A prevenção e a informação são as ferramentas mais importantes para evitar a mortes de mulheres. A prova disso é que, no Piauí, 80% das mulheres vítimas de feminicídio não tinham registrado boletim de ocorrência contra os agressores. Os dados foram repassados pela secretária estadual da Mulher, Zenaide Lustosa, durante entrevista ao apresentador William Guimarães no podcast Mandando Bem.
No programa, gravado no estúdio do Portal Piauí, ela abordou o conjunto de ações desenvolvidas pelo governo estadual para proteger mulheres em situação de violência e garantir autonomia financeira para que possam romper o ciclo de agressões.
Ela ressalta que o silencio das mulheres que sofrem violência doméstica é um dos maiores desafios enfrentados pelas autoridades. Como fazer com que a mulher chegue até o estado antes que seja tarde. "Muitas vezes ela não denuncia por medo de ser morta, por dependência econômica do agressor, por pressão da família ou porque o ciclo da violência fragiliza sua saúde mental a ponto de ela se sentir culpada", explicou Zenaide.
Zenaide Lustosa e William Guimarães
Por outro lado, os boletins de ocorrência aumentaram 23% em 2025. "As mulheres estão procurando ajuda, e a gente conseguiu chegar junto em várias tentativas de feminicídio durante o carnaval, por exemplo. Salvamos vidas", afirmou. "A gente tem que quebrar o silêncio. Quando você silencia, você silencia a você e a outras mulheres", alerta Zenaide.
A secretária explica que a Secretaria das Mulheres atua de forma transversal com outras pastas. Há parcerias com a secretarias de Saúde, Segurança, Educação e Assistência Social, iniciativa que permite ações nos 224 municípios piauienses.
Uma das ferramentas oferecidas às mulheres para denúncia é o protocolo "Mermã, não se cale", criado em março de 2023, que apresenta bons resultados. Por meio de um canal no WhatsApp (86 7000-1673), que funciona 24 horas em todo o estado. A central de acolhimento conta com psicólogas e assistentes sociais, que fazem a ponte com o Copom (190) da Polícia Militar em casos de emergência. “Os serviços integrados garantem agilidade no atendimento”, ressaltou Zenaide.
Outra vertente do protocolo é a qualificação de profissionais de bares e restaurantes, que recebem treinamento para identificar e acolher mulheres em situação de violência. Os estabelecimentos que participam da capacitação recebem o selo Mulher Segura. "A gente sabe que a bebida potencializa a violência, mas o que mata mesmo é o machismo estruturado na nossa cultura", ressaltou a secretária.
Protocolo "Mermã, não se cale", criado em março de 2023, apresenta bons resultados
Ela observa que a dependência econômica é um dos fatores que mantém a mulher no ciclo da violência. “Muitas vezes ela não denuncia porque depende financeiramente do agressor. Por isso, a secretaria firmou parcerias com empresas privadas para qualificar e empregar essas mulheres em áreas como gastronomia, tecnologia da informação, corte e costura e biojoias”.
Zenaide chama a atenção para a importância de engajar toda a sociedade na defesa das mulheres. Umas das iniciativas realizadas com esse objetivo foi a corrida contra o feminicídio. Criada há quatro anos, é realizada no dia 27 de maio em alusão ao estupro coletivo ocorrido em Castelo do Piauí, e já se tornou uma das maiores do estado. Em 2025, as 5 mil vagas se esgotaram em duas horas, e mais de 10 mil pessoas participaram do evento.
"A primeira corrida foi emocionante e hoje, toda Teresina fica toda lilás", comemorou Zenaide. O evento conta ainda com feira de produtos da agricultura familiar e pequenas empreendedoras, além de serviços de saúde. A edição de 2026 está marcada para o dia 31 de maio.
Serviços que salvam vidas
Dentro da Secretaria de Segurança, a Patrulha Maria da Penha tem papel central no monitoramento das medidas protetivas. Em 2025, 1.300 mulheres foram acompanhadas pelo programa, e nenhuma delas foi vítima de feminicídio. "Isso mostra a importância do acompanhamento próximo", comemorou a gestora.
Corrida Lilás mobiliza população contra o feminicídio
Em Teresina, a Casa da Mulher Brasileira reúne em um só local segurança, Ministério Público, Tribunal de Justiça, Defensoria Pública e atendimento psicossocial. A gestão é compartilhada com a prefeitura, e a ideia é que a mulher não precise percorrer diversos órgãos para ter acesso à rede de proteção.
Além do acolhimento, a Casa passou a oferecer qualificação profissional e inserção no mercado de trabalho. O programa "Minha irmã" é um dos carros-chefes dessa política. Por meio de uma cooperação técnica com o governo federal, 8% dos contratos federais no Piauí são destinados a mulheres em situação de violência, com prioridade para mulheres negras, trans e travestis. Nos contratos estaduais, o percentual é de 5%.
Canais de ajuda
- WhatsApp: (86) 7000-1673 (funciona 24 horas)
- Disque 190 (Polícia Militar)
- Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher)
A entrevista completa estará disponível no próximo dia, 05, no canal do Portal Piauí Hoje no Youtube.
Fonte: Podcast
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