OLHE DIREITO
Alvaro Mota
10 de outubro de 2026 às 19:32 ▪ Atualizado há 56 minutos
Um dos ditados que mais gosto vem da África e nos ensina que quando morre uma pessoa, queima-se uma biblioteca. Quanto mais vida, mais experiência e mais trabalho essa pessoa teve ou realizou, mais extenso é o fogo que tira de nós os livros.
Uso essa metáfora para me referir ao engenheiro civil, empresário e pesquisador potiguar Luiz Fernando Pereira de Melo, que por décadas me deu a honra de ser um de seus admiradores e tornou-se um excepcional piauiense, trabalhando no Grupo Olho D’Água, recolocando o nosso estado no mapa da produção brasileira de açúcar refinado.
Luiz Fernando nos deixou nesta semana, quando o sopro da vida deixou de existir nele, levando nesse incêndio subjetivo toda uma biblioteca – que também metaforicamente poderá permanecer entre todos aqueles que puderam com ele conviver e tirar dele, sem qualquer custo, os ensinamentos que a vida generosamente vai fazendo acumular em quem tem sede de aprender.
Engenheiro, empresário, homem público, pesquisador e bom contador de histórias, Luiz Fernando era um homem de ação, daqueles que pretendiam sempre transformar o mundo ao seu redor. Ele foi secretário de Agricultura do Rio Grande do Norte, entre 1988 e 1991, durante o governo de Geraldo Melo – alçado a essa condição por sua atuação no setor sucroalcooleiro potiguar, pois entre 1975 e 1988 exerceu a Diretoria Técnica da Companhia Açucareira Vale do Ceará-Mirim, responsável pela Usina São Francisco. Também presidiu o Sindicato do Açúcar e do Álcool do Rio Grande do Norte e Ceará.
Natural de Macaíba, uma cidade potiguar com alguma tradição no cultivo de cana, trouxe para o Estado do Piauí a larga experiência acumulada em seu estado para dirigir a Companhia Vale do Parnaíba (Comvap). Em quase um quarto de século (24 anos), o tempo de uma geração humana, deixou a marca de aumento da produção e da produtividade; do uso inovador de técnicas de manejo agrícola; a retomada do refino de açúcar no Piauí.
Mas ele era bem mais que um aplicado executivo, porque dedicou parte de seu tempo à pesquisa histórica e genealógica do Nordeste, publicando livros sobre famílias e a formação histórica do sertão potiguar – ou seja, ele tinha o condão de produzir conhecimento. Dessas pesquisas, resultaram obras como “Um ramo judaico dos Medeiros do Seridó”, “Os Fernandes Pimenta”, “Crônica do Sertão do Apodi”, “Genealogia e fatos do Sertão do Norte de Baixo” e “Melos de Campo Grande – Genealogia”.
Estudo, dedicação e a curiosidade que o movia a sabe mais fizeram de Luiz Fernando Melo um professor nato, pessoa com quem a gente aprendia muito, não pelo ensino em si, mas pelo modo como ele agia, usando seu tempo para com carinho apontar caminhos àqueles que o rodeavam, distribuindo saber sem mesmo que as pessoas soubessem que estavam aprendendo. Podia ser sobre cana de açúcar e seu processamento, sobre criação de gado bovino, sobre as histórias sertanejas que carregam sabedoria de antes para agora e para o amanhã.
Esse grande cidadão eu conheci em 2002, em meio a uma disputa judicial, durante a qual fui aprendendo a ouvi-lo, em longas conversas com ele, os doutores Gilberto Tavares, Murilo Tavares de Melo e Moisés Reis. Nesses diálogos, sempre estava balizando as coisas, para buscar o equilíbrio tão necessário sempre.
Sua partida deixa em todos os que o conheceram a sensação permanente de perda – pela sua ausência física, mas a longa convivência sem dúvidas faz com que uma grande parte da biblioteca incendiada permaneça preservada em todos nós.
Álvaro Fernando da Rocha Mota é advogado. Procurador do Estado. Ex-Presidente da OAB-PI. Mestre em Direito pela UFPE. Doutor em Direito pela PUC-SP. Ex-Presidente do CESA-PI e atual Presidente do Instituto dos Advogados Piauienses – IAP.
Fonte: Luiz Fernando
Álvaro Mota é procurador do Estado, advogado e presidente do Instituto dos Advogados Piauienses (IAP). Na área acadêmica, atua como professor, sendo mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito (UFPE) e doutor em Direito Administrativo (PUC-SP).