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Altos de Dito Pestana

Por obra de um dedicado jovem historiador altoense, agora circula um livro biográfico sobre Pestana


Benedito Pestana

Benedito Pestana Foto: Divulgação

Benedicto Pestana. Para a historiografia de referência na vizinha municipalidade, trata-se de uma espécie de “pai do jornalismo” altoense, fundando, em 1902, um jornal com o sugestivo título de A Tesoura. 

Chamavam-no, muitos, pela partícula Dito, ou Dicto Pestana, assim na vida familiar e nas jornadas públicas, no vozerio mais que sussurrado de seu cotidiano. 

Por obra de um dedicado jovem historiador altoense, agora circula um livro biográfico sobre Pestana, cuja figura, décadas após sua morte, tem uma chance de ser melhor conhecida das atuais gerações. Título: Benedito Pestana, pai do jornalismo altoense. O autor é Nino Cesar Dourado Barros.

Ele tinha ascendência familiar em Oeiras, lugar de nascimento de seu pai, Vicente Soares da Silva Pestana, meio-irmão do conhecido escritor Clodoaldo Freitas. Já em Teresina, anos mais tarde, Vicente casaria com uma moça cujos pais também foram moradores da Rua do Fogo, da antiga cidade-capital do Piauí. Chamava-se Altina Rosa Gomes de Oliveira. São os pais de Benedito, nascido em 20 de maio de 1879, à rua Paysandu, em Teresina.

Qual a relação de Vicente e Altina com Altos? Ainda no Oitocentos, bem no final, mudam-se eles para a então povoação vizinha de Teresina, já conhecida por evocação de um dos seus pródromos fundadores, João de Paiva. Vai ele em busca de bons ares em cura de moléstia que assim o exigia. E em Altos ficaram pelo século XX a dentro até finarem. 

Essa a razão de seu filho, Dito Pestana, ainda muito jovem, ligar-se em termos de conterraneidade com os altoenses. Vicente, sua mulher e filhos, tornam-se figuras muito ativas nos atos que levam à constituição de Altos em município separado de Teresina. Chegou a ser prefeito nos primeiros tempos. Benedito já demonstra pendores para as letras, tanto que é de 1902 a criação da folha intitulada A Tesoura. Note-se que então a povoação tinha já algum notável vigor econômico e demográfico e sua paroquialidade em larva tinha o impulso de o vigário da Matriz do Amparo, da sede teresinense, cônego Saraiva, ter-se transferido para lá, por motivo parecido com aquele que impulsionou Altina e Vicente.

Altina Pestana, igualmente, notabiliza-se por sua inteira dedicação à família e ao serviço da sociedade, sobretudo como professora pública e devotada figura ligada à capela e depois paróquia de São José.  

Dicto Pestana fez estudos formais entre Teresina e Rio de Janeiro, mas sua dedicação profissional maior foi à repartição dos Correios e Telégrafo, na qual ingressou em 1906. Casou-se relativamente velho, para os padrões vigentes, aos 48 anos de idade, com Déa Rosa, da aristocracia política da Capital. 

Num tempo de expressiva expansão de folhas impressas, Dito participou de muitas delas e das associações e clubes que aqui publicadas, sobretudo divulgando versos de sua autoria. Aparentemente um típico diletante, quiçá, boêmio, pois, tal se disse, levou a condição celibatária às vizinhanças das cinco décadas de vida.

Versista romântico, meio fatal, incorre neste e noutros sonetos: “Aspiração – Quero galgar os Andes do Desejo / De possuir-te, ó santa em louco anseio; / Subir ao Azul etéreo do teu seio / Na lava ardente do vulcão do beijo! // Quero contigo unir-se em brando enleio, / Ver-te risonha e púrpura de pejo, / E ouvir dessa tua voz o doce harpejo / De rouxinóis em lânguido gorjeio! // Quero viver de um gozo infinito e terno, / Das delícias do nosso amor supremo, / Que ao vil olhar do mundo se desfralda!  // Quero feliz morrer entre os escolhos / Do bonançoso mar desses teus olhos, / Desses teus olhos verdes de esmeralda!”   

O autor dessa biografia vestiu seu objeto de estudo com um conteúdo informativo sobre a cidade de Altos muito pertinente em sua relação com a vida do Dito telegrafista. Uma espécie de contexto pestanino, pois situa e permeia sua narrativa nas levezas de vária memória, apanhada em lugares e fontes em que as venerandas dictas marcas se fizeram permanecer, tal a matéria reportada nas folhas de jornais. 

Carlos Dias, amigo de Nino, dedicado pesquisador e autor, tem uma reconhecida participação no feito, inclusive, titular da política pública municipal de cultura, sob Patrícia Leal, concorrendo para a publicação respectiva. Todos tenham nossos cumprimentos pela obra. Nossas comunas precisam realçar os valores que as singularizam.   

Fonte: Fonseca Neto

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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