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DADOS CONCRETOS

ONU ativa painel científico para avaliar impactos da IA

Grupo de 40 especialistas independentes vai produzir relatórios técnicos para orientar governos e evitar fragmentação tecnológica global

Da Redação

Sexta - 20/02/2026 às 17:44



Foto: O primeiro relatório técnico do painel está previsto para julho deste ano
O primeiro relatório técnico do painel está previsto para julho deste ano

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, anunciou nesta sexta-feira (20) a ativação do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial, um órgão formado por 40 especialistas de diversas regiões do mundo que terá a missão de fornecer evidências confiáveis sobre os impactos da tecnologia na economia e na sociedade. O anúncio foi feito durante a Cúpula sobre o Impacto da IA, em Nova Délhi, na Índia, primeiro grande evento sobre o tema realizado no Sul global .

A criação do painel foi aprovada pela Assembleia Geral da ONU no ano passado e os integrantes acabam de ser nomeados para um mandato de três anos. Eles atuarão de forma independente, e não como representantes de seus países de origem. O grupo é multidisciplinar, reunindo especialistas em tecnologia, direito, economia, ética e outras áreas. Os integrantes foram selecionados entre mais de 2.700 candidatos, com critérios rigorosos de equilíbrio de gênero e representação geográfica .

"Este painel foi desenhado para ajudar a fechar a lacuna de conhecimento sobre IA e avaliar os impactos reais da tecnologia nas economias e nas sociedades. É totalmente independente, globalmente diverso e multidisciplinar, porque a IA toca todas as áreas de cada sociedade", afirmou Guterres .

Secretário-geral da ONU, António Guterres (ONU/Mark Garten)

O primeiro relatório técnico do painel está previsto para julho deste ano, antes da primeira sessão do Diálogo Global sobre Governança da IA, que ocorrerá em Genebra. O objetivo é substituir o "exagero e o medo" por dados concretos que possam orientar a formulação de políticas públicas em países com diferentes níveis de desenvolvimento tecnológico .

Guterres foi enfático ao defender que a ciência deve ser a base da regulação da inteligência artificial. "Política não pode ser construída com base em achismos. Não pode ser construída com base em exageros ou desinformação. Precisamos de fatos em que possamos confiar e compartilhar entre países e setores. Menos ruído. Mais conhecimento", declarou .

O dirigente da ONU também alertou para o risco de fragmentação global caso não haja padrões comuns de governança. "Hoje em dia, a cooperação internacional é difícil, a confiança está em níveis mínimos e a rivalidade tecnológica cresce na ausência de uma base comum. Isso gera uma fragmentação entre diferentes regiões e países operando sob políticas e tecnologias incompatíveis", advertiu .

Fundo global e controle humano

Paralelamente à ativação do painel científico, Guterres propôs a criação de um Fundo Global para IA, com meta de arrecadar US$ 3 bilhões. O recurso seria destinado a desenvolver capacidade básica em países em desenvolvimento, incluindo treinamento de mão de obra, acesso a dados, poder computacional acessível e ecossistemas inclusivos. O valor representa menos de 1% da receita anual de uma única grande empresa de tecnologia, segundo o secretário-geral .

"Sem investimento, muitos países ficarão excluídos da era da IA. O futuro da IA não pode ser decidido por um punhado de países – ou deixado à mercê dos caprichos de alguns bilionários", afirmou Guterres, em referência à concentração do desenvolvimento da tecnologia nas mãos de poucas corporações do setor .

ONU propôs a criação de um fundo global para promover inclusão digital

Outro pilar defendido pelo secretário-geral é a garantia de que haja supervisão humana sobre as decisões tomadas por sistemas de inteligência artificial. "Nosso objetivo é tornar o controle humano uma realidade técnica, não apenas um slogan. Em justiça, saúde, crédito e tecnologia da informação, exigem-se responsabilidades que nunca devem ser terceirizadas para um algoritmo. As pessoas devem compreender como as decisões são tomadas, questioná-las e obter respostas", disse .

Guterres também destacou preocupações específicas com grupos vulneráveis. "Nenhuma criança deve ser cobaia de uma IA não regulamentada", afirmou, alertando para os riscos de exploração, manipulação e abuso .

Potencial e riscos

O secretário-geral reconheceu o enorme potencial da inteligência artificial para acelerar avanços em áreas como medicina, educação, segurança alimentar, ação climática e preparação para desastres. Mas ponderou que, sem regulação adequada, a tecnologia também pode aprofundar desigualdades, amplificar preconceitos e causar danos sociais e ambientais.

Sem regulação adequada, a tecnologia pode aprofundar desigualdades e amplificar preconceitos



Ele citou especificamente o aumento da demanda por energia e água pelos centros de dados que sustentam a IA, defendendo que essas infraestruturas migrem para fontes limpas e não transfiram os custos para comunidades vulneráveis. "Devemos investir nos trabalhadores para que a IA aumente o potencial humano – não o substitua", completou .

O Diálogo Global sobre Governança da IA, que terá sua primeira sessão em julho em Genebra, reunirá governos, setor privado, academia e sociedade civil para discutir mecanismos de salvaguarda que preservem a autonomia, a supervisão e a responsabilidade humanas. A expectativa é que os relatórios do painel científico sirvam de base técnica para essas discussões .

"Quando concordamos sobre como testar sistemas e medir riscos, criamos interoperabilidade. Assim, uma startup em Nova Délhi pode crescer globalmente com confiança – porque os parâmetros são compartilhados. E a segurança pode viajar junto com a tecnologia", concluiu Guterres .

Fonte: ONU

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