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Dirceu

Dirceu Arcoverde – esperança interrompida é o título do livro, que exibe 316 páginas, ilustrações fotográficas, capa do grande Paulo Moura. Bienal Editora.


Dirceu Mendes Arcoverde

Dirceu Mendes Arcoverde Foto: Divulgação

Dirceu

Um livro biográfico sobre a figura do médico Dirceu Mendes Arcoverde começa a circular. Vem com a assinatura de Zózimo Tavares Mendes –e o acontecimento editorial nada tem a ver, terem, ambos, a partícula sobrenominativa Mendes. 

Professor Tavares Mendes, jornalista, vai avolumando sua coleção de títulos biográficos e algumas figuras do mundo da política são seu alvo – o livro que escreveu sobre Zé da Prata é uma exceção honrosa. Líderes políticos estão na sua predileção escritória porque figuram e se movem no mesmo espaço de realização da atividade jornalística do autor, empenhada nas questões do Poder.

Dirceu Arcoverde – esperança interrompida é o título do livro, que exibe 316 páginas, ilustrações fotográficas, capa do grande Paulo Moura. Bienal Editora.

Considero relevante essa publicação. Primeiro de tudo porque contribui na composição do quadro de textos necessários que servem bastante ao referenciamento memorial-historiográfico do Piauí recente. Também pela pessoa do biografado, um ex-governador do Piauí rapidamente esquecido, a despeito de ser um mandatário apetrechado de qualidades incomuns em agentes da espécie.

Quem sabe se não é por essa razão, além da vicissitude do silêncio mortal relativamente antecipado, um fator do referido esquecimento.

Dirceu é personagem do nosso – meu – tempo. Num comentário destes falamos também em sede testemunhal. Vamos lá.

Conheci uma pessoa, amiga pessoal de Dirceu – uma professora do Ensino Médio –, que me disse mais de uma vez ser ele figura impoluta e que não sabia como se metera com a Secretaria de Saúde, isto é, coisa da política. E foi essa amiga dele que comentou um dia comigo, antes muito da Imprensa tocar no assunto, que seria o nomeado governador.

O que a amiga de Dirceu me disse calou fundo e se fixou quando comecei a ver o governador, todo sábado, flanando pelas ruas do centro de Teresina, sobretudo na praça Rio Branco, algo comum, jogando conversa fora, sem trair nenhum trejeito de demagogos contumazes. Sem puxas-saco ou contestadores. Absolutamente um homem comum. Talvez não tão comum pelo hábito da sapatilha de médico.

A biografia de Zózimo opera na linha de outro registro memorial-biográfico – e administrativo do quatriênio arcovista – feito em cima dos fatos pelo jornalista e advogado Jose Lopes dos Santos, sabidamente um dos mais diletos colaboradores do governo estadual naquele tempo. Tavares Mendes tem a vantagem dos acúmulos eventualmente agregados na respectiva construção memorial.

Livro detalhado, sem rebuscamentos, preocupado em escrutinar tudo o que o radar dos 54 anos de Dirceu oferece em matéria biografável.

Assinala o desígnio de seu nascimento em Amarante – seu pai um “de fora” do lugar achegado a um irmão advogado que então abecara os encantos e favorecimentos de uma quase menina viúva, sua cliente. Mas o grosso da matéria do livro é a figura do chefe político, governador e senador.

Volto à questão: por que o esquecimento de Dirceu? Arrisco dizer que isso se deve à sua atuação como agente público vinculado a Alberto Silva: o protagonismo inicial e o obscurecimento seguinte. Alberto trouxe Dirceu ao estrelato da cena político-administrativa e também foi o fator mais gritante da produção do esquecimento sobre seu sucessor, e, logo, ferrenho adversário. O jogo albertista sempre foi politicamente bruto. Dirceu – o que revela sua exação humana –, a leveza da pluma no choque dos rochedos.   

Existe em circulação um livro instrutivo sobre Alberto e suas formas de durar na memória e história do Piauí, tese doutoral da professora Cláudia Fontineles. Da leitura desse livro, em chave de contraponto, podemos inferir a “produção” do esquecimento de Dirceu. Ora, o que se diz de Alberto sobre o volume das obras físicas de seu governo, expressivo, o período de Dirceu mostrou ainda mais obras e, no conjunto, mais socialmente relevantes que as de Alberto. Inclusive algo que poucos fazem: concluir obra de antecessor e enterrar cano d’água.

No imaginário coletivo, porém, o que “dura” até hoje é uma certa mítica sobre Alberto – o próprio Zózimo se debruça biograficamente sobre tal herança. De Dirceu, continua se falando mais da Marília. É como se os dois governadores não fossem, ambos, igualados pela régua da Ditadura, politicamente jogando com as facções da secular oligarquia piauiense.

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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