E AGORA?
Da Redação
07 de maio de 2026 às 12:14 ▪ Atualizado há 1 hora
No dia 16 de março de 2026, em entrevista à imprensa no Piauí, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi categórico. Diante das primeiras revelações de mensagens que o aproximavam do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o presidente nacional do Progressistas fez uma promessa pública em tom de desafio:
"Se surgir algum dia na vida alguma denúncia que seja comprovada, eu, enquanto senador Ciro, renuncio ao meu mandato."
Pouco mais de um mês e meio depois, na manhã desta quinta-feira (07/05), a Polícia Federal bateu novamente à sua porta e as investigações agora apontam muito mais do que uma simples "amizade" com o banqueiro preso.
A pergunta que ecoa nos corredores do Congresso e nas redes sociais é direta: Ciro Nogueira vai cumprir a promessa?
Destinatário central de vantagens
A nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF nesta quinta-feira (07/05) com autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), colocou o senador no centro do que investigadores chamam de "arranjo funcional" com Daniel Vorcaro.
De acordo com a decisão judicial, Ciro Nogueira é apontado como o "destinatário central" das vantagens indevidas oriundas do esquema criminoso comandado pelo banqueiro. A operação cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços do senador em Brasília e no Piauí, além de bloquear bens no valor de R$ 18,85 milhões.
Entre os presos na manhã desta quinta está Felipe Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, apontado pela PF como o operador financeiro do esquema. O irmão do senador, Raimundo Neto, também é alvo das investigações e terá de usar tornozeleira eletrônica. A autorização para as medidas cautelares partiu do ministro André Mendonça, relator do caso no STF.
As evidências: mesada de R$ 500 mil e emenda 'feita sob encomenda'
As investigações revelaram um esquema financeiro que, segundo a PF, evidencia a troca de favores entre o senador e o banqueiro.
1. 'Mesada' de R$ 300 mil que subiu para R$ 500 mil
As investigações apontam que Ciro Nogueira recebia pagamentos mensais regulares de Daniel Vorcaro. Em julho de 2024, Felipe Vorcaro pergunta ao primo-banqueiro: "Oi, é para continuar pagando a parceria BRGD/CNLF? 300k mês?". A resposta de Daniel: "Sim" .
Em junho de 2025, já sob pressão, o valor teria subido. Daniel cobra o primo: "Cara, eu no meio dessa guerra, atrasou dois meses Ciro?". Felipe responde: "Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?" .
Os investigadores interpretam a conversa como um indício claro de que os repasses eram feitos e depois elevados.
2. A 'emenda Master': texto enviado pelo banco em envelope para a casa do senador
Em agosto de 2024, Ciro Nogueira apresentou a Emenda nº 11 à PEC 65/2023, que propunha elevar de R$ 250 mil para **R$ 1 milhão** o limite de garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) .
O texto, segundo a PF, foi elaborado pela assessoria do Banco Master, enviado a Daniel Vorcaro, impresso e entregue em um envelope endereçado a 'Ciro' na residência do senador .
A prova mais contundente veio da reação do banqueiro. Após a publicação da emenda, Vorcaro comemorou em mensagem à então namorada, a influenciadora Martha Graeff: "Saiu exatamente como mandei" .
Ele ainda classificou a proposta como uma "bomba atômica no mercado financeiro", que "ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes" . A medida, se aprovada, teria potencializado o modelo de negócios do Master, que vendia CDBs com a garantia do FGC.
O que o senador disse em março: a promessa de renúncia
No dia 16 de março de 2026, em meio às primeiras revelações das mensagens de Daniel Vorcaro à CPI que investiga fraudes no INSS, Ciro Nogueira foi perguntado por jornalistas sobre o caso em Teresina.
O senador afirmou que mantém contato com "todos os grandes empresários do país" e que é convidado para jantares e palestras. E completou:
"Se surgir algum dia na vida alguma denúncia que seja comprovada, eu, enquanto senador Ciro, renuncio ao meu mandato. Eu jamais vou voltar ao meu estado, olhar o povo da minha terra olho no olho, se eu não tiver autoridade e a confiança desse povo."
Na ocasião, Ciro também disse: "O CPF dele [Vorcaro] é um, o meu é outro. O que vai nortear a minha trajetória de vida é a minha história".
As mensagens que o levaram a fazer a declaração mostravam Vorcaro se referindo ao parlamentar como um "grande amigo de vida" e descrevendo encontros e conversas com ele.
A promessa será cumprida?
As investigações da Polícia Federal, agora aprofundadas na operação desta quinta-feira, apontam várias ligações do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, incluindo, segundo os investigadores, o recebimento de R$ 500 mil mensais em troca de favorecimento político .
A defesa de Ciro Nogueira, comandada pelo advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, afirmou em nota que "repudia ilações de ilicitude, especialmente em sua atuação parlamentar" e que o senador está comprometido a contribuir com a Justiça para esclarecer que não participou de atividades ilícitas .
A nota também diz que medidas investigativas "graves e invasivas" tomadas com base em "mera troca de mensagens" podem ser "precipitadas" e questiona o uso do material .
Ciro Nogueira, que está em viagem oficial à Europa, segundo sua assessoria, ainda não se manifestou especificamente sobre as novas acusações da operação desta quinta.

O maior escândalo financeiro da história do Brasil
O caso do Banco Master é tratado por investigadores como a maior fraude bancária já registrada no país.
A liquidação do Master, em novembro de 2025, e do Will Bank — que pertencia ao grupo — gerou um rombo estimado em cerca de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) . Daniel Vorcaro foi preso em março de 2026 e está detido na sede da PF em Brasília, aguardando as investigações.
O banqueiro, segundo apurações, operava um esquema de captação agressiva de recursos via CDBs com rentabilidade acima do mercado, usando a garantia do FGC como chamariz para atrair pequenos investidores. O colapso da instituição deixou um rastro de prejuízos que afeta milhares de brasileiros.
Histórico de investigações: a reincidência de Ciro Nogueira
Não é a primeira vez que a Polícia Federal bate à porta do senador piauiense.
· 2018 (Lava Jato): Ciro foi alvo de operação por suspeita de obstrução da Justiça, com apreensão de documentos e bens de luxo em sua residência.
· 2019 (Operação Compensação): Buscas em 22 endereços ligados ao senador após delações da J&F apontarem repasses de R$ 43 milhões ao PP, intermediados por ele.
· 2026 (Operação Compliance Zero): A mais recente operação, com indícios de recebimento de "mesada" e atuação legislativa em favor do Banco Master.
A despeito das investigações anteriores, todos os processos contra Ciro Nogueira foram arquivados ao longo dos anos. Com excelente relacionamento com juízes, desembargadores e ministros do STF, o parlamentar sempre conseguiu manter-se imune e impune.
A pergunta que fica, agora, é se a promessa de renúncia de março será cobrada pela opinião pública e se o STF manterá o histórico de arquivamento diante das novas e contundentes evidências.

Um fator adicional pode mudar os rumos do caso. Daniel Vorcaro está, neste momento, em tratativas avançadas para fechar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República .
Na véspera da operação desta quinta-feira, a defesa de Vorcaro entregou os anexos da proposta de delação. Caso o acordo seja homologado pelo ministro André Mendonça, o banqueiro poderá detalhar, com documentos e conversas, cada centavo das "mesadas" pagas a Ciro Nogueira, além de revelar outros políticos e autoridades que participavam do esquema.
A delação pode ser a chave para transformar indícios em provas robustas e, finalmente, testar a promessa de renúncia feita pelo senador.
Fonte: PF/STF/Redes sociais
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