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Ser mulher aqui é sobreviver: 1º do Nordeste em feminicídio, 3º do Brasil. Até quando?

Quinta - 01/01/2026 às 10:10



Foto: Joédson Alves/Agência Brasil Imagem ilustrativa/Feminicídio
Imagem ilustrativa/Feminicídio

Yasmin Lyra Sousa

Você levanta — com dor, com verdade, com urgência — a pergunta que deveria envergonhar este país: até quando? Até quando ser mulher no Brasil — ou no Nordeste, ou no Piauí — será sinônimo de viver com medo, de negociar vida e liberdade, de enfrentar estatísticas como um destino inapelável? Hoje este texto não pede licença: ele exige, grita, acusa. Escrevo com o peso desse grito coletivo e com o teórico ferramental do feminismo decolonial e antirracista. Digo sem rodeios: o que nos espera se não rasgarmos o véu da hipocrisia e enfrentarmos de uma vez por todo o machismo, o racismo e a colonialidade que ceifam vidas de mulheres todos os dias?

Os números, frios e afins, têm um poder de choque — porque transformam vidas em contagem. Em 2024, o país registrou um número que deveria incendiar consciências e políticas públicas: entre 1.400 e 1.500 mulheres foram mortas por sua condição de gênero naquele ano, uma mídia que ronda quatro mortes por dia e que representa o registro desde que o feminicídio foi tipificado como crime. Esses números, compilados por anuários e por levantamentos jornalísticos, não são estatísticas estimadas: são mães, irmãs, filhas, trabalhadoras, estudantes, amigas.

o Piauí — território em que nasci e que conheço na pele e nas notícias — o cenário é ainda mais cruel quando olhamos para as trajetórias: em comparação entre 2023 e 2024 houve um salto que traduz aumento percentual e aprofundamento da vulnerabilidade. O estado registrado, segundos boletins oficiais e reportagens, um crescimento expressivo nos casos de feminicídio, com uma série de indicadores que apontam para falhas nas redes de proteção: em média, pouquíssimas vítimas tinham medidas protetivas ativas antes do assassinato; Foram capturados boletins de ocorrência; a maioria dos crimes ocorreu dentro de suas próprias casas; e, quase sempre, o agressor era parceiro ou ex-parceiro. Esses elementos — proteção insuficiente, subnotificação, violência doméstica no lar, vínculo afetivo com o agressor — compõem um padrão que transforma a intimidação em armadilha mortal.

Quando dizemos que 10% das vítimas possuíam medidas de proteção, que 13% receberam boletim de ocorrência registrado e que 73% dos assassinatos ocorreram dentro da residência, não falamos apenas de números: conversamos de um Estado que promete juridicamente proteção mas fragiliza materialmente a vida. Falamos de políticas públicas que parecem existir para alegria a consciência pública enquanto mantêm buracos estruturais que alimentam a tragédia. Falamos de um país onde denunciar, em muitos contextos, é apostar a própria vida — e onde quem tem menos recursos, menos rede, menos voz, é quem paga a conta final.

Essa conta se torna maior, mais pesada, quando cruzamos raça e classe. A maioria das vítimas no Brasil são mulheres negras e entre as idades reprodutivas — um dado que revela a interseção fatal entre racismo e misoginia: o racismo estrutural multiplica a exposição à violência e reduz o acesso a meios eficazes de proteção. A história colonial, o racismo institucionalizado, a precariedade econômica e a invisibilidade social convergem para fazer de corpos pretos de mulheres alvos preferenciais. Esse padrão não é coincidente: é sintoma de um país que ainda não aprendeu a mensurar valor humano fora da caixa do privilégio.

Se formos olhar para a face oculta desses números, descobriremos ainda algo pior: a subnotificação. Estudos e investigações apontam para percentuais elevados de violência que nunca chegam às estatísticas oficiais por diferentes razões — medo, dependência econômica, descrença nas instituições, normalização da violência ao longo de vidas, vergonha, ameaças, falta de informação sobre direitos e procedimentos. Um levantamento legislativo e estudos acadêmicos indicaram índices de subnotificação superiores a cinquenta por cento em várias regiões, um espelho que dobra a crueldade dos números: o que aparece nas planilhas é apenas a ponta visível de um iceberg sangrento.

