CORONAVIRUS

Insegurança e negligência diante do Covid-19 na Plataforma de Merluza

Por isso, desde já, o Sindicato exige uma resposta do Gerente Geral da UO-BS à altura de sua responsabilidade


Petroleiros

Petroleiros Foto: sindiquimicapr.org.br

O Sindipetro Litoral Paulista recebeu, nos últimos dias, denúncias graves sobre a exposição a riscos inaceitáveis cometidos pela liderança da Plataforma de Merluza. Os gestores da unidade estão passando por cima de todas as normas e padrões para fazer valer sua sanha de poder.

Por isso, desde já, o Sindicato exige uma resposta do Gerente Geral da UO-BS à altura de sua responsabilidade com a segurança dos petroleiros e petroleiras que trabalham em alto mar. É inadmissível uma chefia, que já tem em seu vasto currículo seguidos casos de assédio moral, seguir expondo à força de trabalho a situações de risco.

A plataforma de Merluza estava em processo de parada de manutenção programada entre os dias 6 e 27 de março, os materiais para a realização de forma adequada não estavam previstos para chegar e, prova disso, pouco mais de 10% dos trabalhos foram realizados. Isso por si só já ilustra a ingerência da chefia, incapaz de ouvir pessoas ao redor. Porém, o mais grave nem é a gestão do processo de parada, mas expor as pessoas a riscos inaceitáveis.

No ultimo dia 14, o gerador elétrico alugado para parada foi danificado por diesel contaminado com água. Imediatamente, foi acionado o gerador auxiliar (a diesel), que mantém em funcionamento apenas equipamentos considerados essenciais à plataforma. Sem a devida gestão de mudança, o equipamento de emergência rodou por dias a fio, sem manutenção preventiva, com todos os sistemas de segurança “enganados”. Assim, sistemas como ar condicionado, refrigeração frigorífica, equipamentos da cozinha, computadores, lavanderia, ficam sem energia elétrica. Foi aí que teve início o caos.

Segundo as denúncias, de maneira irresponsável Geplat (gerente da plataforma) e Geop (gerente de operação) optaram por by pass nos sistemas de segurança do gerador auxiliar para realizar ligações elétricas no próprio equipamento. Tudo isso pra manter o número de trabalhadores embarcados, que era de 74 pessoas, impondo à força de trabalho situações como:

1. Habitabilidade comprometida
Exposição a temperaturas desagradáveis e insuportáveis para dormir e desempenhar suas tarefas de forma segura

2. Falta de temperatura adequada, RISCO DE DTA
Descarte de parte dos alimentos por falta de refrigeração e preparo comprometido; por falta de energia, risco de DTA (doença transmitida por alimento).

3. Refeições servidas - pão com requeijão e pão com queijo
Ou seja, as refeições adequadas, com proteína, salada, etc, passaram a ser substituídas por lanches - situação que só passou a ser normalizada após 48 horas, mas parcialmente uma vez que os alimentos haviam sido descartados por condições inadequadas de armazenamento.

4. Falta de higienização das roupas e uniformes
Por se tratar de uma parada de manutenção, o volume de serviço era maior que o rotineiro, isso se estendeu por 5 dias sem higienização.

5. Banhos realizados com água mineral e caneca

6. Sanitários sem água, de todos os camarotes e de uso coletivo
Banheiros se transformaram em verdadeiros vetores de proliferação de bactérias e doenças, agravadas pela falta de ventilação

7. Iluminação por barco de apoio
Não bastasse todo este caos, a luz do fim do túnel provinha de uma embarcação de apoio.

8. A deriva, mesmo sendo plataforma fixa
Devido à falta de refrigeração na sala de rádio, equipamentos importantíssimos foram superaquecidos e sofreram blackout, deixando a plataforma sem comunicação em meio ao caos. Como poderia ser feito um pedido de socorro sem os sistemas de comunicação

9. Suspeita de uma empregada com Covid-19
Mais uma vez, desrespeitando normas internas e procedimentos, a opção foi desembarcar a empregada em meio a outros tantos, correndo riscos que todos conhecemos

10. Decisão de “ bypassar” todos os sistemas de segurança e tentar partir a planta
Não bastasse ter infringido todos os padrões e normas, eles foram alem, incorreram no crime previsto no artigo 132 do Código Penal, que estipula prisão a quem expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente.

Uma escolha consciente
Os gestores sabiam do risco de se manter uma plataforma “pendurada” num equipamento de emergência, um gerador de baixa potência, trabalhando por dias a fio sem pausa. Mesmo assim, sob protestos e questionamentos, os gestores decidiram manter o número de pessoas a bordo, quando a medida correta era optar pelo desembarque dos trabalhadores dadas as condições descritas.

