INOVAÇÃO DE SABOR
Natalia Costa
03 de julho de 2026 às 17:45 ▪ Atualizado há 1 hora
Quem passa pelo estande da produtora rural Maria José, do povoado Bom Princípio, em Tanque do Piauí, dificilmente resiste à curiosidade. O que chama a atenção é um doce pouco conhecido fora da região, mas que carrega décadas de tradição familiar: o doce de fava.
A iguaria, que vem conquistando os visitantes da III Feira da Agricultura Familiar, Povos Tradicionais e Economia Solidária do Piauí, realizada no Espaço Rosa dos Ventos, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), representa muito mais do que uma receita. Ela preserva a história de mulheres que transformaram um alimento comum do sertão em um símbolo da identidade gastronômica de Tanque do Piauí, município localizado a 206 quilômetros de Teresina.
Segundo Maria José, tudo começou com a avó, Dona Januária, e uma das filhas dela, Maria de Jesus, considerada a criadora da receita.
"Essa ideia começou com minha avó e uma filha dela, que é Maria de Jesus. A Januária é o grupo nosso, o GruProdutora rural Maria José, do povoado Bom Princípio, em Tanque do Piauí | Foto: Piauí Hojepo da Vovó Januária. Foi a filha dela que inventou a fabricação do doce de fava."
Durante muitos anos, o doce era preparado apenas para o consumo da família. Com o passar do tempo, outras mulheres passaram a produzir a receita para venda, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações.
Hoje, Maria José integra esse grupo de doceiras que preserva o modo artesanal de produção e leva o sabor da fava para feiras em diferentes cidades do Piauí.
O doce de fava não nasce da noite para o dia. Antes de chegar às panelas, a fava passa por um processo cuidadoso que exige tempo, dedicação e conhecimento transmitido entre gerações.
Primeiro, os grãos ficam de molho para reduzir o sabor característico da fava. Depois são cozidos, lavados novamente, escorridos e levados ao pilão, onde são socados até formar uma massa fina. Em seguida, essa massa é peneirada, colocada em um pano para retirar toda a água e misturada ao leite extraído da amêndoa do coco.
Só então começa o cozimento com açúcar caramelizado, canela e, para quem prefere, cravo.
Além do doce de fava, Maria José também produz doces de mamão e goiaba, rapadura de caju e trabalha com o coco babaçu, matéria-prima utilizada na produção de óleo.
Tradição que inspira inovação
Em Tanque do Piauí, a fava ganhou novos significados. O ingrediente deixou de ser usado apenas no doce tradicional e passou a inspirar novos produtos que movimentam a economia local.

Segundo Maria José, hoje já existem produtores que fabricam brigadeiro de fava, sorvete, picolé, licor, pão e até pizza feita com a massa da fava.
"Tem uma amiga lá que faz brigadeiro de fava. Também tem picolé, sorvete. Estão introduzindo a massa da fava no pão, na pizza, em todo canto."
Ela destaca ainda o trabalho de uma prima, Joelma, que transformou a fava em um dos principais ingredientes da padaria onde trabalha, produzindo sorvetes, pães e outras receitas inovadoras.
Sucesso entre os visitantes
Na feira, o doce de fava é o produto mais procurado no estande de Maria José. Segundo ela, muitos clientes chegaram após conhecerem a história do produto pela televisão.
A produtora acredita que o alimento tem potencial para ganhar espaço em todo o Brasil e comemora o incentivo dado pelo município para fortalecer a cadeia produtiva.
Enquanto recebe os visitantes em Teresina, Maria José leva consigo muito mais que potes de doce. Leva a memória da avó, o trabalho coletivo das mulheres de Tanque do Piauí e a esperança de que um sabor nascido no interior do estado conquiste cada vez mais brasileiros.
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