ATRITOS
Luiz Brandão
11 de maio de 2026 às 16:31 ▪ Atualizado há 14 minutos
O cenário que levou à máxima de que "para Flávio Bolsonaro se enforcar no jogo político basta dar corda" ganhou um novo capítulo nos últimos dias. Desta vez, o palco do atrito foi o embate público entre o senador e pré-candidato à Presidência e o deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator da Lei da Dosimetria na Câmara. O episódio serve para mostrar a falta de habilidade política de Flávio, que sempre esteve em defesa apenas dos interesses da família dele.
A troca de farpas, longe de ser um caso isolado, escancara um padrão recorrente da atuação política da Família Bolsonaro: uma postura bélica e autoritária que já afastou importantes lideranças da direita brasileira e inviabiliza a construção de um projeto de poder duradouro.
Tudo começou no último sábado (9/5), durante evento do PL em Santa Catarina. Flávio Bolsonaro, que aproveitou a ocasião para lançar o irmão Carlos como pré-candidato ao Senado, foi questionado sobre a recente decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de suspender os efeitos da Lei da Dosimetria.
O senador não poupou críticas. Em tom incisivo, classificou a decisão como "canetada monocrática" e insinuou que por trás dela haveria um "jogo combinado" envolvendo o próprio relator da lei.
"Acho estranho, porque foi o próprio Alexandre de Moraes que escreveu o texto aprovado no Congresso. Foi ele quem interditou o debate no Legislativo, tanto na Câmara quanto no Senado, porque nós queríamos a anistia ampla, geral e irrestrita. E, estranhamente, o relator na Câmara tem proximidade com o ministro, porque parece que ele recebia diretamente dele, perguntando o que poderia ou não estar nesse texto da dosimetria", declarou Flávio.
Para Flávio, a sequência de eventos — aprovação do Congresso seguida de suspensão pelo STF — abalaria a credibilidade do Judiciário. "Mais uma vez a democracia fica abalada. Uma decisão do Congresso, em sua grande maioria, defendendo a lei da anistia, e, em uma canetada monocrática, um ministro revoga a decisão de nós, os verdadeiros representantes do povo", afirmou o pré-candidato .
A reação de Paulinho da Força veio rápida e contundente. Por meio de nota publicada em suas redes sociais e repercutida em diversos veículos, o deputado rejeitou veementemente qualquer insinuação de subordinação ao Judiciário ou de "jogo combinado" .
O relator defendeu que o texto da lei foi construído de "forma ampla", ouvindo todas as bancadas do Congresso Nacional, incluindo deputados, senadores e o próprio Flávio Bolsonaro . Além disso, destacou que conversou com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), dentro do diálogo institucional esperado entre os Poderes .
"Isso não representa submissão do Legislativo ao entendimento prévio do Judiciário, nem qualquer tipo de aval externo para a elaboração da proposta", enfatizou a nota .
Paulinho da Força também lembrou que o Congresso atuou de forma independente tanto na aprovação do projeto quanto na derrubada do veto presidencial. E tentou baixar a bola do confronto: "Não considero produtivo transformar esse debate em disputa política ou pessoal. O mais importante é garantir o cumprimento da lei, a harmonia institucional e o respeito às decisões democraticamente construídas pelo Parlamento brasileiro" .
O clã contra todos
O episódio com Paulinho da Força, no entanto, é apenas mais uma demonstração de um comportamento recorrente. Analisando-se o histórico recente, observa-se que a Família Bolsonaro mantém uma relação de "nós contra o mundo" que tem produzido atritos não apenas com adversários, mas com aliados históricos e potenciais. E isso é mais grave para suas ambições eleitorais.
Nós últimos meses o clã Bolsonaro tem se metido em tretas, inclusive com aliados. Uma delas foi entre o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e o filho mais novo de Bolsonaro, o vereador Jair Renan o com Eduardo Bolsonaro.
Considerado uma das maiores promessas da nova direita, Nikolas foi pressionado a apoiar com mais intensidade a pré-candidatura de Flávio. Diante das cobranças, partiu para o ataque e chamou Jair Renan Bolsonaro, irmão mais novo de Flávio de "toupeira cega" em redes sociais. Antes disso, Eduardo Bolsonaro já havia criticado Nikolas por suposto "deboche" ao interagir com perfis que declaravam não votar em Flávio para 2026.

Historicamente, os Bolsonaro têm demonstrado dificuldade em manter alianças que exijam compartilhamento de poder ou autonomia de outras lideranças. A insistência em manter o protagonismo político restrito ao círculo familiar levou à perda de apoios importantes e abriu espaço para o crescimento de nomes como Romeu Zema (MG) e Tarcísio de Freitas (SP), que se consolidam justamente por não carregarem o "sobrenome" associado à beligerância constante.
Percebendo o desgaste, Flávio Bolsonaro tentou conter os danos e foi às redes sociais pedir "união, racionalidade e o fim das provocações e cobranças" dentro do próprio grupo político. Líderes de seu partido também têm demonstrado preocupação com o impacto dessas brigas na pré-campanha.
No entanto, a fala em prol da harmonia contrasta com a postura adotada no episódio com Paulinho da Força. Ao partir para a acusação pública de "jogo combinado" com o STF, Flávio não apenas atacou um deputado que, na prática, construiu um texto que beneficia seu pai (a Lei da Dosimetria pode reduzir a pena de Jair Bolsonaro de 27 anos e 3 meses para 2 anos e 4 meses), como também escancarou a dificuldade do clã em distinguir adversários de aliados eventuais.
Caso Ciro completa o drama
Para completar o caos, a o bolsonarismo está às voltas com as revelações da Polícia Federal do envolvimento direto e mais grave do presidente nacional do PP, o senador e ex-ministro da Casa Cívil de Jair Bolsonaro, Ciro Nogueira, com o rumoso escândalo do Banco Master. O expoente do Centrão é acusado de, entre outras coisas, receber mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil do banqueiro Daniel Vorcaro para proteção política do banco falido.
Na quinta-feira passada (07/05), com autorização do ministro André Mendonça, do STF, a Polícia Federal fez busca e apreensão na casa de Ciro Nogueira e na empresa da família de em Teresina. No domingo (10/05) surgiram novas revelações envolvendo negócios do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro. O portal Metrópoles, por exemplo, revelou que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) comprou uma cobertura triplex de R$ 22 milhões em um prédio de luxo em São Paulo três meses após virar sócio de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Flávio Bolsonaro e seus familiares não saíram em defesa de Ciro Nogueira. Estão calados e vendo o circo pegar fogo. Outros escândalos envolvendo aliados e os próprios membros do clã Bolsonaro vão surgindo a cada dia e, sem dúvidas, vão alimentar as fogueira das denúncias na campanha eleitoral que se aproxima.
Enquanto as confusões internas e externas se multiplicam, os adversários assistem. E estão vendo que, para que Flávio Bolsonaro se enrede em suas próprias contradições, pouco precisa ser feito. A dinâmica de ataques, controle familiar e queima de pontas políticas parece estar fazendo o trabalho sozinha.

Luiz Brandão é jornalista formado pela Universidade Federal do Piauí. Está na profissão há 40 anos. Já trabalhou em rádios, TVs e jornais. Foi repórter das rádios Difusora, Poty e das TVs Timon, Antares e Meio Norte. Também foi repórter dos jornais O Dia, Jornal da Manhã, O Estado, Diário do Povo e Correio do Piauí. Foi editor chefe dos jornais Correio do Piauí, O Estado e Diário do Povo. Também foi colunista do Jornal Meio Norte. Atualmente é diretor de jornalismo e colunista do portal www.piauihoje.com.
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