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Márcia Tiburi, querida


Capa ilustração do novo livro de Márcia Tiburo e Jean Wyllys

Capa ilustração do novo livro de Márcia Tiburo e Jean Wyllys Foto:

Somente agora dou cabo da leitura de O que não se pode dizer – experiências do exílio, reunião de cartas trocadas entre você e o Jean Wyllys, livro publicado pela Civilização Brasileira, em 2022. De toda sua obra, essa foi a que mais tocou fundo meu coração. Não só pelo caráter epistolar, mas por senti-la inteira como pessoa e intelectual. Mexeu tanto que fui lendo aos poucos, de trás pra frente, sem pressa de terminar. Até porque, mesmo querendo, dificilmente conseguiria, de tão emocionado. A começar pelo fato de vocês serem obrigados a deixar o Brasil, inseguros de viver aqui, e buscarem abrigo em outros países. Tudo graças à campanha difamatória e às ameaças de morte, tendo à frente o famigerado MBL, patrocinadas pelos fascistas tupiniquins.  

Pior é saber que essa perseguição, passados cinco anos, continua até hoje. Sem trégua nem piedade. Uma campanha de ódio bem orquestrada e difundida pelas redes sociais, fazendo uso de montagens criminosas de suas entrevistas e frases. É como você diz num certo trecho de carta: “Somos os inimigos do regime fascista que é especialista em forjar inimigos para continuar seu projeto de mistificação”. Mal sabiam os canalhas que, apesar da distância, sua luta continuaria em defesa de um Brasil democrático, generoso e inclusivo. Que você, Márcia, não é mulher de abandonar o campo de batalha, tampouco de largar a mão dos milhões de brasileiros esfomeados e do compromisso com a verdade. 

Entre várias coisas, duas marcaram meus olhos tão fatigados. Primeiro, devido ao exílio, você não ter vindo se despedir do seu pai, homem simples a quem tanto amou, ao partir, vítima de uma bactéria no coração. Em tributo, pintou seu retrato, deixando claro que, embora ausente das exéquias, o genitor permanecia eternamente na memória. Segundo, o belo exemplo de amizade e companheirismo entre você e o Jean Wyllys, ex-deputado federal que, na votação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, transmitida ao vivo e em cores pelas TVs, protagonizou a cena mais corajosa daquela triste sessão na Câmara: cuspiu na cara do Bolsonaro para deleite de milhões de espectadores.  

Na sua última carta, datada de 31 de janeiro de 2022, você afirma que o exílio é um ato de resistência, com o que concordo plenamente. Vocês são um exemplo disso. Ao tempo que diz também, por não suportar tal limbo, querer voltar ao Brasil. Espero que a eleição e a posse do Lula, a despeito da ameaça golpista dos fascistas, apressem essa sua decisão. Motivo: estamos morrendo de saudade de você e de suas reflexões filosóficas presenciais. Mesmo expressando o desejo de morar num assentamento do MST, ao mudar de vez pra cá, não deixe de visitar o Piauí, estado mais lulista da federação (onde o Cara teve 76,86% dos votos no segundo turno presidencial). Aproveitaríamos sua estadia, entre outras atividades, para lançar esse livro tão instigante e necessário. Te amamos, Márcia: eu, Lucíola e um montão de piauienses.

(*) Wellington de Jesus Soares é professor 

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