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SUPERAÇÃO

Aluna com sequelas de AVC defende dissertação de mestrado na UFPI

Mesmo com as dificuldades, Carina não desistiu de realizar o sonho de ser farmacêutica


Carnina com a família e com banca avaliadora da dissertação

Carnina com a família e com banca avaliadora da dissertação Foto: Divulgação

Carina Braúna ingressou na Universidade Federal do Piauí (UFPI) em 2004 e quando cursava o terceiro período de Farmácia ela sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). A estudante teve sequelas graves como não conseguir mover os membros superiores e inferiores, dificuldades na fala, para se alimentar e passou a usar cadeira de rodas, Carina precisou passar dois anos ausente da Universidade.   

Os pais de Carina, João Bosco Braúna e Assunção Braúna seguiram os conselhos do médico neurologista que assegurou ser benefício o retorno da filha à UFPI, pois não havia nada que a impedisse de estudar. “Ela não tinha como pegar em livros ou escrever, então precisaria apenas de umas adaptações em termos de instrumentosPor meio de adaptação para computador ela conseguiu recuperar essa capacidade toda e voltou a frequentar a universidade. Terminou o curso de graduação e fez o curso de mestrado, que está sendo concluído agora, com muito sucesso. Eu espero que ela ainda possa conquistar muito espaço pela sua capacidade”, disse o pai.

Com o sonho de ser farmacêutica, Carina voltou a frequentar o curso. No início não foi fácil, pois a Universidade não tinha acessibilidade e sem as rampas, o pai de Carina a carregava às salas de aula. No ano de 2016, Carnina graduou-se em Farmácia e em 2019 ela defendeu sua dissertação de mestrado.

Carina com os pais, João Bosco Braúna e Assunção Braúna

“Minha disciplina é Controle de Qualidade de Medicamentos, que o aluno fica em pé na bancada fazendo as análises. Nas aulas, ela participava observando toda a prática e depois relatava tudo de forma escrita”, lembra a Profa. Dra. Eilika Andréia Feitosa Vasconcelos, atual Coordenadora do Curso de Farmácia-UFPI.

Mayara Ladeira ingressou junto com Carina na graduação, acompanhou de perto toda a situação pela qual passou. Depois de formada, retornou à casa e passou a ser professora substituta da Carina, que já tinha voltado a frequentar as aulas. Pouco tempo depois, quando conquistou seu diploma de farmacêutica, Carina ingressou no mestrado e Mayara tornou-se sua co-orientadora. “Trabalhar com a Carina não é algo novoIsso tudo contribuiu para nossa formação como ser humano, de retornar o que a gente aprende de maneira a contribuir na vida do outro. É uma troca: Carina contribui com a gente, e a gente contribui com ela”, destaca Mayara. 

"Carina foi minha aluna de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Ela foi extremamente dedicada. Acho que a vida pessoal e profissional dela é a mesma. Ela foi a primeira cadeirante do curso de Farmácia da UFPI e aos poucos nós fomos modificando a estrutura dos locais para que ela pudesse fazer as aulas práticas e os estágios obrigatórios, que foram realizados parte na Farmácia Escola e outra parte no Hospital Universitário, então todos nós nos adaptamos a ela, fomos aprendendo com ela também e apesar de ela ter as limitações nós tratamos com muita tranquilidade”, explica André Luís Menezes Carvalho, Subcoordenador do Mestrado em Ciências Farmacêuticas.

Silvana Alencar entrou na vida da Carina para auxiliá-la durante o dia a dia. Mais do que uma funcionária, Carina ganhou uma grande e fiel amiga, disposta a enfrentar todas as barreiras e torcer veementemente para que seus planos sempre deem certo. Mas nem sempre foi tão fácil. Assim que passou a ter os primeiros contatos com a Carina, pensava em não ser capaz de conseguir cumprir com suas responsabilidades. Em casa, Silvana precisava relembrar todos os passos que precisa fazer ao estar com Carina. “Hoje em dia, não, a gente está tão acostumada que só de olhá-la já sei o quer. Às vezes nem precisa terminar a fala e eu já sei”, explica. 


