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Agro é colonização

Agro é pop?


Agropecuária

Agropecuária Foto: Inquima

Como poderia haver beleza na hedionda queimada-crime que devasta o mundo amazônida e pantaneiro, torrando matas, queimando os bichos mais lindos da natureza, emporcalhando rios, eliminando a humanidade milenar que nele vive? 

Tech? Troncos de vegetação nutrida em séculos, boiando roubadas em direção às metrópoles estrangeiras... E os armados pagos pelo público impedindo que se tente impedir tanta corrupção. 

Ruas acenam à vida

Ana Carneiro, Ana Clarinda, Ana Cazé

Sim, é tech, de fato, trator de tromba potente, puxando correntões no rabo para triturar a selva, esmagar os bichos, revirar o solo... E revesti-lo de território do capital financeiro, este anjo da morte, desterrado dos quintos de Dante.  

Pop? Mas como é pop roubarem o direito de trabalhar da gente dos baixões? Como é pop o desemprego dos milhões de desterrados pelo agro, chic? 

A campanha bilionária que estetiza o agro esconde essa tragédia apressada pelas urgências dos ganhos fartos das bolsas de valores em festa. Festa nada pop. 

Agro é tech? Retórica traiçoeira. E por que sua expansão vem no rastro da vergonhosa desindustrialização das últimas nove décadas no Brasil? É indústria-pobreza do Brasil.  

É pop? Economia primária para exportação não tem nada de popular. Produz grãos e carnes, toneladas aos milhões para jogar nas bolsas. Aqui panças vazias.

Agro é mel? Diga-me Brecht aonde foram parar as abelhas na manhã que intoxicaram os enxames. Então agro é tox? Tóxico? Voaram para que mundo as uruçuís que os sojais danaram? Os ninhais? Papais avoantes arribaram sem voltar. Foram tragados pela nuvem venenosa soprada por pássaros de ferro: não se diz que agro é tech?      

No Brasil do recorde safro de grãos, famintos dobram pelas ruas pedindo esmola pelo amor de Deus. O deus mercado roubou-lhes os grãos da “maior” safra e levou para nações endinheiradas nas asas do dólar alto. E a carestia não deixa que o resto de grãos que sobrou seja comido pelo povo de cá. Fome cem. 

As carnes fortes, dessebadas, vão para a finura da mesa das metrópoles. Do galeto brasileiro que o príncipe saudita e o finório japa comem a titela rija, o excluído  brazuca expulso do agro come os pés, asas, pescoços – sim, as moelas. Asas que são depósitos dos rejeitos hormonais tech que o capital meteu nele para crescerem ligeiro, a ave e o negócio.  

Famintos, órfãos aniquilados pelo tech progresso: das roças e arredores, agregados das fazendas foram se agregar nas periferias desagregadas das cidades insólitas.    

Então roça é agro? É o agro essencial, fundador civilizatório pelo cultivo da terra – daí Cultura ser o gênio criador. Roça é agro mas não é pop. No Brasil é dor, escravidão.

Roça é lida que pega no pesado; roçar é calejar as mãos, engrossar o solado dos pés, queimar as faces na insolação. É estar fora dos “planos safra” que é coisa de fazendeiro rico, que tratora e ara, que financia deputado, compra voto de senador, que comprou prefeito e vereador. 

Vida de tanta canseira a da roça, que o maior sonho de futuro dos filhos dela é dela sair. Então de outras roças trata o agro pop, tech, da propaganda que os bancos fazem? Sim, das roças dos chic; não é da roça dos roceiros, dos brasileiros da roça, sem-terra.

Pop, a fome? Como pop, se devasta milhões de barrigas vazias? Gente adulta passar fome é maldade. É tragédia criança roncar o bucho e não ter de onde tirar comida. Mãe ver filho pedir comida e não ter como dar é sinal de dor indizível: o juízo da criança se marca por uma perturbação cruel. E se essa comida existir apenas na pop TV? É um sofrer mais intenso.

Agro é mel. 

Agro é tudo? Se é tudo é nada. A beleza iluminada da propaganda faz escuro na face da verdade do país.  

Agro é colo, nização. “Colo é a matriz de colônia enquanto espaço que se está ocupando, terra ou povo que se pode trabalhar e sujeitar”. Íncola habita; agrícola, lavra. Agro é sujeição. É pacto colonial. (Para o professor Alfredo Bosi, que acaba de arribar).    

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Sobre a coluna

Fonseca Neto

Fonseca Neto

FONSECA NETO, professor, articulista, advogado. Maranhense por natural e piauiense por querer de legítima lei. Formação acadêmica em História, Direito e Ciências Sociais. Doutorado em Políticas Públicas. Da Academia Piauiense de Letras, na Cadeira 1. Das Academias de Passagem Franca e Pastos Bons. Do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí.

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