Economia

AFROEMPREENDEDORISMO

Empreendedoras piauienses transformam dores pessoais em negócios que fortalecem mulheres

As trajetórias reais da empreendedora Brenda Mendes e da trancista Raissa Maria que enfrentaram preconceitos e criaram negócios de sucesso

Natalia Costa

07 de junho de 2026 às 22:00 ▪ Atualizado há 1 hora


Empreendedora Brenda Mendes e da trancista Raissa Maria | Foto: Instagram/@_raissamaria e Instagram/@brendamendes_filhadamaria
Empreendedora Brenda Mendes e da trancista Raissa Maria | Foto: Instagram/@_raissamaria e Instagram/@brendamendes_filhadamaria

Existe um fato médico que diz que as mulheres possuem maior tolerância à dor, e pesquisas científicas já confirmam o que o senso comum tratava como mito. Além de serem mais fortes, as mulheres são capazes de ressignificar a própria dor e transformá-la em atos de bondade para curar as dores de outras pessoas. As trajetórias reais da empreendedora Brenda Mendes e da trancista Raissa Maria são a prova viva desse poder de transformação.

A Brenda Mendes transformou a dor do racismo e do bullying sofridos na adolescência, que quase a deixou careca, em um produto que faz o cabelo crescer. A iniciativa transformou-se em uma empresa que, hoje, ajuda outras mulheres e homens que sofrem com queda de cabelo.

Brenda Mendes | Instagram/brendamendes_filhadamaria

Na adolescência, sofri com uma queda de cabelo severa. Eu estudava em uma escola onde as pessoas eram muito preconceituosas, e sofria muito racismo e bullying. Isso acabou me gerando depressão e um quadro de ansiedade que resultou em uma queda de cabelo emocional. Fiquei praticamente careca e, a partir daí, comecei a pesquisar alternativas para recuperar o meu cabelo. Passei a ler artigos científicos, textos e a participar de grupos no Orkut e acabei desenvolvendo um produto que curou a minha queda de cabelo.

A Raissa Maria, uma mulher negra de cabelos crespos, foi ensinada pela 'ditadura da beleza' que cabelo bonito era apenas o liso. Ela alisou tanto os fios que sofreu um corte químico, e as tranças foram a salvação para resgatar a sua identidade e valorizar suas raízes. Hoje, ela tem um salão de beleza e ajuda outras mulheres negras a enfrentarem o processo de transição capilar de forma mais leve.

Raissa Maria | Foto: Instagram/@_raissamaria

Na minha época de escola, o padrão de beleza exigido era o cabelo liso. Para tentar me manter nesse padrão, passei anos alisando o meu cabelo. Depois de sofrer um corte químico e quase acabar com os meus fios, entrei na universidade. Lá, descobri um novo mundo e comecei a entender o meu lugar e a me pertencer. Eu sou uma mulher negra. Mas quando criança, eu olhava em volta e via apenas mulheres brancas de cabelo liso sendo apontadas como o único padrão. Eu não conseguia me identificar. Hoje, uso toda essa vivência para acolher as minhas clientes, principalmente as que me procuram no momento em que estão passando pelo doloroso, mas libertador, processo de transição capilar.

Essas histórias dolorosas e que se tornaram casos de sucesso, são semelhantes às de muitas mulheres negras que empreendem por necessidade, e não por oportunidade. É aí que a dor se encontra com a economia e movimenta trilhões de reais no Brasil

Uma pesquisa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) mostra que as mulheres empreendedoras negras já somam 5,08 milhões em 2025 e movimentam quase R$ 2 trilhões por ano na economia do país. Os dados comprovam que a mulher negra não é apenas uma "vítima sofrida" é um pilar da economia nacional. 

Única brasileira a palestrar no evento do Prêmio Nobel da Paz

O óleo capilar Filha da Maria é o produto que curou a queda de cabelo da empreendedora Brenda Mendes e a levou até o evento do Prêmio Nobel em 2024. Foi a partir dessa fórmula especial que surgiu a empresa Filha da Maria Terapia Capilar, uma marca dedicada exclusivamente ao cuidado e tratamento de cabelos crespos, cacheados, ondulados e em transição capilar. 

“Eu comecei de uma maneira completamente artesanal, na cozinha da minha avó. Não iria adiantar ter essa formulação apenas para mim e não fazer nada. Eu consegui, de fato, organizar tudo isso que eu senti e construir uma coisa que me trouxe frutos, mas que também mostrou para outras pessoas que era possível vencer, que era possível fazer a diferença e ressignificar a sua dor e sua própria história”, afirma.
Oleo capilar Filha da Maria | Foto: Instagram/@filhadamariaterapiacapilar

Conversando com outras mulheres, a empreendedora percebeu que a sua dor se refletia na realidade de muitas pessoas de cabelos crespos. Um dos maiores gargalos do mercado era a escassez de produtos específicos para o cuidado desses fios, e foi diante dessa lacuna que ela teve a ideia de comercializar o óleo.