Diante desse quadro, há duas vias que insistem em se apresentar: a da resignação e a da transformação. A resignação é confortável para quem observa à distância; a transformação é exigente, porque implica mexer no centro do poder — as instituições, a cultura, o currículo, as políticas públicas, a economia afetiva das famílias e dos territórios. E é aqui que o pensamento decolonial e o feminismo negro são ferramentas que não permitem consensos simples: Lélia Gonzalez nos lembra que o feminismo que não leva em conta a amefricanidade, a história da colonização e o entrelaçamento entre raça, classe e gênero, corre o risco de ser um discurso de savasana — bonito nos enunciados, inofensivo nas práticas. Ivone Gebara propõe que repensemos nossa gramática ética: como tratamos o cuidado, o corpo, a vulnerabilidade, o luto e a responsabilidade coletiva? Essas autoras e muitas outras propostas de que a luta contra o feminicídio não pode ser apenas penal, simbólica ou circunscrita ao judiciário — deve ser material, econômica, pedagógica e enraizada em recursos históricos. (Referências bibliográficas ao fim.)

Não esperaríamos heroísmo cívico apenas das vítimas; esperamos enfrentamento do Estado, do aparelho policial, do sistema de justiça e da rede de serviços. Em muitos dos casos documentados no Piauí e em outros estados, o que encontramos são medidas protetivas decretadas posteriormente, delegacias sem perspectiva de especialização, oferta insuficiente de acolhimento, pouca integração entre rede social e judiciária, ausência de políticas de autonomia econômica para as mulheres mais vulneráveis. O resultado é previsível: a medida protetiva, sem garantia de fiscalização e sem condições reais de implementação (moradia segura, renda, acompanhamento psicológico e jurídico), torna-se letra morta. O processo vira formalidade; a vida segue exposta.

Permitam-me ser direto: leis sem aplicação concreta e políticas sem investimento real são um insulto às famílias que choram. A Lei Maria da Penha e outros instrumentos jurídicos são avanços necessários, mas não suficientes. Eles nascem de combate e de dor, mas dependem de melhorias para valer. Quem perde tempo legislando banalidades enquanto mulheres morrem em casa, mortas por quem lhes prometeu amor, trai o sentido profundo dessas normas. A justiça que não protege antes de punir é impotente. A proteção precisa ser preventiva, material, imediata. E o que dizer do papel cultural? Cada vez que um boletim policial é tratado como “assuntos privados”, cada vez que uma morte é naturalizada como “crime passional”, cada vez que se relativiza a agressão com frases como “era ciúme”, legitima-se um mecanismo que autoriza assassinatos. O discurso que minimiza, explica ou relativiza o crime de gênero alimenta o perigo — porque educação e linguagem são terreno onde as violências germinam. precisamos, sem hesitar, de educação decolonial nas escolas que tratam de masculinidades, de cuidado mútuo, de consentimento e de racismo; Precisamos formar agentes sociais que identifiquem riscos e saibam intervir de modo seguro.

 Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a luta contra o feminicídio é uma luta material — e, nesse campo, a autonomia econômica é estratégica. Mulheres economicamente dependentes têm menos opções: denunciar, sair, reconstruir uma vida. A oferta de políticas de renda mínima, qualificação profissional, creches públicas de qualidade, habitação de proteção e acesso a justiça eficaz reduz o custo de deixar relações abusivas. A desigualdade social alimenta a violência de gênero: a redução também reduz a probabilidade de mortes. É política pública preventiva transformar a dependência em possibilidade.

Quero trazer um dado concreto e cortante: o padrão de violência que converte o lar em cena do crime é uma tragédia que se repete com variações — quase sempre o agressor é parceiro ou ex-parceiro. Essa é uma evidência que exige resposta específica: monitoramento de agressores, programas de desenvolvimento de reincidência, medidas de controle com tecnologia quando necessário, e atenção às múltiplas camadas que elevam o risco. O contato com o agressor, a minimização das medidas protetivas por fatores processuais, a revitimização no acompanhamento policial e judicial — tudo isso compõe uma cadeia que facilita o pior desfecho. Mais do que punir, é urgente impedir.