Muito emocionada, Silvana conta que a missão dela terminava junto com a aprovação do mestrado. “É muito difícil e tem muita correria. A mãe dela trabalha fora e fica só nós duas em casa. Disse a Carina que minha missão era só até terminar o mestrado, mas agora pouco ela estava dizendo que queriam botá-la para o doutorado”, revela sorrindo. 

 Carina e Silvana Alencar


Carina conta que precisou reencontrar forças em si mesma e na conexão com sua religiosidade. "Quero dizer que a dificuldade é a gente que faz. Esse período foi um momento de muita aproximação entre mim e Deus. Tantas vezes eu perguntei se era isso mesmo que Ele queria. E, assim, se eu não tivesse essa certeza, essa confiança, eu não conseguiria alcançar", declara.

Devido à sua dificuldade de deslocamento e até mesmo inflexibilidade de horários por conta de tratamentos, durante a graduação e a pós-graduação, Carina usou uma ferramenta inclusiva para pessoas com deficiência e dificuldades de locomoção, chamada Plataforma Moodle. Com essa tecnologia ela pode ser inserida na atividade docência de forma autônoma, sem que precise de acompanhamento constante.

Dissertação 

“O foco do trabalho da Carina é aumentar a segurança do paciente. Ela fez a avaliação dos prontuários, no intervalo de um ano, de uso dos antimicrobianos com o objetivo de aumentar a segurança no uso de antimicrobiano no Hospital Universitário da UFPI. O trabalho dela vai contribuir para o uso racional de antimicrobianos, ou seja, aumentar a segurança de uso de medicamentos”, explica a orientadora Profa. Dra. Graça Medeiros.

Carina analisou mais de cinco mil prontuários de pacientes internados utilizando pistas para identificar os possíveis eventos adversos, por meio da ferramenta Trigger Tools e avaliar os danos causados por cada um deles. “Carina deixou uma contribuição interessante à medida que ela estudou todos os casos relacionados ao uso de antimicrobianos. E, esses pacientes, que tiveram esses eventos notificados e investigados, passaram a ter uma assistência que antes não era possível, porque nós não tínhamos conhecimento que aquele paciente tinha reação adversa. Isso (o trabalho) foi bom devido a esses impactos sociais dentro do HU”, disse a co-orientadora, Profa. Dra. Mayara Ladeira.

Os dados foram analisados através de tabelas, gráficos, porcentagens, médias e desvio padrão. “Carina pôde ter acesso a todo banco de dados online. Ela realizou a busca ativa no Aplicativo de Gestão para Hospitais Universitários (AGHU) e no VigiHosp que são o sistema que circula toda a questão de prontuários, prescrições e gerencia reações adversas e notificações de incidentes e agravos na situação do paciente”.

Segundo a orientadora Profa. Dra. Graça Medeiros, o trabalho de Carina é muito importante para transformar o ambiente de saúde para a cultura de segurança do paciente. “O trabalho é uma contribuição que ela dá para com a sociedade científica, pois mudou o protocolo do uso de alguns antimicrobianos. Já teve uma repercussão local. Como é um mestrado acadêmico, esse trabalho vai ser transformado em livros, artigos, para que possam servir de orientação para os usuários de outros hospitais. No caso, os profissionais”, finaliza.

Pensar em Carina Braúna é enxergar a mulher incrivelmente forte que existe dentro dela. É compreender a garra que emana de seu corpo e o desejo de conseguir ocupar sempre mais espaços. Carina é aluna, amiga, filha, farmacêutica e agora mestra. As conquistas não param por aqui, pois Carina tem o mundo e o mundo clama por ela, pelo seu talento e pela sua inteligência.

Fonte: UFPI

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