As consequências estavam mais do que anunciadas: o gerador auxiliar, sobrecarregado por sistemas elétricos ligados a ele de forma irregular e irresponsável, também foi danificado. No linguajar do trabalhador , “fritou”.

Cabe ressaltar ainda que o gerador operava sem sistema de combate a incêndio habilitado e a sala possui bateria de CO2, que também estava bypassado. Ou seja, o risco de um incêndio era dado, pois as mangueiras de água eram usadas externamente para refrigerar o equipamento. Caso ocorresse um sinistro, poderia facilmente chegar ao seu tanque de combustível, que fica próximo, e atingir inclusive o casario. No casario, todos os sistemas de detecção estavam bypassados, agravando ainda mais os riscos de acidente. A pergunta que fica é: por quê?

Novamente o caos se instalou na plataforma e a tripulação a bordo foi forçada a dormir no heliponto. Para piorar, durante a madrugada, começou a chover e os trabalhadores mais uma vez correram riscos de acidentes sérios ao tentar escapar do mau tempo no meio da noite.

Quando optaram por transpor sistemas de segurança, não dispor de ferramentas de torque a bordo para desraquetear a unidade e fazer “gás in”, outra vez, sob protestos, avisados do risco de vazamentos (que ocorreram), partiram a geração principal. Denúncias dão conta de que foi inclusive utilizada uma bateria de carro para enganar o sistema de segurança do poço MLZ4.

Questionamos: pode uma plataforma seguir operando desta maneira, inclusive sem gerador de energia de segurança? A plataforma segue habitada e, segundo as denúncias, todos os fatos aqui listados estão registrados nas passagens de serviços.

Lucro x Vidas
O compromisso com vida - tão alardeado pelos gestores em palestras e parte inclusive dos procedimentos internos da empresa, não vale nada para esses gestores. O arrogante Geplat, para citar mais um exemplo absurdo, ordenou ao taifeiro que fosse ao barco de apoio realizar a lavagem dos uniformes, mesmo sem autorização da gerência da base. Uma manobra como esta requer uma análise preliminar de riscos (APR). Está evidente que este gerente não se comporta de acordo com suas atribuições e responsabilidades, mas sim como dono da plataforma e das vidas ali em jogo.

Não menos importante, cabe lembrar que a companhia investiu recentemente num curso para capacitar os “gestores”, chamado de Fatores de Risco. Não fosse absurdo, seria cômico notar que os gestores aqui denunciados sejam capacitados pela empresa para preservar vidas, mas na prática realizar o inverso, gerando riscos e expondo trabalhadores. Tudo o que esses gestores fizeram nos leva a uma única conclusão: todo empenho da companhia foi desperdiçado. Eles não servem.

O Sindipetro Litoral Paulista exige que a direção da companhia, através do gerente geral da UO-BS, dê fim a essa irresponsabilidade, resguardando a segurança da unidade e a vida dos trabalhadores. É um absurdo que os gestores assediadores e irresponsáveis sejam capacitados para praticar na realidade o oposto daquilo que aprendem, seguindo impunes por “cumprir" metas de produção e lucratividade. O lucro nunca deve estar acima das vidas humanas!

Por fim, disponibilizamos abaixo o documento que os “gestores” da plataforma e o próprio gerente geral da UO-BS se comprometeram a cumprir. Se eles esqueceram, nós fazemos questão de relembrar!

Compromisso Visível do Líder com a Segurança
- Acredito que nenhum trabalho é tão urgente ou importante que não possa ser feito com segurança;
- Promoverei o atendimento às regras de ouro definidas pela Cia;
- Paralisarei toda e qualquer atividade ou serviço que represente risco grave e iminente para as pessoas ou instalações;
- Estimularei o registro e tratamento de desvios, incidentes e acidentes que ocorram no ambiente de trabalho;
- Cuidarei das pessoas ao meu redor, praticando e estimulando o programa Amigo do Peito;
- Incentivarei e observarei a LOPAD – limpeza, organização, padronização, arrumação e disciplina;
- Executarei, participarei ou apoiarei os rituais de SMS estabelecidos para minha função, dentre as quais:


Reunião de dias perfeitos; Comitê de segurança de contratadas; Safety stand down, quando necessário; Confirmação de prosseguimento de atividades PQD´s; Inspeção gerencial semanal; REDIA; DDS; Comunicação Segura Confiável e Saudável (CSCS); RAC SMS e SO; Momento de segurança; Audicomp; Apresentação semanal de acidentes; CFO e CFGM; EOR, quando necessário.

Fonte: Imprensa SindipetroLP

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