PAPO DE JALECO
Da Redação
05 de maio de 2026 às 17:28 ▪ Atualizado há 55 minutos
Um dado alarmante do IBGE acendeu um sinal vermelho sobre o bem-estar dos adolescentes piauienses: o estado lidera no Nordeste o ranking de jovens entre 13 e 17 anos que sentem que a vida não vale a pena. . Em entrevista detalhada ao podcast Papo de Jaleco, apresentado pela jornalista Malu Barreto e pelo médico Anatole Borges, o psiquiatra Ralph Webster, ex-diretor do Hospital Areolino de Abreu, falou sobre essa realidade.
Segundo o especialista, o que o estado testemunha hoje é uma "tempestade perfeita" de fatores que deterioram a saúde mental precocemente, unindo sequelas da pós pandemia, pressões estéticas e carências socioeconômicas que criou um ambiente hostil para a formação emocional das novas gerações
O médico enfatiza que o sofrimento tem rosto e gênero: as adolescentes são as principais vítimas desse processo. De acordo com Webster, a prevalência de quadros depressivos e pensamentos autodestrutivos chega a ser dez vezes maior entre as meninas em comparação aos meninos. Ele aponta que as redes sociais exercem uma pressão desproporcional sobre o público feminino, ditando padrões de beleza inalcançáveis e uma "felicidade algorítmica" que não admite falhas.
"O padrão de beleza e a busca por curtidas criam uma comparação constante. Ninguém posta tristeza no Instagram, e o jovem, ao ver a vida do outro sempre sorrindo, sente que o seu problema é isolado", explica o psiquiatra, destacando como o mundo virtual distorce a percepção da realidade.
Automutilação e a carência de suporte técnico especializado
A pesquisa do IBGE também reflete um aumento preocupante nos casos de automutilação, que Webster identifica como um grito de socorro diante da angústia. Ele destaca que, muitas vezes, os sinais de alerta são negligenciados pelos pais, que confundem sintomas de depressão com a "rebeldia" típica da idade ou com o que chamam pejorativamente de "frescura".

Para o médico, a queda no rendimento escolar, o isolamento social e as alterações bruscas de humor são parâmetros fundamentais que deveriam ser acompanhados de perto tanto pela família quanto pelas instituições de ensino. No entanto, o especialista aponta um gargalo grave no sistema: a escassez de profissionais qualificados no setor público.
"A gente tem uma dificuldade imensa de encontrar psiquiatras e psicólogos infantis que possam dar suporte. Em Teresina, por exemplo, o número de CAPS infantis é insuficiente para a demanda de quase um milhão de habitantes", afirma Webster.
Ele defende que a presença de psicopedagogos nas escolas deveria ser uma regra para identificar o bullying e as oscilações de humor antes que se transformem em tragédias. "O acompanhamento psicológico deveria ser uma regra e não uma exceção; nos lugares mais evoluídos do mundo, as pessoas não têm esse preconceito", reforça.
Álcool, resiliência e o papel das famílias desestruturadas
Outro ponto abordado por Ralph Webster é o impacto do consumo de substâncias na ideação suicida. Ele alerta que cerca de 70% dos suicídios consumados possuem algum envolvimento com álcool ou drogas, um problema que muitas vezes começa dentro de casa com a anuência dos pais sob a justificativa de tradição cultural. Além disso, o médico discute o baixo limiar de frustração da geração atual. Para ele, a resiliência não é algo inato, mas aprendido através da convivência e do enfrentamento de perdas, algo que as gerações passadas exercitavam em simples brincadeiras de rua que ensinavam a perder.
O psiquiatra conclui que o tratamento não pode ser visto como um "passe de mágica" através de pílulas. Ele relata que muitas famílias chegam ao consultório exigindo remédios para os filhos, sem estarem dispostas a mudar o ambiente doméstico agressivo ou negligente em que vivem. Webster é enfático ao dizer que a medicação é apenas uma ferramenta em um ecossistema muito maior de cura.
"O antidepressivo vai ajudar, mas ele não vai fazer o marido parar de beber ou a família parar de ser violenta. É preciso distinguir o que está na sua mão mudar e o que é reflexo de uma realidade social complexa", finaliza, sugerindo que o retorno ao esporte e ao diálogo familiar são os melhores caminhos para a recuperação.
ASSISTA A ENTREVISTA COMPLETA
MAL SÚBITO
Alerta Sanitário em Oeiras
ALERTA
VACINAÇÃO ANIMAL
Saúde e sociedade