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Rosendo e Campos: saudades de sua terra

Carneiro Campos casou com sua quase conterrânea, Zilda Ferreira de Almeida


Banda

Banda Foto: Divulgação

Vieram ainda jovens fazer a vida em Teresina. Fizeram. E encontraram um jeito muito singular de cultivar a saudade de sua terra de origem: “Saudade da minha terra”! Dobrada lembrança da terra em que se nasce, uma paixão brasileira genuína.

Contemos algo da história de Rosendo e Campos.

Rosendo Soares de Almeida, cidadão comum, cedo buscou e soube alcançar um rumo na vida. Nasceu em Passagem Franca, Estado do Maranhão, filho de um lavrador-professor rural, assim, relativamente cedo, alcançou a alfabetização primária. Da zona rural deslocou-se para a sede do município, com melhores oportunidades, aprendendo uma arte comum nesse tempo, de alfaiate. Casou-se com a filha de uma família com destacada inserção na vida econômica e política local, Aniceta Saraiva, conhecida de seus familiares e conterrâneos como Nicinha, que com ele formou um par centrado em ter muitos filhos, bem criá-los, significando isso, o caminho da Educação. Entre os vinte e trinta anos de idade, veio para Teresina, aqui ingressando nos quadros do Polícia Militar do Piauí. E foi parar nas fileiras prazerosas da Banda de Música.

Raimundo Carneiro Campos nasceu, idem, em Passagem Franca, em 1913, numa família de pequenos criadores e lavradores. Sua mãe, Francisca Carneiro, e o pai, Miguel Campos. Veio para Teresina em 1927 e antes de completar 18 anos ingressou na Polícia “como soldado da cavalaria que existia na época”, anotou seu filho Claudomir Campos de Almeida. Fez carreira. E no “decorrer dos tempos passou a servir na Banda de Música, servindo àquela corporação até o tempo suficiente para se reformar, galgando as promoções até a última que lhe era de direito, entrando para a reserva remunerada com o posto de subtenente, dia 09.11.1951” – um terceiro, Jose Francisco Araújo, primo de Campos, também veio e seguiu para mais longe.

Carneiro Campos casou com sua quase conterrânea, Zilda Ferreira de Almeida, da Novolinda, município de Matões, depois Parnarama. Tiveram o único filho, referido memorialista Claudomir Campos. Já amigos desde a terra natal, Rosendo e Raimundo inscreveram um trajeto nada incomum na vida de seus conterrâneos: mudar para a capital do Piauí e galgar novos e auspiciosos horizontes, afinal, já quando fundada Teresina, Passagem Franca é parte de seu entorno metropolitano alargado.

Algo caracterizou a vida deles: a sólida amizade pessoal, além do elo corporativo profissional que os unia. Solidez – testemunhei – amalgamada em profundo e irrenunciável apego às pessoas e à terra de sua nascença comum.

Um registro que os engrandeceu nessa relação, mais que telúrica: durante três décadas, com quase nenhuma intermitência, foram eles os encarregados de levar uma boa formação da Banda de Música da PMPI para animar os Festejos de São Sebastião, padroeiro de seu lugar natal, já, em si, pleno de muitas tradições. A “orquestra da festa”, a cada ano muito esperada, um evento à parte.

Imaginam o estado do coração de Campos e Rosendo chegando em sua terra com uma orquestra famosa tocando o antigamente muito querido dobrado, dito, “Saudade da Minha da Terra”!?  E o dobrado “Eterna saudade”? Rosendo e Campos, com sua Banda subindo em direção ao Largo da Matriz para a Alvorada e as retretas janeirinas...?

Sem dúvidas, as orquestras de trompas e tímpanos, caixas, surdos e taróis, são algo muito encantador nas amenidades brasileiras dos rincões acidadados dos últimos 150 anos, caso de Passagem Franca, burgo querido de Rosendo e Campos – que, aliás, como quase todas as cidades de sua idade comunitária, infelizmente, nunca teve a sua orquestra. Bem que eles lutaram por isso, e até se colocaram à disposição para o feito, mas a liderança social e política local nunca abraçou a ideia.

O repertório orquestral, a marcialidade adoçada nos enlevos de nossa – sou conterrâneo deles – terra comum em quermesse, são lembranças que os sopros do tempo ressoam, em dobro, em nossos tímpanos, com os dobres sineiros da Matriz, e tantos dobrados levados pelos dois filhos insignes da Passagem. Dobrem, em dobro, o “Batista de Melo”, “Dois Corações”, “Coração de Mãe”. Salve!

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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