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Igreja Universal do Edir Macedo convoca fiéis para eleger pastores e bispos nas eleições

Igreja liderada por Edir Macedo criou campanha de 52 dias com cadastro de fiéis, conteúdos diários e mobilização de apoiadores para candidatos ligados à instituição

Da Redação

17 de agosto de 2026 às 13:21 ▪ Atualizado há 38 minutos

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  • A Igreja Universal do Reino de Deus iniciou a campanha 'Desafio de Neemias' para mobilizar fiéis durante as eleições de 2026.
  • A estratégia visa apoiar candidatos ligados à igreja, como bispos e pastores, para cargos de deputado estadual e federal.
  • O 'Desafio de Neemias' envolve um cadastro em plataforma, distribuição de conteúdos políticos e mobilização para conquistar novos apoiadores.
  • A igreja também promove o programa 'Me dê a Mão' e conteúdos políticos através do grupo Arimateia.
  • O objetivo é reconectar e fidelizar os fiéis aos candidatos da igreja, aumentando sua influência política.
  • Críticos apontam que a campanha busca transformar líderes espirituais em ativos políticos.
  • Há controvérsias sobre o monitoramento das preferências políticas dos fiéis pela igreja.
  • A Associação Movimento Brasil Laico pediu uma investigação sobre potencial abuso de poder por parte da igreja durante as eleições.
  • Questiona-se o uso de dados pessoais sensíveis e a utilização da estrutura religiosa para fins eleitorais.
  • A igreja não respondeu às solicitações de comentário sobre as práticas mencionadas.

Reprodução Igreja Universal
Igreja Universal

A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo, iniciou uma campanha para mobilizar seus fiéis durante o período eleitoral de 2026. A estratégia, chamada “Desafio de Neemias”, utiliza a estrutura da igreja para reunir seguidores e voluntários em torno de candidatos ligados à instituição, principalmente bispos e pastores que disputam vagas de deputado estadual e federal.

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Bispo Edir Macedo | Foto: reprodução

A campanha começou no dia 13 de agosto e termina em 4 de outubro, data do primeiro turno das eleições. O nome faz referência ao personagem bíblico Neemias, que, segundo a Bíblia, liderou a reconstrução dos muros de Jerusalém em 52 dias.

Oficialmente, a Universal apresenta a iniciativa como uma jornada de fé e reconstrução espiritual. Segundo relatos de um ex-pastor e de especialistas ouvidos pela reportagem original, porém, a ação também teria como objetivo aumentar a capacidade da igreja de influenciar o voto de seus fiéis.

Como a Universal mobiliza os fiéis para eleger pastores

Para participar do “Desafio de Neemias”, os fiéis precisam se cadastrar em uma plataforma criada pela igreja. O sistema solicita informações como templo frequentado, bairro, cidade e estado, além de identificação facial.

Após o cadastro, os participantes recebem conteúdos e tarefas diárias, incluindo vídeos com reflexões religiosas, notícias e orientações relacionadas a temas políticos e sociais.

Segundo a reportagem, líderes da Universal também orientam os participantes a conquistar novos apoiadores. A estratégia utiliza a ideia de que cada pessoa deve ajudar a “construir um muro”, fazendo referência à história de Neemias.

Outra iniciativa utilizada pela igreja é o programa “Me dê a Mão”, que começou em 2025. Nesse projeto, fiéis recebem listas para indicar familiares, amigos e vizinhos que possam ser apresentados à igreja e posteriormente receber conteúdos relacionados aos candidatos apoiados pela instituição.

A Universal também produz programas, podcasts e vídeos sobre política por meio do grupo Arimateia, braço da igreja voltado à formação política. Esse conteúdo é compartilhado com os fiéis por redes sociais e aplicativos de mensagens.

Objetivo é aumentar a força política da igreja

De acordo com o teólogo Fábio Py, ouvido pela reportagem original, a estratégia representa uma tentativa de aproximar novamente os fiéis dos candidatos apoiados pela Universal.

