Um pequeno lugar no entroncamento da BR-343, na saída de Piracuruca rumo a Parnaíba, que deveria ser um cartão de visitas, virou uma demonstração de ignorância ecológica e ambiental. O que deveria ser um convite verde, fresco e acolhedor para quem chega ou parte, transformou uma rotatória que marca a saída ou entrada da cidade em um triste símbolo da ecoignorância que ainda impera em muitas gestões públicas pelo Brasil afora.
A cena é desoladora em sua simplicidade burra: uma enorme roda de asfalto, sem um único canteiro de flor, sem uma muda de árvore que ofereça sombra. E, bem no meio dessa ilha de calor em potencial, fincaram uma bandeira do Brasil. Eis o "patriotismo anticológico": o verde e o amarelo da bandeira contrastam, pela negativa, com o cinza e preto quente do asfalto que a cobre.
Quem projetou ou autorizou esta obra, seja na esfera municipal ou por meio de convênios estaduais ou federais, ignorou deliberadamente o que a ciência prova há décadas. O asfalto não é neutro; ele é um agente ativo do desconforto urbano. Superfícies asfálticas escuras absorvem a radiação solar e a liberam lentamente, criando o fenômeno conhecido como ilha de calor.
O que se vê naquela rotatória em Piracuruca é uma ignorância deliberada, porque vários estudos mostram que a temperatura média do ar em áreas densamente asfaltadas pode ser de 1°C a 3°C mais alta durante o dia e até 10°C mais quente à noite em comparação com zonas rurais ou arborizadas.
Cada metro quadrado de asfalto que substitui a terra permeável ou a vegetação é um golpe no conforto térmico da população. A lógica que guiou os autores desta obra foi, aparentemente, apenas a manutenção barata: não há o que regar, não há folhas para varrer. O poder público trocou a qualidade de vida dos cidadão, que enfrentarão a retenção de calor por décadas, por uma economia imediata e miope nos custos de zeladoria.
Enquanto Piracuruca asfalta uma rotatória, cidades ao redor do mundo buscam exatamente o oposto. Governos municipais sérios investem em infraestrutura verde como estratégia de adaptação às mudanças climáticas.
As árvores urbanas são uma das soluções de melhor custo-benefício para mitigar as ilhas de calor. Elas fornecem sombra, reduzem a temperatura do ar pela evapotranspiração, absorvem poluentes e ainda melhoram a saúde mental da população, reduzindo estresse e ansiedade. Um simples canteiro com plantas naquela rotatória poderia diminuir a temperatura superficial em até 4°C a 8°C, dependendo da tecnologia ou do porte da vegetação. Em vez disso, a gestão pública optou pelo caminho mais fácil, mais barato e mais nocivo: o asfalto.
Estudos recentes mostram que o Brasil ainda carece de uma cultura de planejamento urbano que priorize soluções baseadas na natureza. Dados do World Resources Institute (WRI) indicam que, além de sequestrar carbono, áreas verdes urbanas são fundamentais para a adaptação climática, reduzindo enchentes, purificando o ar e combatendo desigualdades, já que bairros pobres geralmente têm menos árvores e sofrem mais com o calor extremo.
O patriotismo do atraso
O gesto de fincar a bandeira do Brasil no meio daquele pequeno deserto de asfalto agrava a ofensa. Não se trata de patriotismo; trata-se de um simbolismo às avessas. É o "Brasil verde-amarelo retrógrado", que confunde amor à pátria com descaso pelo território que habita.
Este não é um caso isolado, mas um sintoma de uma visão de gestão pública que trata o meio ambiente como um custo, e não como um investimento. O poder público municipal, assim como o estadual e o federal, precisa urgentemente internalizar que a agenda climática é uma agenda de bem-estar humano.
As mudanças climáticas já são uma realidade: ondas de calor mais frequentes, secas prolongadas e chuvas torrenciais. Cidades que impermeabilizam o solo e eliminam a vegetação estarão condenando sua própria população ao sofrimento e ao colapso da infraestrutura.
A rotatória de Piracuruca é um retrato em miniatura de um Brasil que ainda insiste em construir o passado enquanto o mundo avança para um futuro mais verde. Enquanto isso, os moradores da cidade, e todos nós, continuaremos a pagar o preço em forma de calor, desconforto e qualidade de vida roubada.
A pergunta que fica é: quantas rotatórias asfaltadas e bandeiras fincadas serão necessárias até que a ecoignorância dê lugar à inteligência ecológica?
Luiz Brandão
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