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O professor Gil Kairós, diretor de articulação de políticas públicas da Secretaria de Relações Sociais do Governo do Estado, destacou em entrevista ao portal Piauí Hoje o crescente movimento de jovens que migram das igrejas católicas para as evangélicas. Segundo ele, esse fenômeno reflete uma crise de engajamento e acolhimento na Igreja Católica, aliada a uma sociedade cada vez mais individualista e à ascensão de igrejas que oferecem experiências religiosas mais dinâmicas e personalizadas.
Dados do Censo Demográfico do IBGE (2022) mostram que, enquanto a proporção de católicos no Brasil caiu de 64,6% em 2010 para 49,2% em 2022, o número de evangélicos subiu de 22,2% para 31,8% no mesmo período. Entre os jovens de 18 a 24 anos, essa tendência é ainda mais acentuada, com 35% declarando-se evangélicos e apenas 45% católicos.
Kairós atribui essa migração a fatores como a falta de espaços de acolhimento para jovens nas paróquias católicas e a atração por igrejas evangélicas que utilizam linguagens modernas, como música contemporânea e empreendedorismo religioso. "Se um jovem não se sente acolhido na paróquia ou não encontra referências fortes de testemunho cristão, ele busca outros caminhos", afirmou.
O professor também destacou que a sociedade atual, marcada pelo individualismo e pela busca de soluções imediatas para problemas pessoais, tem influenciado o comportamento religioso. "As igrejas evangélicas, especialmente as pentecostais, oferecem promessas de conquistas pessoais, como aprovação em concursos ou melhoria financeira, o que atrai muitos jovens", explicou.
Essa tendência contrasta com a proposta da Igreja Católica, que enfatiza a vivência comunitária e a transformação social. No entanto, Kairós reconhece que a falta de testemunho profético e missionário por parte de alguns líderes católicos tem contribuído para o distanciamento dos jovens.
Gil Kairós com Luiz Brandão e Marília Lélis no estúdio do portal Piauí Hoje Juventude e organização religiosa
Apesar dos desafios, Kairós ressaltou que a juventude continua sendo protagonista em diversos cenários, incluindo o religioso. Ele citou eventos como a Jornada Mundial da Juventude (2013), que reuniu milhares de jovens católicos no Brasil, como momentos de grande mobilização. No entanto, ele admitiu que a organização juvenil hoje ocorre mais dentro das igrejas, sejam católicas ou evangélicas, do que em movimentos sociais tradicionais.
"Os jovens se organizam principalmente por meio de grupos religiosos, e isso é uma realidade que precisamos compreender e trabalhar", afirmou. Ele também destacou iniciativas como o Conselho da Juventude do Estado do Piauí, que reserva vagas específicas para jovens de organizações religiosas, reconhecendo seu papel na sociedade.
Violência e desemprego
Kairós também relacionou a migração religiosa a questões sociais, como o desemprego e a violência. Segundo o Atlas da Violência (2023), jovens negros e pobres são as principais vítimas de homicídios no Brasil, o que gera medo e insegurança. Além disso, a taxa de desemprego entre jovens de 18 a 24 anos é de 22%, segundo o IBGE, o que os leva a priorizar a busca por trabalho em detrimento da participação religiosa.
A análise de Gil Kairós revela um cenário complexo, em que a Igreja Católica precisa se reinventar para reconquistar os jovens, enquanto as igrejas evangélicas capitalizam a busca por soluções imediatas e experiências religiosas personalizadas. O desafio, segundo ele, é conciliar a tradição católica com as demandas de uma juventude que vive em um mundo em constante transformação.
Luiz Brandão e Marília Lélis entrevistaram Gil Kairós no estúdio do portal Piauí Hoje para falar sobre religião e fé Entrevista
Acesse o link abaixo e assista a entrevista completa com Gil Kairós.