COVID-19

Isolamento vertical: entenda a ideia

Em carta aberta à Trump, Friedman diz que a proposta de isolamento foi distorcida e pede que seja aplicada de forma responsável e progressiva.


Coronavírus

Coronavírus Foto: CCTV/Reprodução

 Nos últimos dias o texto do famoso colunista Thomas Friedman, ou melhor, uma notícia dessa publicação, circulou no Brasil com a sugestão, proposta por David Katz, de uma abordagem mais cirúrgica no combate ao Covid-19. A ideia seria pautada na restrição do isolamento das pessoas mais vulneráveis aos efeitos do vírus, ficando o restante da população exercendo suas atividades, respeitando as recomendações de distância, de forma que a economia tenderia a sofrer menos impacto.

Prontamente, o presidente dos Estados Unidos, e depois o do Brasil, levantaram a bandeira: “não podemos deixar a cura ser pior que o problema”.

 Foi essa a mensagem que Friedman e Katz quiseram passar? A resposta é um sonoro n-ã-o! O que você vai ler a seguir é um resumo do texto escrito por Friedman publicado no The New York Times em 26/03/2020[1]: “Carta aberta ao presidente Trump”.

  Friedman criticou o tweet de Trump “não podemos deixar a cura ser pior que o problema”, afirmando que ele polarizou e caricaturou o debate proposto. Segundo Friedman:  os críticos de Trump acusaram o governo de se preocupar mais com o mercado de ações do que com a vida humana. Já os partidários, acusavam seus críticos de preconceito moral e de ignorarem quantas pessoas morreriam por causa da crise econômica. – Você lembrou das discussões nas redes sociais aqui do Brasil, não foi? 

            Pois bem, dessa vez, Friedman expôs cada etapa, as quais escrevi de forma resumida. Nota-se que ao invés de propor a medida de isolamento parcial como caráter urgente, o autor foi contundente em afirmar que a medida deve ser adotada de forma gradual e respaldada pela análise dos dados. Os argumentos tecidos por ele foram expostos de maneira tão lúcida, que concluo aqui meus comentários. Boa leitura!

 

Etapa 1: “Primeiro, você precisa solicitar um programa de abrigo (isolamento) local/distanciamento social dos estados, enquanto os especialistas (gestores)  diferem quanto tempo esse bloqueio nacional deve levar - duas semanas, quatro semanas, oito semanas, qualquer que seja, praticamente todos concordam que é necessário retardar a disseminação do corona vírus, impedir que nossos hospitais sejam sobrecarregados e adquirir o tempo crítico necessário para coletar os dados necessários para informar todas as futuras tomadas de decisão .”

 

Na mesma linha de pensamento, o especialista em saúde pública Ezekiel Emanuel, vice-reitor de iniciativas globais e professor da Universidade da Pensilvânia, afirmou que é preciso ordenar imediatamente o fechamento de todas as escolas e empresas não essenciais e impor uma política de isolamento local para todo o país. Pode-se perceber que a maioria da população já está experimentando este protocolo e sentindo os efeitos economicamente. É preciso padronizar esses protocolos para ter um impacto total na saúde pública. 

 

Friedman ainda alerta Trump: percebo, Sr. Presidente, que alguns de seus governadores republicanos e prefeitos rurais estão dizendo para você não pedir que permaneçam isolados, porque seus estados menos densamente povoados não foram afetados. Mas eles não fazem nenhum favor a você e a seus cidadãos, pois o vírus tem uma alta capacidade de contaminação, podendo chegar a todos os lugares.

 

Etapa 2:Usamos esse período de bloqueio para coletar o máximo de dados possível sobre quem tem o vírus covid-19. É preciso verificar informações como onde eles moram, quais são suas idades e graus de doença, qual é a taxa de mortalidade em que idades e quais outras doenças imunológicas deficiências que possam ter.”

  Nessa etapa, Friedman destaca que as pessoas mais jovens, na faixa dos 20 anos, estão morrendo mais do que o esperado. Porém, sem informações completas do número de infecções, o valor de pessoas portadoras do vírus pode ser muito maior que os hospitalizados, logo as evidências podem ser enganosas. 

Etapa 3: “Esses dados podem ser a base do que Katz chama de "o pivô". Uma vez que reduzirmos a velocidade da transmissão nacional do vírus, e desenvolvermos um mapa estratificado de risco nacional, poderemos então, com base nesses dados, começar a levar as pessoas de volta ao local de trabalho para reavivar a economia.”

 Sobre isso, Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa de doenças infeccionas da Universidade de Minnesota, aponta que a convivência com o vírus, em algum grau, terá que ocorrer mesmo que os dados não mostrem o achatamento da curva. Pois, existem atividades essenciais que não podem ser interrompidas. 

Mas, Osterholm ainda destaca que se os dados indicarem supressão, pode-se começar a descobrir exatamente quem teve o vírus e se tornou imune, quem passou mais de duas semanas sem manifestar sintomas e em quais áreas e, então, apresentar diferentes níveis de reintegração na economia. Isso também permitiria dedicar mais energia "para proteger os profissionais de saúde da linha de frente" e os mais vulneráveis a serem mortos pelo vírus covid-19 - idosos, pessoas com sistema imunológico enfraquecido e outros grupos vulneráveis.

 

Friedman conclui: “ao permitir que os dados epidemiológicos gerem essa dinâmica, Sr. Presidente, você assegurará às pessoas que seus pronunciamentos se baseiam na ciência e na lógica estratégica de um plano. Dessa forma, esse plano será capaz  de ser apoiado por todo o país, não apenas por sua base. Sua presidência e nosso futuro imediato estão entrelaçados. Você precisa se elevar acima do que o sustentou durante seus primeiros três anos - dividindo, enganando e impugnando especialistas - e dando ao país o que ele tanto precisa e deseja agora:  "um plano baseado na ciência.”

(*) Rebeca Nepomuceno é economista, graduada pela Universidade de Brasília. Mestre em economia, com ênfase em Políticas Públicas, pela Universidade Federal de Viçosa.

     


   

[1] https://www.nytimes.com/2020/03/26/opinion/covid-trump-plan.html

Próxima notícia

Dê sua opinião:

Sobre a coluna

Debora Ghelman

Debora Ghelman

Se você quer escrever e expor suas ideias esse é seu espaço. Mande seu artigo para nosso e-mail (redacao@piauihoje.com) ou pelo nosso WhatsApp (86) 994425011. Este é um espaço especial para leitores, internautas, especialistas, escritores, autoridades, profissionais liberais e outros cidadão e cidadãs que gostam de escrever, opinar e assinando embaixo.

Fique conectado

Inscreva-se na nossa lista de emails para receber as principais notícias!

*nós não fazemos spam

Enquete