“O produto tem como base a Medicina Ayurvédica, a medicina tradicional da Índia, que visa o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Ele é composto por ervas indianas, além de hibisco e alecrim, ativos que estimulam o crescimento dos fios e possuem ação reparadora e nutritiva para a fibra capilar. O óleo auxilia na reparação, traz nutrição e faz com que o cabelo cresça de maneira saudável. O crescimento capilar depende tanto da saúde da raiz quanto do cuidado com as pontas”, explica.

A marca já conta com 35 produtos na linha de autocuidado e profissional. São óleos, creme e gel capilar, shampoo e condicionador em barra. Na formulação são usados ingredientes da flora nordestina e amazônica como o Cupuaçu, Bacuri e Buriti. Os produtos podem ser adquiridos por meio da loja na Shopee. Clique aqui e acesse

Marca já conta com 35 produtos na linha de autocuidado e profissional | Foto: Instagram/@filhadamariaterapiacapilar
“Os produtos fornecem resultados a curto e longo prazo. O cliente vê rapidamente a melhora e isso garante uma boa taxa de recompra, porque o cliente usa, sabe que funciona, e mantém os produtos na sua rotina capilar”, avalia Brenda Mendes.

Nas redes sociais a empreendedora compartilha os resultados alcançados pelas clientes com o uso do óleo capilar Filha da Maria. Essa cliente da foto usou o produto durante 1 mês e teve um bom crescimento dos fios.

 Resultados alcançados pelas clientes com o uso do óleo capilar Filha da Maria | Foto: Instagram/@filhadamariaterapiacapilar

A empreendedora foi a única brasileira convidada a palestrar no 19º Summit Mundial dos Laureados do Prêmio Nobel da Paz, realizado no México. O convite veio após a participação de Brenda em diversos eventos, programas e concursos, tanto no Brasil quanto no exterior. Ela aprendeu a falar inglês sozinha e trilhou um caminho de persistência até alcançar visibilidade em um dos palcos mais prestigiados do mundo

Brenda Mendes no 19º Summit Mundial dos Laureados do Prêmio Nobel da Paz | Instagram/brendamendes_filhadamaria

Eu vejo muito como uma certa teimosia minha de não desistir de mim, porque para eu ser selecionada já tinha participado de vários programas, tinha ido para fora do país. Aprendi a falar inglês por conta própria, com muita persistência, falava inglês sozinha dentro de casa, minha família achava que eu estava doida. O caminho foi se abrindo, mas até eu chegar lá, no Prêmio Nobel, não foi uma jornada fácil.

E essa ‘teimosia’ continua viva na busca constante pelo crescimento empresarial e pela captação de novos clientes.

Tranças devolve autoestima e conexão com raízes negras

A empreendedora Raissa Maria começou a trabalhar com tranças em 2021, ainda durante a pandemia da Covid-19. Além de comandar o próprio negócio, ela concilia a rotina com o mestrado em Ciências Ambientais na Universidade Federal do Piauí (UFPI). As primeiras tranças foram feitas em suas primas, cobrando apenas o valor do material utilizado.

“Através dos cursos, eu me conectei com a minha ancestralidade. Compreendi a questão histórica, como surgiram as tranças e as dificuldades enfrentadas, principalmente na época da escravidão, quando os quilombolas as utilizavam como mapas de fuga. No início, eu chamava minhas primas e cobrava um valor bem simbólico apenas para conseguir aperfeiçoar minha técnica”, conta.
Trancista Raissa Maria atendendo cliente | Foto: Arquivo pessoal

O que hoje é sua profissão começou despretensiosamente, a partir do desejo de trançar o próprio cabelo, após a transição capilar. Atualmente, consolidada como Microempreendedora Individual (MEI), a trancista tem o seu próprio salão e atende de 10 a 20 clientes por mês. O trabalho exige um esforço físico grande, o atendimento de apenas uma cliente pode demorar de 8 a 10 horas para ser concluído, demandando da profissional todo esse tempo de pé. 

“Eu tenho o meu espacinho na minha casa e consigo ter boa parte da renda através dele. Me traz uma satisfação porque eu posso trabalhar no meu próprio horário e conseguir organizar minha vida de forma mais livre. Apesar de passar horas em pé trabalhando, tudo ali é uma satisfação imensa para mim”, diz a trancista.
Trancista Raissa Maria atendendo cliente | Foto: Arquivo pessoal

As tranças não são apenas um penteado, proporcionam autoestima, praticidade, sentimento de pertencimento e conexão com as raízes negras. Segundo a empreendedora, é a valorização da própria história e da identidade de homens e mulheres negros. Mas ainda existe um imenso preconceito e estereótipos associados a esse estilo de cabelo, que muitas vezes é ligado a mau cheiro e criminalidade.

“São aqueles conceitos errôneos de que trança não precisa lavar, que trança fede. Tem o preconceito social de que quem usa trança é uma pessoa que tem má índole, que é uma pessoa que é bandida”, diz.
Trancista Raissa Maria atendendo cliente | Foto: Arquivo pessoal

Foi através das tranças que a empreendedora se reconheceu no mundo como uma mulher negra. Ela replica essa transformação em suas clientes, já que muitas buscam o salão por estarem passando pelo processo de transição capilar. O estúdio se torna um espaço de apoio e acolhimento, a recompensa vem na forma de afeto e agradecimento. 

