PODCAST MULHER MAIS
Natalia Costa
19 de maio de 2026 às 14:12 ▪ Atualizado há 46 minutos
A tenente-coronel Najra Nunes, primeira mulher a ingressar no Corpo de Bombeiros Militar do Estado Piauí (CBMEPI), relembrou os desafios enfrentados dentro da corporação ao participar do podcast Mulher Mais, do portal Piauí Hoje. Durante a entrevista, ela falou sobre preconceito, maternidade, liderança feminina e as ocorrências mais marcantes da carreira.
A tenente-coronel começou o curso de formação para entrar na corporação em 1998, aos 17 anos, quando ainda era a única mulher em meio a centenas de militares homens.
Eu entrei e tinham 300 e poucos militares no efetivo e só tinha eu de mulher. Eu era uma menina totalmente ingênua, criada de forma muito rígida. Nunca tinha ido pro mundo.
A militar contou que viveu um dos períodos mais difíceis da vida ao engravidar durante o curso de formação em Brasília. Segundo ela, foi a primeira mulher do Brasil a gestar durante um curso militar sem ser desligada da formação.
“Antes, se uma mulher militar engravidasse durante o curso, ela era expulsa. Nós conseguimos, graças a Deus, com ajuda do meu pai, me manter na corporação”, afirmou.

A tenente-coronel disse que, além da luta institucional para continuar no curso, precisou enfrentar o julgamento e o preconceito dentro dos quartéis.
Eu passava pelos corredores de cabeça baixa. Sentia vergonha dos olhares de reprovação. Me sentia como se tivesse cometido algo errado por estar grávida.
Ela afirmou que carregou por anos o estigma de ter sido “a mulher que engravidou”, mas hoje vê a situação como uma conquista coletiva para outras militares.
“Hoje, graças a Deus, várias mulheres conseguem gestar durante a formação sem perder o curso. A minha luta abriu portas para outras mulheres”, declarou.
Durante o podcast, a militar também falou sobre o orgulho de representar mulheres dentro de uma profissão historicamente masculina.
“Eu ouvi muitas vezes que bombeiro era profissão de macho e não lugar para mulher. Isso magoa, mas também fortalece”, disse.
A tenente-coronel destacou ainda que mulheres possuem uma forma diferente de liderar dentro da corporação. “A mulher tem um olhar mais humano, mais cuidadoso com os pares e subordinados. A gente pensa também na qualidade de vida dos militares”, explicou.
Entre os momentos mais marcantes da carreira, tenente-coronel relembrou uma ocorrência envolvendo uma criança vítima de um acidente com trator durante uma obra em Brasília. Segundo ela, a cena foi uma das mais traumáticas da vida profissional.
Era uma criança brincando em um terreno de obra. O trator acabou compactando a cabeça dela na terra. Quando chegamos, ela ainda tinha sinais vitais. Foi muito chocante para mim.
A militar também falou sobre o sentimento vivido pelos bombeiros durante as ocorrências e afirmou que o maior medo da profissão não é morrer, mas falhar no salvamento de alguém.
“O medo da gente é errar e isso custar a vida de uma pessoa. Nós somos treinados para dar a própria vida, se necessário for, para salvar outra”, afirmou.

Atualmente, o Corpo de Bombeiros Militar do Piauí possui cerca de 50 mulheres na corporação e passa por expansão no estado, com novos quartéis e concursos públicos em andamento. Segundo a tenente-coronel, o aumento da presença feminina representa uma mudança histórica dentro da instituição.
Ao final da entrevista, ela atribuiu à mãe e à avó a força que a ajudou a chegar ao comando da corporação.
“Minha mãe corria atrás de ônibus comigo para eu estudar. Minha mãe e minha avó foram as mulheres que me fizeram chegar até aqui”, declarou.
Assista o podcast completo:
Fonte: Piauí Hoje
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