
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado nesta sexta-feira (29), o Brasil enfrenta um desafio que ameaça reverter décadas de avanço no combate ao tabagismo: a explosão do consumo de cigarros eletrônicos, os chamados vapes. Proibidos pela Anvisa desde 2009, os dispositivos se espalham de forma acelerada, especialmente entre adolescentes, com 8,7% dos jovens entre 14 e 17 anos já usando regularmente, índice cinco vezes maior que o do cigarro convencional.
Dados recentes revelam que cerca de 27 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais fumam cigarro convencional ou eletrônico. O atrativo está na diversidade de sabores, no design colorido e na falsa percepção de que se trata de uma alternativa menos nociva. Pesquisas internacionais, como as da Universidade de Michigan, mostram que adolescentes que usam vape têm até 30 vezes mais chance de se tornarem fumantes habituais de cigarro tradicional.
Especialista explica os riscos à saúde de jovens
Para o clínico geral Danilo de Brito Campos, CRM PI 7470, a nova onda do tabaco repete estratégias já vistas em outras épocas. “Nos anos 50 e 60, dizia-se que o filtro tornava o cigarro menos nocivo. Depois vieram as versões light. Agora, o vape é vendido como alternativa segura. Mas o resultado é sempre o mesmo: dependência química e adoecimento”, afirmou.
Para o Dr. Danilo, os vapes atraem jovens com cores e sabores, mas escondem risco de dependência precoce - Reprodução/ Danilo de Brito Campos
Os riscos à saúde são múltiplos. Diferentemente do discurso de “cigarro seguro”, os vapes concentram níveis de nicotina até três vezes maiores que o cigarro comum, acelerando a dependência. Além disso, carregam metais pesados como níquel e cromo, substâncias antioxidantes associadas ao desenvolvimento de doenças pulmonares crônicas, e químicos como diacetil, que pode provocar a bronquiolite obliterante, conhecida como “pulmão de pipoca”. O uso também está relacionado a problemas cardiovasculares, prejuízos cognitivos em jovens e impactos na saúde mental, com maior risco de ansiedade e depressão.
O médico ressalta que a situação é mais grave entre adolescentes, alvo preferencial da indústria. “O apelo visual dos dispositivos e a diversidade de sabores atraem os mais jovens, criando uma geração em risco de dependência rápida e precoce. Isso nos preocupa porque muitos experimentam o vape antes mesmo do cigarro tradicional”, disse.
Mercado ilegal
Apesar da proibição, o mercado ilegal prospera. Cerca de 80% dos usuários afirmam ter acesso fácil aos dispositivos, seja em lojas físicas ou pela internet. “A fiscalização ainda é falha e a regulação lenta. Enquanto 88 países já regulamentaram os vapes, o Brasil não dispõe de mecanismos robustos para conter esse avanço”, apontou Danilo.
Mesmo proibidos pela Anvisa há 15 anos, vapes dominam o mercado ilegal e viram febre juvenil - Reprodução/Anvisa
O alerta também se estende à saúde coletiva. Além dos custos diretos com tratamentos de doenças relacionadas ao tabagismo, os impactos sociais e econômicos se multiplicam, com perda de produtividade, internações prolongadas e aumento das taxas de mortalidade.
Combate ao Fumo
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, que desde 1986 marca a mobilização contra os males do tabaco, especialistas pedem que a atenção seja voltada para essa nova epidemia silenciosa. “Precisamos desmistificar a ideia de que o vape é inofensivo e mostrar, de forma clara, os danos que ele causa. Se não agirmos agora, teremos uma geração inteira marcada pela dependência da nicotina”, concluiu o médico.
(*) Isaac Da Silva é estagiário sob supervisão da jornalista Nayrana Meireles - DRT 0002326/PI