“É uma tentativa de reconectar e fidelizar mais ainda os seguidores aos políticos candidatos da igreja, de uma forma muito direta. Em 2020, a votação deles foi muito pulverizada. As indicações políticas da igreja não foram atendidas tão facilmente. Eles estavam perdendo a capacidade de influenciar politicamente os fiéis”, avaliou.

O ex-pastor Davi Vieira, que deixou a Universal e hoje critica a atuação política da instituição, também considera a estratégia uma forma de mobilização eleitoral.

“É uma engrenagem de recrutamento que visa transformar futuros líderes espirituais em soldados de uma guerra eleitoral particular. É um esquema que tem o objetivo de eleger os candidatos do partido Republicanos em todo o país”, afirmou.

A Universal possui diversos nomes ligados à igreja que disputam eleições pelo país. Entre eles estão bispos, pastores, obreiros e apresentadores ligados à estrutura da instituição.

Igreja também monitora preferência política dos fiéis

Além das campanhas de mobilização, a reportagem aponta que a Universal já realizou pesquisas internas para identificar as preferências políticas dos seus seguidores.

Em fevereiro, a igreja teria enviado aos fiéis um questionário para levantar informações sobre os grupos dos quais participam, tempo de vínculo com a denominação, local onde frequentam os cultos, redes sociais utilizadas e intenção de voto para deputado.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o questionário apresentou aos fiéis nomes de candidatos ligados à igreja que disputavam vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.

Segundo o advogado Fernando Neisser, professor de Direito Eleitoral da Fundação Getulio Vargas (FGV), o uso da estrutura de uma instituição religiosa para fins eleitorais pode levantar questionamentos sobre eventual abuso de poder econômico.

“A gente sabe, eles estão querendo mapear para poder chegar nessas pessoas, e falar que tem que votar em fulano, que tem que votar em ciclano”, afirmou.

O advogado, porém, não identificou ilegalidade apenas na realização de uma pesquisa interna.

Universal não respondeu aos questionamentos

A Igreja Universal do Reino de Deus foi procurada pela reportagem original para comentar as informações sobre o “Desafio de Neemias”, a mobilização de fiéis e o uso da estrutura da instituição durante o período eleitoral.

Até a publicação da reportagem, a igreja não havia apresentado resposta. O espaço permanece aberto para manifestação.

A estratégia ocorre em um momento em que candidatos ligados à Universal disputam vagas no Legislativo em diferentes estados, enquanto a igreja busca ampliar sua influência política por meio da mobilização de seus próprios fiéis.

Associação pede investigação sobre atuação eleitoral da Universal

A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo, foi alvo de uma representação apresentada à Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo pela Associação Movimento Brasil Laico, com base em reportagem do ICL Notícias. A entidade pede investigação sobre possíveis abusos de poder econômico, político e religioso, uso de recursos vedados, propaganda eleitoral em templos, eventual coação de eleitores e tratamento irregular de dados pessoais sensíveis.

A representação questiona especialmente o “Desafio de Neemias”, campanha criada pela Universal para mobilizar fiéis até o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro. Segundo a associação, a iniciativa utiliza a estrutura religiosa para favorecer candidatos ligados à igreja, incluindo bispos e pastores que disputam vagas no Legislativo.

Entre os pontos questionados está o cadastro dos participantes, que inclui identificação facial e informações sobre o templo, cidade e estado frequentados. A entidade afirma que a associação desses dados biométricos com informações religiosas e preferências políticas pode representar tratamento irregular de dados sensíveis e pede que o caso também seja avaliado pela Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).

Para Leandro Patrício da Silva, diretor-presidente da Associação Movimento Brasil Laico, a estrutura da igreja estaria sendo utilizada para mobilização eleitoral. “O que verificamos é a conversão de uma estrutura monumental de comunicação e organização religiosa em uma máquina de engajamento eleitoral”, afirmou.

A representação também cita declarações de líderes da Universal e conteúdos enviados aos fiéis que, segundo a entidade, relacionariam a campanha religiosa à eleição de candidatos ligados à igreja. O documento pede que as autoridades eleitorais apurem se houve irregularidades e eventual violação à liberdade do voto e ao princípio do Estado laico.

Fonte: ICL notícias