O caso recente que comoveu o Piauí — entre tantos outros — é brutal por sua juventude e por sua crueldade. Casos de adolescentes e jovens assassinados, grávidas ou não, mostram que a violência não poupa geração; ela se renova e nos interpela. São corpos jovens ceifados em espaços que deveriam ser de proteção comunitária. Eles revelam lacunas de redes familiares e sociais, de vigilância comunitária e de políticas públicas integradas. Cada caso é um poema interrompido; cada nome, uma falha do Estado que insiste em prometer.

Mas há quem resista: as mulheres, os coletivos feministas, as redes de proteção locais, as defesas públicas, as ONGs, os movimentos negros e populares — todos e todos que, dia após dia, mantêm acolhimento, memória e denúncia. São essas redes, muitas vezes invisíveis e periféricas, que nascem iniciativas de ponta: acolhimento emergencial, casas de passagem, apoio psicológico gratuito, redes de ambiente, projetos educativos nas escolas. São elos que seguram vidas na beira do abismo. Contudo, manter esses elos apenas com filantropia e ativismo solidário é pedir demais à sociedade civil; é função do Estado estruturar e financiar essas redes.

Aqui cabe uma cobrança frontal: quem governa tem obrigações de garantir vidas. A retórica de responsabilidade compartilhada não pode ser desculpa por omissão. É intolerável que se gaste com pouca efetividade e se corte verbalmente de programas sociais que aumentem a autonomia feminina. É intolerável que a resposta seja um espetáculo midiático e não uma política de proteção continuada. Cobrar e fiscalizar é papel de cidadãos e cidadãos — mas também de pesquisadores, jornalistas, universidades e coletivos que insistem em transformar a morte em memória ativa e em políticas públicas.

Para além das políticas e das ameaças, há algo que o feminismo decolonial nos ensina em termos estratégicos: a necessidade de centrar as vozes marginalizadas. Não há política eficaz que ignore gênero racializado, cor, classe e território. Um programa que funciona em bairros nobres não é transferido automaticamente para periferias e zonas rurais. É necessário que as ações sejam planejadas com a participação das mulheres negras, dos indígenas, das ribeirinhas, dos quilombolas e das trabalhadoras rurais; é fundamental que as medidas sejam sensíveis às diferenças. A universalidade sem especificidade não protegida — ela apaga.

A dor também pede justiça simbólica: contar nomes, preservar memoriais, produzir estatísticas com recorte racial e territorial, responsabilizar instituições por falhas e punir omissões. Mas, acima de tudo, exige uma economia do cuidado que restitua o protagonismo às mulheres e às suas comunidades. Não é transporte público ou bolsa eventual que, isoladamente, salvará vidas; mas uma política pública integral, que combina segurança, educação, saúde mental, assistência social e economia solidária, pode reduzir a probabilidade de tragédia.

Há quem negue a magnitude do problema ou prefere tratar os feminicídios como exceção. Essa negação é ao mesmo tempo cruel e conveniente: ela oculta a responsabilidade política e impede mudanças profundas. Não se trata de histeria moral; trata-se de medir e intervir de modo sério e urgente. De olhar para as estatísticas como prescrição de políticas — e não como números para anestesia ou indignação.

Termino com um chamado que é também uma ordem: não mais sobreviver . Ser mulher no Piauí, no Nordeste, no Brasil não pode ser reduzida a um regime de sobrevivência. Precisamos transformar o luto em projeto de Estado — um projeto que tenha nome, orçamento, cronograma e metas. Precisamos de políticas públicas com recortes raciais e territoriais, de educação que forma para a igualdade, de economia que sustente autonomia, de justiça que previna e acompanhe com sensibilidade e rapidez. Precisamos de um feminismo que não se contente em discursar, mas que construa alianças reais entre movimentos sociais, instâncias públicas e comunidades.

Não toleraremos mais. Cada vida arrancada é um grito abafado — e nós, mulheres, já cansamos de sussurrar. Que o grito se torne furacão. Que a dor se transforme em luta. Que a luta se transforma em mudança. Até que viver — e não apenas sobreviver — seja possível.

Redação

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