PLANETA TERRA
Teresinha Ferreira
27 de julho de 2026 às 08:15 ▪ Atualizado há 54 minutos
A Terra não é uma esfera perfeita, mas também não possui, em sua superfície física, as enormes ondulações apresentadas em um novo modelo tridimensional divulgado pela Nasa, modelo 3D da Terra. A visualização, que ganhou repercussão nas redes sociais, representa o geoide terrestre — uma superfície matemática determinada pelas variações do campo de gravidade do planeta.
O modelo interativo foi disponibilizado em 15 de julho de 2026 pelo Scientific Visualization Studio, laboratório do Centro de Voos Espaciais Goddard, da agência espacial norte-americana. Nele, a Terra aparece irregular, com elevações e depressões distribuídas pelo globo.
Essas ondulações não são montanhas, cânions nem fossas oceânicas. Elas mostram como a força gravitacional varia de uma região para outra em razão da distribuição desigual de massa no interior do planeta.
Para que as diferenças pudessem ser percebidas, a Nasa ampliou as deformações do geoide em 10 mil vezes. Sem esse recurso visual, as variações seriam praticamente imperceptíveis diante do tamanho da Terra.
Afinal, qual é o formato da Terra?
A Terra é aproximadamente esférica, mas apresenta um leve achatamento nos polos e uma expansão na região do Equador, provocados principalmente pelo movimento de rotação. Por isso, sua forma geométrica simplificada é descrita como um esferoide oblato. Entretanto, quando os cientistas precisam realizar medições mais precisas, a esfera e o esferoide não são suficientes. Eles utilizam o geoide, uma superfície irregular definida pelo campo gravitacional.
Na prática, o geoide corresponde ao formato que um oceano global em repouso assumiria se estivesse submetido apenas à gravidade, sem a influência dos ventos, das ondas, das marés e das correntes marítimas. Todos os pontos dessa superfície possuem o mesmo potencial gravitacional. É a partir desse referencial que os cientistas estabelecem o nível médio do mar e calculam altitudes com maior precisão.
Portanto, o modelo não significa que a Nasa tenha descoberto um novo formato para o planeta. Ele apresenta uma maneira científica de representar as diferenças existentes no campo gravitacional da Terra.
Modelo tem diferenças de quase 200 metros
Segundo a Nasa, a altura do geoide varia de 85 metros acima da superfície de referência, na região da Islândia, até 106 metros abaixo, no Sul da Índia. A diferença entre os dois extremos chega a 191 metros. Embora seja relevante para medições geodésicas, esse valor é muito pequeno quando comparado ao raio médio da Terra, de aproximadamente 6.371 quilômetros.
A imagem extremamente irregular observada no modelo é resultado da ampliação artificial das variações. Caso fosse apresentada na proporção verdadeira, a Terra continuaria parecendo praticamente lisa e arredondada para um observador no espaço.
Mais de 1 bilhão de observações
A visualização utiliza dados do GOCO06s, um modelo global do campo de gravidade produzido pelo projeto internacional Gravity Observation Combination. O levantamento foi construído a partir de aproximadamente 1,16 bilhão de observações, realizadas durante 15 anos por 19 satélites. Os equipamentos utilizaram diferentes técnicas para medir pequenas mudanças na atração gravitacional do planeta.
Entre as fontes estão dados da missão GRACE, desenvolvida pela Nasa em parceria com o Centro Aeroespacial Alemão, e da missão GOCE, conduzida pela Agência Espacial Europeia. O conjunto também empregou informações das missões Swarm, TerraSAR-X, TanDEM-X e CHAMP, além do rastreamento a laser de satélites a partir de estações instaladas em solo.
O estudo científico que descreve o GOCO06s foi publicado em 2021 na revista Earth System Science Data. A nova contribuição da Nasa foi transformar esses dados em uma visualização interativa acessível ao público.
Como os satélites medem a gravidade
Na missão GRACE, dois satélites percorriam a mesma órbita, separados por uma distância aproximada. Quando o primeiro passava por uma região com maior concentração de massa, sentia uma atração gravitacional ligeiramente mais intensa e acelerava. Essa mudança alterava, de maneira quase imperceptível, a distância entre os dois equipamentos. Os instrumentos registravam as variações, permitindo aos cientistas mapear diferenças no campo gravitacional.
Já o satélite GOCE transportava um gradiômetro, equipamento desenvolvido para medir pequenas variações espaciais da gravidade. A combinação das diferentes técnicas aumentou a precisão e a cobertura global do levantamento.
Distribuição de massa altera a gravidade
A força gravitacional não é exatamente igual em todos os lugares. Ela sofre influência da distribuição de materiais no interior da Terra, da densidade das rochas, das cadeias montanhosas, das fossas oceânicas e de outras estruturas geológicas. Regiões com maior concentração de massa exercem atração gravitacional um pouco mais intensa. Áreas com menor densidade produzem efeitos diferentes. Essas alterações elevam ou rebaixam a superfície matemática do geoide.
O campo gravitacional também pode mudar ao longo do tempo. O derretimento de grandes massas de gelo, as mudanças no armazenamento de água subterrânea e a movimentação de materiais no interior do planeta podem ser detectados por missões espaciais especializadas.
Brasil ajudou a validar o modelo
Dados brasileiros também contribuíram para a validação do GOCO06s. Os pesquisadores compararam os resultados obtidos pelos satélites com medições de nivelamento por sistemas globais de navegação por satélite fornecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Informações semelhantes da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos foram utilizadas no processo de verificação.
O geoide é fundamental para que medições realizadas por GPS e outros sistemas de posicionamento possam ser convertidas em altitudes relacionadas ao nível do mar. Sem esse referencial, diferentes países poderiam utilizar sistemas incompatíveis.
Para que serve o modelo da gravidade?
Os modelos globais do campo gravitacional são empregados em várias áreas da ciência. Entre as principais aplicações estão:
definição precisa de altitudes;
monitoramento do nível dos oceanos;
estudos sobre circulação oceânica;
acompanhamento do derretimento de geleiras;
análise das reservas subterrâneas de água;
pesquisas sobre tectônica de placas;
aperfeiçoamento de sistemas de navegação;
unificação dos referenciais de altitude utilizados pelos países.
A visualização da Nasa pode ser acessada e movimentada diretamente pelo navegador. O usuário consegue girar o modelo para observar as diferentes regiões do planeta e também baixar imagens, vídeo e o arquivo tridimensional.
Fonte: The Geoid, do Scientific Visualization Studio da Nasa.
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