Nós acabamos nos tornando um pouco psicólogas de cada cliente. O salão é um espaço de apoio para explicar que a transição capilar pode ser demorada, mas não precisa ser dolorosa. As tranças estão no nosso sangue, fazem parte da nossa cultura. Para mim, a grande meta é devolver a autoestima. A maior recompensa é quando uma cliente conclui o processo, olha para mim e diz: ‘Você fez parte desse momento’. Saber que ajudei alguém a passar por essa fase sem sofrimento é o que me traz extrema gratidão.

A meta é continuar espalhando em dobro consciencia racial, apoio e acolhimento aos clientes.

Afroempreendedoras avançam no mercado e desafiam desigualdades históricas

Em 2024, as mulheres afroempreendedoras registraram um crescimento histórico em suas rendas. Segundo um levantamento do Sebrae realizado a partir da PNAD Contínua, o rendimento médio dessas empresárias foi 30% maior do que o registrado em 2012.

Apesar do avanço, as desigualdades raciais persistem e continuam impactando diretamente o trabalho das mulheres negras no mercado. Elas ainda possuem um rendimento 47% menor do que o das empreendedoras brancas e 61% inferior ao de homens brancos.

Os indicadores confirmam que o racismo estrutural segue operando como uma engrenagem que gera desigualdades e limita o pleno desenvolvimento econômico de mulheres negras.

“O Brasil possui a maior população negra fora do continente africano, o que representa um potencial de mercado gigantesco. No entanto, quando analisamos o cenário, nos deparamos com uma série de desafios que se constituem como barreiras para a consolidação e o avanço do empreendedorismo negro. E esses obstáculos passam, por exemplo, pela própria consciência da população negra em definir um perfil de consumo, em uma atitude no sentido de apoiar, ajudar e valorizar o empreendedorismo negro”, explica o professor de Economia da UFPI, Sebastião Carlos

Segundo o especialista o problema também esbarra na fragilidade da autodeclaração e da consciência racial no Brasil, embora tenha melhorado nos últimos anos, ainda falta o orgulho de se reconhecer como negro, e não com termos historicamente ultrapassados, como pardo ou mulato. O país ainda abriga uma parcela da população com traços negros que não se reconhece, consequentemente, não busca consumir produtos com foco em sua própria identidade, o que acaba diminuindo o potencial de mercado do afroempreendedorismo

“Segundo aspecto está relacionado a oportunidades. Ainda não existe políticas públicas específicas que possa se constituir um suporte para empreendedores negros para entrar no mercado. Não existe uma linha de crédito, e nem cursos específicos para população negra, por exemplo marketing de população negra”, esclarece.

Na tentativa de diminuir essas desigualdades e barreiras, o Programa Sebrae Plural, amplia o acesso de grupos historicamente sub-representados a oportunidade de empreender, como os negros.

De acordo com Marianne de Sousa, analista do Sebrae no Piauí, o programa atua na intersecção entre raça, gênero e território. No estado, o projeto funciona junto ao programa Sebrae Delas, com em mulheres negras, quilombolas, mães atípicas e egressas do sistema prisional.

Marianne de Sousa, analista do Sebrae no Piauí | Foto: Ascom Sebrae-PI
"O objetivo é promover a inclusão produtiva e a valorização das identidades locais, garantindo que o conhecimento em finanças, marketing e posicionamento de mercado chegue a quem mais enfrenta obstáculos para empreender", explica a analista.

Um dos grandes pilares do programa no Piauí é a descentralização. Em vez de concentrar as oportunidades na capital, as ações utilizam as unidades regionais e as Salas do Empreendedor para alcançar os territórios mais distantes dos grandes centros.

Desde 2023, o Sebrae no Piauí já atendeu mais de 14.500 mulheres através de capacitações, mentorias e consultorias gerenciais. Na região de Picos, o programa desenvolve um trabalho focado no fortalecimento de comunidades de mulheres quilombolas, transformando saberes tradicionais, gastronomia, artesanato e estética em ativos econômicos sustentáveis.

“O Sebrae Delas atende mulheres negras e quilombolas empreendedoras de diferentes segmentos, incluindo beleza, estética, moda, autocuidado, alimentação, artesanato, comércio e serviços. Oferecemos capacitações, oficinas, palestras, consultorias, mentorias, eventos e trilhas de desenvolvimento empresarial”, afirma a analista.

A união da resistência histórica de mulheres negras, como Brenda e Raissa, com  políticas públicas e incentivos, pode fazer o Piauí começar a desenhar um novo capítulo econômico. Um capítulo onde o afroempreendedorismo deixa de ser uma estratégia de mera sobrevivência para se consolidar, definitivamente, como um dos motores mais potentes da riqueza e da identidade do estado.

Fonte: Piauí Hoje



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