somos contra o velho jeito de fazer política", diziam. "Acabamos com a propina."

Mas as mensagens de Flávio Bolsonaro pedindo "parcelas" para Vorcaro expõem a cara do "novo" jeito de fazer política. A diferença é que, antes, a propina era em espécie, em malas de dinheiro. Agora, é transferida por meio de fundos internacionais, lavada em produções cinematográficas e disfarçada de "relação privada".

O cenário atual é de impasse. A delação de Vorcaro está em negociação. A PF e a PGR exigem ajustes. Mendonça cobra "seriedade". E os advogados do ex-banqueiro vão diariamente à Superintendência da PF em Brasília para tentar costurar um acordo.

Se a delação for homologada, o efeito sobre as eleições de 2026 será devastador. Flávio Bolsonaro é pré-candidato à Presidência. Eduardo Bolsonaro projeta carreira própria. Ciro Nogueira articula a oposição no Senado. David Alcolumbre preside a Casa.

Todos eles têm motivos de sobra para temer o que Daniel Vorcaro tem a dizer. E todos eles estão, neste momento, tentando de tudo para que ele não diga nada. E essa é uma ironia cruel: os mesmos que berravam por CPI do Master agora suplicam pelo silêncio. Para essa gente sem escrúpulos, a verdade, afinal, só é bem-vinda quando atinge o adversário.

Entrevista

Nesta terça-feira (19), Flávio Bolsonaro se reuniu com as bancadas do PL na Câmara e no Senado para falar da sua relação com Daniel Vorcaro. Em seguida deu entrevista à imprensa e revelou que esteve na casa do banqueiro dois dias após o dono do Banco Master sair da prisão com tornozeleira eletrônica. A entrevista deixou o ex-juiz Sérgio Moro com expressão de preocupado. O caso pode causar estragos na candidatura de Moro ao Governo do Paraná.

A seguir a entrevista de Flávio Bolsonaro e a reação de Sérgio Moro às revelações do amigo 

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Fonte: PF/Redes sociais/TV/Agências de notícias

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Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.



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